Disputa pelo futuro da Gronelândia continua enquanto Trump relança intenção de comprar a ilha e reacende temores profundos na Europa.
A braços com uma sucessão de crises internas e internacionais, os europeus alimentaram a esperança de que, pelo menos, a Gronelândia deixasse de ser uma das suas preocupações.
Essa esperança, porém, durou pouco: apenas seis meses.
Pouco depois de aterrar em Ancara, na Turquia, para participar na cimeira anual dos líderes da NATO, o presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a insistir na ambição de se apoderar da Gronelândia, a ilha rica em recursos minerais que pertence ao Reino da Dinamarca e que o antigo magnata de Manhattan há muito apresenta como o negócio imobiliário definitivo.
A Gronelândia "devia ser controlada pelos Estados Unidos, não pela Dinamarca", afirmou Trump na terça-feira, depois de recebido pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan.
"A Gronelândia não ajuda a Dinamarca. A Dinamarca não gasta dinheiro para realmente ajudar a Gronelândia", acrescentou. (Na realidade, a Dinamarca concede à Gronelândia uma chamada dotação global de quase 600 milhões de euros por ano.)
No dia seguinte, Trump endureceu ainda mais o discurso.
"A Gronelândia é muito importante para os Estados Unidos, mas não é importante para a Dinamarca", disse. "Não estou satisfeito com a NATO pelo que fez em relação à Gronelândia."
As declarações chegaram de imediato às primeiras páginas em todo o mundo, obrigando a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, a voltar a defender a integridade do país face a um dos seus próprios aliados militares, um cenário muito pouco habitual numa cimeira de uma aliança de Defesa.
"A posição dos Estados Unidos é, infelizmente, muito clara neste tema. Mas a nossa posição é tão clara como sempre foi: a Gronelândia não está à venda. Espero que todos os aliados respeitem o direito do povo groenlandês à autodeterminação", disse Frederiksen aos jornalistas em Ancara.
"Estamos prontos a defender cada centímetro da NATO, incluindo o nosso próprio território", acrescentou.
Para os europeus, trata-se de um doloroso regresso a janeiro, quando Trump ameaçou impor uma tarifa de 10% a oito países europeus para forçar a Dinamarca a abdicar da Gronelândia.
A saga traumática, que durou cinco dias, levou a aliança transatlântica a aproximar-se do colapso como nunca em 77 anos de história. A UE, que partilha 23 membros com a NATO, convocou uma cimeira extraordinária de líderes para se preparar para o que poderia ter evoluído para uma guerra comercial em grande escala.
O confronto acabou por ser desativado pelo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que se encontrou com Trump em Davos, na Suíça, e alcançou um "acordo-quadro" para reforçar a segurança na Gronelândia e em toda a região do Ártico.
Uma onda de alívio percorreu a Europa quando os líderes se reuniram em Bruxelas para a cimeira de emergência, o ambiente já era outro. Embora falassem da necessidade de respeito mútuo e de maior vigilância, todos sorriam e davam palmadinhas nas costas, sinalizando vontade de encerrar o capítulo e seguir em frente.
A Gronelândia desapareceu rapidamente do centro da conversa e a atenção política voltou a concentrar-se na Ucrânia, na Rússia, na China e no Médio Oriente.
Longe de estar resolvido
Em Copenhaga, porém, mantinha-se uma forte apreensão, já que a questão de fundo da amarga disputa continuava desconfortavelmente por resolver.
Desde os acontecimentos de janeiro, a Dinamarca e a Gronelândia têm mantido discretas conversações trilaterais com a Casa Branca para encontrar um novo entendimento sobre a ilha coberta de gelo, ainda regulada por um acordo bilateral de defesa de 1951.
A via diplomática tem avançado devagar e ainda não produziu resultados concretos.
