Capturas de ecrã de alterações temporárias na página de Wikipédia de François Letexier foram usadas para sustentar alegações de que o jogo entre o Egito e a Argentina foi combinado.
À medida que o Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 entra na sua fase final, as controvérsias das fases anteriores continuam a gerar alegações enganosas e imagens falsas na Internet.
Por exemplo, a eliminação do Egito do torneio, a 7 de julho, desencadeou uma onda de alegações infundadas nas redes sociais dirigidas ao árbitro francês François Letexier.
Tudo começou depois de a Argentina ter vencido por 3-2 contra o Egito, num jogo repleto de decisões controversas, em que a Argentina saiu vitoriosa após ter estado inicialmente a perder por dois golos. A Federação Egípcia de Futebol apresentou posteriormente uma queixa formal à FIFA, acusando Letexier e a sua equipa de terem cometido “erros graves de arbitragem”.
Entre os pontos de discórdia estavam um golo egípcio que foi anulado pelo árbitro assistente de vídeo (VAR) depois de o médio egípcio Marwan Attia ter sido penalizado por pisar o pé de Lisandro Martinez, e a convicção de que Mohamed Salah sofreu uma falta na área da Argentina, pouco antes de o país sul-americano passar a vencer por 3-2.
O Egito exigiu que Letexier fosse excluído do resto do torneio.
As críticas às decisões arbitrais deram origem a teorias da conspiração mais amplas na Internet. Alguns utilizadores alegaram, sem provas, que a suposta origem judaica de Letexier demonstrava que Israel tinha influenciado o resultado do jogo, enquanto outros utilizaram isso como prova de que a FIFA tinha manipulado o torneio a favor da Argentina.
"O Cubo” (a equipa de verificação de factos da Euronews) analisou mais detalhadamente estas alegações.
Wikipedia serve de ferramenta de desinformação
Várias publicações no X foram utilizadas para divulgar a alegação de que Letexier nasceu numa família judaica ortodoxa, com base numa captura de ecrã da sua página da Wikipédia.
No seu conjunto, estas publicações obtiveram milhares de visualizações no X e no TikTok, mas baseiam-se em provas sem fundamento.
O histórico de edições da Wikipédia, disponível ao público, mostra que a frase “François Letexier nasceu a 23 de abril de 1989 no município de Bédée, na Bretanha, noroeste de França, numa família judaica ortodoxa” foi adicionada à sua página a 8 de julho, nas primeiras horas após o jogo entre a Argentina e o Egito.
A edição fazia referência a um artigo da revista francesa Le Point. O texto em causa centra-se na carreira de arbitragem de Letexier e na sua ascensão no futebol francês, sem qualquer menção à religião, à etnia ou às origens familiares.
Também não existe qualquer reportagem fiável que confirme esta afirmação sobre Letexier.
Após o encontro, foram feitas outras alterações sem fundamento à sua página na Wikipedia. O histórico de revisões do site mostra que alguns utilizadores inseriram a alegação de que o árbitro tinha sido "pago pela Argentina e pela FIFA"» e que o jogo dos oitavos de final com o Egito tinha sido comprado. Ambas as edições foram entretanto removidas.
Capturas de ecrã foram feitas e partilhadas antes de as alegações falsas serem apagadas, o que permitiu que circulassem rapidamente online e lhes deu uma aparência de credibilidade.
Para além do uso abusivo da Wikipedia, outros utilizadores de redes sociais divulgaram ainda mais alegações sem fundamento sobre Letexier.
Uma publicação, com mais de dois milhões de visualizações, afirmava que "as autoridades investigaram a conta bancária de François Letexier e descobriram que, nas últimas 24 horas, antes do jogo, recebeu um pagamento misterioso superior a 500 mil dólares".
Estas mensagens circularam no X em francês, espanhol e inglês, sem indicar qualquer fonte para o que afirmavam.
"O Cubo" também não encontrou qualquer comunicado da FIFA, das autoridades francesas ou de órgãos de comunicação social reconhecidos que correspondesse a estas alegações.
Outra afirmação viral que circulava no X dizia que Letexier tinha sido afastado do torneio na sequência da queixa da federação egípcia.
A FIFA confirmou ter recebido a queixa do Egito, mas, até ao momento, não existe qualquer anúncio oficial de uma investigação a Letexier e à sua equipa de arbitragem.
Na sequência da polémica, o responsável máximo pela arbitragem da FIFA, Pierluigi Collina, saiu em defesa dos árbitros perante as acusações de parcialidade, sublinhando que "uma discussão construtiva sobre decisões fará sempre parte do futebol, mas acusações infundadas não têm lugar no nosso desporto".
"Ninguém pode pôr em causa a integridade dos árbitros do Mundial de futebol da FIFA", acrescentou.
As alegações contra Letexier inserem-se numa narrativa mais vasta e em teorias da conspiração online segundo as quais a FIFA favorece a Argentina, num contexto de críticas de que o organismo que dirige o futebol não aplica as regras de forma consistente.
Fazem igualmente parte de um padrão de desinformação em torno do Mundial: imagens geradas por inteligência artificial, vídeos fabricados e alegações falsas com contornos racistas espalharam-se amplamente online durante o torneio, tendo como alvo equipas e jogadores individuais após encontros polémicos.