O ex-primeiro-ministro Mariano Rajoy voltou a gerar polémica na sua coluna sobre o Mundial. Ao falar de França, rival de Espanha nas meias-finais, escreveu que tem «um nível altíssimo, sim, mas sem franceses». Parte da classe política de ambos os países denuncia o deslize racista.
Mariano Rajoy escreve crónicas depois de cada jogo da seleção espanhola no El Debate (fonte em espanhol) desde o início do Mundial. A desta sexta-feira, intitulada "Hoje chegou a desforra", passava em revista a vitória de Espanha frente à Bélgica e antecipava o que está por vir: o duelo das meias-finais contra França.
Foi aí que o antigo presidente do Governo introduziu a frase que acabou por dominar a conversa. Depois de reconhecer que França "foi duas vezes campeã do mundo e finalista na última edição", que "ganhou todos os jogos que disputou neste Mundial" e que ocupa "a primeira posição no ranking da FIFA", acrescentou: "Tem, além disso, um plantel de altíssimo nível. Isso sim, sem franceses".
O problema é que a afirmação não resiste aos dados. Dos 26 futebolistas convocados por Didier Deschamps, apenas três nasceram fora de França: Michael Olise, nascido em Londres, filho de pai britânico-nigeriano e mãe franco-argelina; Marcus Thuram, nascido em Parma porque o pai, Lilian Thuram, jogava então em Itália; e Brice Samba, nascido na República Democrática do Congo. Os três têm nacionalidade francesa e cresceram, em grande medida, ligados ao futebol de formação do país.
Resposta do governo espanhol
A reação do Executivo não se fez esperar. O ministro dos Transportes, Óscar Puente, atacou Rajoy no X, citando a sua crónica e qualificando-o de "pateta pós-franquista corrupto a quem o poder judicial deste país livrou da prisão por uma porta lateral".
Puente destacou em especial duas passagens do texto: uma referente aos "vermelhos", numa alusão, segundo a sua leitura, tanto aos Diabos Vermelhos belgas como à esquerda espanhola, e a já referida sobre a seleção francesa.
Rajoy, que presidiu o Executivo espanhol entre 2011 e 2018, já antes tinha misturado futebol e política nas suas crónicas deste Mundial. O que é menos habitual é que uma das suas opiniões desportivas acabe por se transformar num tema de confronto institucional, com um ministro em funções a responder diretamente a um antigo presidente do Governo por um comentário sobre a nacionalidade de futebolistas adversários.
Para já, não há comentários adicionais do presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, que teve de reorganizar a agenda após o incêndio de Los Gallardos, adiando atos oficiais, como o da Verja de Gibraltar, previsto para segunda-feira.
Debate com quase 30 anos de história
O comentário de Rajoy não surge do nada. Liga-se a uma discussão que atravessa o futebol francês desde que Zinedine Zidane, Lilian Thuram, Marcel Desailly e Patrick Vieira ergueram a Taça do Mundo pela primeira vez em 1998.
Essa equipa, composta por filhos ou netos de imigrantes oriundos de antigas colónias francesas, foi aclamada como símbolo de uma França diversa, "black-blanc-beur", e como modelo de integração. Nem todos o encararam dessa forma.
Na altura, a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen defendia que essa equipa não representava a França e que era "artificial trazer jogadores do estrangeiro e batizá-los como seleção francesa". O dirigente de extrema-direita reiterou, nos anos seguintes, as críticas aos "Bleus de cor".
Esse discurso, apontado à altura como racista, deixou uma marca que voltou a surgir em diferentes momentos da política francesa, ligada ao debate sobre imigração e identidade nacional. A frase de Rajoy, embora formulada quase três décadas depois, retoma essa mesma lógica: questionar a nacionalidade de jogadores nascidos e formados maioritariamente em França por causa da origem das suas famílias.
França: "Um racismo repugnante"
Em França, a declaração do antigo presidente do Governo espanhol conservador já suscitou numerosas reações nas redes sociais, ao mesmo tempo que começam a surgir as primeiras reações políticas.
O secretário nacional do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, pediu, numa mensagem publicada no X, que Mariano Rajoy seja "condenado", comparando o seu artigo de opinião em "El Debate" com os comentários racistas proferidos por uma senadora paraguaia contra o capitão dos Bleus, Kylian Mbappé.
Essas declarações levaram à abertura de uma investigação por parte da Procuradoria de Paris por "injúrias públicas agravadas", na sequência de uma queixa apresentada pela Federação Francesa de Futebol (FFF) junto do Centro Nacional de Luta contra o Ódio na Internet de Paris.
"Não conseguem evitar mostrar um racismo repugnante para tentar desestabilizar a nossa maravilhosa seleção francesa!", escreveu Fabien Roussel.
A Euronews pediu uma reação ao Eliseu, que ainda não tinha respondido no momento da publicação deste artigo. O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, deverá estar em Paris na terça-feira por ocasião do 14 de Julho, que coincide com o jogo entre França e Espanha.
Por razões óbvias de calendário, Emmanuel Macron não viajará aos Estados Unidos para assistir ao jogo. No entanto, os nossos colegas do "Le Parisien" avançam que o presidente francês o fará caso a equipa se qualifique para a final.
Ainda não se sabe se Emmanuel Macron vai, apesar de tudo, ver o jogo, que começará às 21h00, hora francesa, nem em que condições. Após o desfile militar, o chefe de Estado participará na cerimónia de comemoração do décimo aniversário do atentado de Nice, que fez 86 vítimas durante o fogo de artifício lançado no Passeio dos Ingleses.
Segundo um comunicado do Eliseu, a agenda pública do presidente francês termina às 19h10, com o cumprimento às famílias das vítimas e aos representantes das forças que intervieram naquele momento.