Em maio, o jornal The New York Times noticiou (fonte em inglês) que os Estados Unidos estavam a tentar garantir uma cláusula de carácter permanente relativa a destacamentos militares e um direito de veto sobre novos investimentos, para conter a Rússia e a China, dois pedidos que colocam em causa, de forma direta, a soberania.
Na terça-feira, Rutte prometeu "garantir que o acordo é aplicado passo a passo", para que Trump possa, em última análise, instalar o chamado Golden Dome na Gronelândia. (O sistema de defesa, de múltiplas camadas e avaliado em muitos milhares de milhões de dólares, está ainda numa fase inicial de desenvolvimento.)
Embora Copenhaga e Nuuk desejem que a diplomacia tenha sucesso, subsistem sérias reservas quanto a saber se algum acordo conseguirá, de facto, satisfazer a fixação de Trump, tendo em conta o carácter cada vez mais pessoal que assumiu.
Trump apresentou, em diferentes momentos, a Gronelândia como uma transação imobiliária maximalista, uma questão de segurança nacional e um desejo ardente de posse.
Os responsáveis dinamarqueses alertam, em privado, que a Casa Branca pode ainda recorrer a métodos alternativos para avançar com uma anexação por vias não militares e exortam os parceiros europeus a manterem-se em máxima vigilância, em vez de caírem na complacência.
Em Bruxelas, o assunto é tratado com especial cautela, para evitar alimentar tensões.
Durante a cimeira do G7 do mês passado, em Évian, França, uma câmara captou Trump numa curiosa conversa em microfone aberto com António Costa, presidente do Conselho Europeu.
"Percebe?", pareceu dizer Trump a Costa. "Gronelândia."
Apesar de as imagens e o áudio terem sido amplamente divulgados pelos meios de comunicação, a equipa de Costa negou veementemente que o tema controverso tivesse sido abordado.
Após as declarações em Ancara, Bruxelas reagiu com idêntica cautela.
"A integridade territorial, a soberania nacional e a inviolabilidade das fronteiras são princípios fundamentais do direito internacional. São essenciais não apenas para a União Europeia, mas para os países de todo o mundo", afirmou a Comissão Europeia.
"Não deixaremos de os defender e a UE está em plena solidariedade com a Dinamarca e com o povo da Gronelândia."
A Comissão está a atualizar a sua estratégia de segurança para o Ártico, a fim de reforçar a presença europeia na região e aumentar os investimentos, contrariando a velha crítica de Trump de que o continente não assume a sua parte de responsabilidade.
A presidente Ursula von der Leyen tencionava inicialmente visitar a Gronelândia em março para apresentar um pacote financeiro reforçado, mas a viagem foi adiada por tempo indeterminado depois de Frederiksen ter convocado eleições antecipadas. A deslocação continua em avaliação.
Resta saber até onde irá Trump desta vez para concretizar as suas ambições territoriais.
Para já, a sua administração está totalmente concentrada em pôr fim à guerra com o Irão. Além disso, a autoridade de que dispõe para impor tarifas foi enfraquecida após uma dura decisão do Supremo Tribunal dos EUA, e as próximas eleições intercalares para o Congresso – onde a oposição a qualquer tentativa de anexar a Gronelândia é forte – representam um risco para o restante do seu segundo mandato.
A única certeza é que a disputa sobre o futuro da Gronelândia está longe de estar encerrada.
"Do ponto de vista geopolítico, estratégico ou mesmo económico, os argumentos do presidente Trump sobre a necessidade de garantir a propriedade norte-americana da Gronelândia simplesmente não se sustentam. A sua fixação na Gronelândia parece pouco mais do que um impulso imobiliário, e é precisamente por isso que o tema volta continuamente à superfície", afirmou Tiago Antunes, investigador sénior associado do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR).
"E é obviamente profundamente perturbador, para uma aliança de defesa, quando um dos seus próprios membros insiste em tomar o controlo do território de um aliado. Isso mina a própria confiança em que a aliança assenta."