Milhares de alunos do ensino secundário esperam que hoje sejam divulgadas as notas dos exames nacionais, mas o processo de classificação das provas tem sido marcado por atrasos, problemas técnicos e falta de classificadores.
Todos os anos, os exames nacionais representam um momento decisivo na vida de millhares de jovens estudantes portugueses, que encontram nesta avaliação a validação para a conclusão do ensino secundário e o ingresso no ensino superior.
Este ano, porém, os nervoso miudinho destes estudantes, associado ao momento e consequente avaliação, foi acrescido da polémica com a correção das provas.
O Ministério da Educação decidiu passar, pela primeira vez, a correção dos exames nacionais do secundário (11.º e 12.º anos) para um sistema totalmente digital, envolvendo mais de 300 mil provas. As respostas continuam a ser escritas à mão pelos alunos, mas são depois digitalizadas e distribuídas eletronicamente aos professores classificadores através de uma plataforma online.
O processo exige, na verdade, duas plataformas: o ministro da Educação, Fernando Alexandre, clarificou, durante uma visita a um dos locais onde são digitalizados os exames, acompanhada pelo jornal Observador, que existe uma plataforma de processamento e tratamento, desenvolvida internamente pelo EduQA, e que é responsável pela receção dos ficheiros digitalizados, pelo seu processamento e pela distribuição das respostas pelos professores classificadores - e esta aparenta ser a ferramenta que mais problemas apresentou durante todo o processo.
Há depois uma segunda plataforma, de distribuição e classificação, sistema ao qual os professores classificadores acedem para corrigir os exames, conhecido com o PCS (Plataforma de Classificação e Supervisão) e que incorpora o SCOI (Sistema de Classificação Online do IAVE). A ferramenta foi desenvolvida pela empresa privada Blat – Creative Powerhouse.
Professores reportam falhas e problemas nas plataformas
O processo sofreu várias críticas, com os professores a reportarem falhas como a digitalização deficiente das provas, nomeadamente falhas na continuação das respostas que não foram corretadamente digitalizadas. Há ainda relatos de provas que desaparecem durante o processo de correção, atrasos no envio e disponibilização online das respostas dos alunos e até problemas no acesso à plataforma pelos professores.
O processo atribulado levou ao adiamento da divulgação das classificações da 1.ª fase de 14 para 17 de julho de 2026, o que o pode impactar o concurso de acesso ao ensino superior, que depende das notas nestas provas.
Na véspera da segunda data estabelecida, esta sexta-feira dia 17, o ministro da Educação não garantia que as notas fossem afixadas, afirmando que 99,3% dos exames estavam corrigidos, mas faltavam professores classificadores para terminar o processo a tempo.
"Precisamos que os professores classificadores continuem disponíveis para fecharmos", explicou Fernando Alexandre, que reforçou que Português e Matemática foram as provas que registaram mais dificuldades mas, em algumas disciplinas, os exames por classificar eram residuais. "Enquanto não tiver as provas todas corrigidas, é claro que há risco” de as notas não serem afixadas no prazo, declarou.
O ministro deu o exemplo da prova de Físico-química: "Faltam 373 respostas para esta prova estar fechada", indicou.
"É muito difícil a sociedade portuguesa, os alunos, as famílias perceberem que uma prova não vai ter resultados publicados porque há 373 respostas por corrigir, quando há cerca de 30 mil que já foram corrigidas", considerou o ministro.
O governante reiterou que haverá uma auditoria para apurar responsabilidades sobre os problemas registados: "A culpa será apurada no fim”.
Fernando Alexandre assegurou ainda que os problemas tecnológicos foram corrigidos e garantiu que o mesmo modelo será utilizado na segunda fase, que começa com o exame de Português a 20 de julho, e só terá resultados divulgados a 7 de agosto.
A Fenprof já fez saber que vai à Procuradoria-Geral da República fazer o pedido formal de averiguação de todo este processo.
Ministro "perdeu o controlo da situação"
Face às declarações do ministro e o apelo aos professores classificadores, a Fenprof (Federação Nacional dos Professores) considerou que Fernando Alexandre “perdeu o controlo da situação”.
“Em vez de assumir, optou por procurar culpabilizar os professores, numa tentativa de desviar as atenções do verdadeiro problema”, afirmou um dos secretário-gerais do sindicato dos professores, durante uma conferência de imprensa.
“O Governo é que falou. Quem tinha a responsabilidade deste sistema era o Governo”, sublinhou. “Os professores não criaram este problema.”
Também na quinta-feira, dezenas de professores manifestaram-se junto ao Centro de Congressos de Lisboa, exigindo a demissão do ministro da Educação devido à gestão de todo processo de avaliação dos alunos.
A ação foi convocada pelo Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (S.T.O.P.). Em comunicado, este sindicato considerou que "o Ministério da Educação tem revelado uma gestão marcada pela falta de planeamento, pela ausência de soluções atempadas e pela recusa em assumir responsabilidades políticas".
A crise foi um dos temas que marcou o debate dsobre o Estado da Nação, realizado durante a tarde de quarta-feira no Parlamento. Apesar de debaixo de fogo, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, garantiu manter confiança total no ministro da Educação, que chegou até a ausentar-se do debate durante a sessão.
Projeto piloto apresentou falhas
No ano passado, realizou-se um projeto-piloto com o exame nacional de Filosofia (11.° ano) a ser corrigido pela primeira vez de forma totalmente digital. Já nessa altura foram reportadas falhas pelos professores classificadores da disciplina, semelhantes àquelas que agora são, novamente, enumeradas. Exames que "desapareceram" do sistema, respostas cortadas e trocadas.
Além dos erros, segundo contou o jornal Observador, que falou com docentes que participaram nas correções, houve ainda relatos de falta de apoio por parte do IAVE (Instituto de Avaliação Educativa), que não respondeu aos pedidos de ajuda dos docentes, tendo estes de submeter as notas sem as devidas orientações.
O ministro “ignorou todos os alertas até no teste de Filosofia de 2025, que teve as mesmas falhas num processo pautado por amadorismo, experimentalismo e mesmo assim ele quis avançar”, afirmou José Feliciano Costa, um dos secretários-gerais da Fenprof, esta quinta-feira.
Problema está na digitalização? Modelo é utilizado em outros países
O que Portugal tenta agora implementar já é rotina noutros países. O Reino Unido é um dos exemplos mais emblemáticos, com um sistema de correção "onscreen" implementado há vários anos e regulado pelo órgão oficial do governo britânico, o Ofqual (Office of Qualifications and Examinations Regulation).
Em Inglaterra, este sistema é usado com as provas do GCSE e A-Levels: os alunos escrevem à mão e depois as as provas são digitalizadas e distribuídas a examinadores certificados. Este ano, o governo britânico lançou mesmo uma aplicação, o "Education Record", para os alunos receberem os resultados digitalmente.
Uma reportagem da BBC mostrou um dos locais que recebe e digitaliza milhões de provas, mostrando todo o processo, implementado de forma gradual no país, desde os anos 2000.
Anualmente, são emitidos cerca de 11,8 milhões de certificados (um por disciplina) regulados no país, dos quais 6,5 milhões correspondem especificamente aos exames nacionais GCSE, AS e A levels.