A presidente da Câmara Municipal de Almada decretou situação de alerta devido às falhas no abastecimento que têm afetado algumas zonas do concelho. Na Costa da Caparica, uma das freguesias mais afetadas, centenas de pessoas exigiram a demissão da autarca e medidas urgentes para resolver a situação.
Há vários dias que o concelho de Almada sofre com falhas no abastecimento da rede de água. A situação tem sido particularmente dramática em algumas freguesias, nomeadamente a Costa da Caparica, localizada a cerca de 16 quilómetros da cidade de Lisboa.
Banhada pelo atlântico, esta cidade piscatória fortemente direcionada para o turismo, é uma das mais afetadas pelas falhas consecutivas, que têm perturbado moradores e comerciantes. Na terça-feira, dia 7 de julho, o centro de Saúde da localidade viu-se mesmo forçado a fechar portas devido à falta de água, numa situação que espelha o drama vivido pela população.
"Cheguei a estar cerca de 24 horas sem água", explica à Euronews, Ana Paula Machado, moradora na Costa da Caparica, que explica que a situação se agravou nos últimos dias, mas conta, pelo menos, duas semanas desde o início das falhas recorrentes.
"Tem sido assim uma coisa: de repente tens água, de repente não tens", reforça, indicando que mais do que a falta de água, é a incerteza sobre se e quando pode haver disponibilidade da rede que mais a perturba. "Pelo menos que conseguissem fazer as coisas e que as pessoas soubessem que desta a esta hora, tinham água", indica.
Esta moradora relatou ter visto vários negócios, nomeadamente restaurantes a encerrar em determinados horários, indicando ainda que houve dificuldades para encontrar água engarrafada nos supermercados: "Não havia água, nem na Costa, nem arredores", explica a moradora, que, apesar de ter reservas de água em casa e não ter precisado de comprar, ouviu os relatos de quem precisou e não encontrou.
Apesar de inusitada e de gravidade acrescida, as falhas de água e abastecimento não era propriamente novidade para estas pessoas. Para Ana Paula, é "imperdoável" que nada tenha sido feito para melhorar a rede de abastecimento do concelho.
"Eu não posso, nem consigo, nem ninguém consegue, perdoar ou conceber que algo que já tem anos e anos, que tem recebido aviso atrás de aviso, não tenha sido resolvido. Todos sabem, perfeitamente, que está tudo roto, que está tudo remendado: e não se fez nada."
Os constrangimentos, verificados quando o país atravessava uma forte onda de calor e ainda se faziam sentir temperaturas elevadas, deram origem a um protesto com centenas de pessoas na freguesia. A manifestação foi convocada como um cordão humano silencioso, mas acabou por se transformar numa ação bastante ruidosa, com os próprios manifestantes a cortarem o trânsito à entrada da cidade.
"Hoje está tudo sem água, menos a Costa", explica Emanuel Rodrigues, indicando que durante a manhã houve água a correr nas torneiras da Costa da Caparica.
Morador e empresário naquela localidade, explica que a freguesia foi a única a manifestar-se sobre o tema. "Sempre que houver falta de água, já não há conversas: há barulho", reforça à Euronews.
Proprietário de um salão de cabeleireiro, explica que problemas como a rede de água sempre existiram, mas este ano a situação ganhou novas proporções:
"O abastecimento de água na Costa sempre foi precário, mas nunca tivemos um verão assim. Eu tenho 35 anos e não me lembro de um verão assim. Ainda para mais, na altura de calor, estamos com as torneiras completamente secas. Não há ponta de água desde a Fonte da Telha até à Cova do Vapor", indica.
As limitações no abastecimento, além de incómodas, são sinal de prejuízo para quem mantém negócios, principalmente numa zona sazonal e altamente motivada pelo turismo e serviços. Há restaurantes fechados, pessoas a devolver casas alugadas, tudo por causa da falta de água. "A Costa está vazia", explica Emanuel.
"Há uma semana e meia que não sei o que é faturar acima de 100 euros. Estou a trabalhar a conta-gotas", explica o cabeleireiro. "O meu salão está vazio. Eu hoje tenho quatro clientes e não tenho mais marcações para o dia todo."
Município decreta situação de alerta
Após dias de queixas recorrentes, o executivo municipal ativou o plano de contingência dos SMAS e criou um gabinete de crise na passada segunda-feira, dia 6 de julho. Na quarta-feira, a presidente da Câmara, Inês de Medeiros, decretou situação de alerta no concelho — o patamar mais grave adotado até agora.
De acordo com a autarquia, a atual situação no concelho "é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento".
A Câmara Municipal diz que o consumo médio no concelho "ultrapassa os 300 litros por habitante/dia", bem acima da média nacional de 180 litros por habitante/dia, reforçando que "até junho de 2026, o consumo aumentou, em média, 4,3% no concelho". Os maiores aumentos, segundo informou a autarquia, foram registados nas freguesias da Charneca de Caparica, Sobreda/Lazarim e Costa da Caparica.
Em comunicado, o município indica que é "fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento".
A situação de alerta determina uma série de medidas e regras adicionais para a gestão da rede, nomeadamente a proibição de usos não domésticos como a lavagem de carros, rega de jardins e campos de golfe, enchimento de piscinas, fontes ornamentais, lavagem de pavimentos exteriores.
A autarquia determinou o reforço permanente da monitorização do sistema de abastecimento e dos níveis dos reservatórios, assim como das equipas técnicas para deteção e reparação de fugas e das equipas de fiscalização, de forma a evitar consumos abusivos e desperdícios.
Foram anunciados meios alternativos de abastecimento, como camiões-cisterna, para as zonas mais sensíveis.
Em determinadas zonas foi ainda realizado o corte total do abastecimento em determinadas zonas do concelho, das 22h00 de quarta-feira às 06h00, desta quinta-feira.
Reservas municipais de água com 10% da capacidade
No vídeo, divulgado nas redes sociais da Câmara Municipal, Inês de Medeiros alerta que os reservatórios de água do concelho estão a 10% da capacidade, quando deveriam estar a 60%, numa realidade, segundo a autarca, "simples, mas difícil". Perante a situação, anunciou os cortes estratégicos de forma a fazer face ao problema, e garantir o fornecimento de água e serviços essenciais.
De acordo com a presidente da Câmara Municipal, as próximas duas semanas "vão continuar a ser difíceis ".
Em declarações à RTP, Inês de Medeiros garantiu ainda que a Câmara Municipal foi "surpreendida" com "desvios de rede" e que já falou com a ministra do Ambiente, garantindo, ao contrário do que Maria da Graça Carvalho indicou, que os investimentos na rede foram propostos.
"No PTRR, a primeira coisa que apresentámos como proposta foi um investimento de 10,7 milhões de euros para reforçar a rede", afirmou a autarca à televisão portuguesa.
"Não têm sido feitos os investimentos necessários", acusa ministra do Ambiente
Em causa estão as mais recentes declarações da ministra do Ambiente, que afirmou que o concelho apresenta fugas de água acima da média, além de ter também um défice de investimento na rede de abastecimento.
"Almada é talvez o município com maiores perdas de água, tem muito acima da média, mais de 35%. Portanto, há uma necessidade de manutenção e de investimento que é importante fazer", afirmou a governante, em declarações aos jornalistas em Évora, citada pela agência Lusa.
A ministra reforçou ainda que cabe ao município aos serviços do SMAS a responsabilidade sobre o abastecimento, indicando que o executivo não tinha "nenhum alerta" sobre as falhas que já se vinham a intensificar.
"Não tínhamos nenhum alerta da Câmara de Almada sobre problemas, nem nenhum pedido", referiu, indicando que o primeiro contacto, através de telefone, foi feito na segunda-feira pelo vice-presidente, Filipe Pacheco, sobre o licenciamento de novos furos", indicou.
Maria da Graça Carvalho foi ainda mais longe, dizendo que "não têm sido feitos os investimentos necessários“ na rede de abastecimento e que, apesar de existir "financiamento nos vários programas operacionais no Sustentável 2030", é necessário "concorrer". "É preciso fazer as propostas, negociar e depois lançar os concursos. É assim que se consegue preparar o futuro", afirmou.