Em entrevista à Euronews, políticos e especialistas respondem às questões-chave sobre o incidente com drones: da responsabilidade russa ao risco de nova escalada.
O governo federal alemão responsabilizou a Rússia pelo incidente com drones no aeroporto de Leipzig/Halle e anunciou novas medidas. Até 18 de setembro deverá ser encerrado o consulado-geral russo em Bona. Além disso, o governo federal tenciona rescindir o contrato do Russische Haus ("Casa Russa") em Berlim.
Estão ainda previstas novas sanções contra cidadãos russos no contexto de ataques híbridos, controlos de entrada mais rigorosos para nacionais russos, maior pressão sobre a “frota sombra” russa, bem como a convocação do embaixador russo.
Porque é que o chanceler Merz não se pronuncia?
Até agora apenas o ministro federal do Interior e o ministro federal dos Negócios Estrangeiros se pronunciaram sobre o assunto. O chanceler federal Friedrich Merz (CDU) ainda não fez qualquer declaração desde que o governo atribuiu à Rússia a responsabilidade pela tentativa de ataque com drones.
De acordo com Konstantin von Notz, vice-presidente da bancada dos Verdes e vice-presidente do Comité Parlamentar de Controlo, “Friedrich Merz prometeu liderança, mas até agora não cumpriu essa promessa”.
“Ao Conselho Nacional de Segurança da Chancelaria cabe aqui um papel decisivo. Tem de se tornar finalmente operacional. Parece‑nos sensato nomear um conselheiro nacional de segurança que não se ocupe de mais nada”, afirmou von Notz à Euronews.
O porta-voz para a política externa da bancada CDU/CSU no Bundestag, Jürgen Hardt, considera, porém, que “as medidas anunciadas pelos ministros federais Wadephul e Dobrindt são corretas, necessárias e foram coordenadas de perto com o chanceler”.
Markus Frohnmaier, vice-presidente da bancada da AfD no Bundestag e membro da Comissão dos Negócios Estrangeiros, afirma, numa resposta escrita à Euronews: “porque é que o chanceler federal, perante um acontecimento que o seu próprio governo qualifica como guerra híbrida russa contra a Alemanha, não se dirige pessoalmente à opinião pública, terá de ser explicado por Friedrich Merz. Se o governo federal atribui a este incidente a alegada importância estratégica, seria de esperar que o chanceler fizesse, pelo menos, um enquadramento claro”.
O especialista em terrorismo Hans-Jakob Schindler, do International Centre for Counter-Terrorism, explica que “também aqui se trata de manter abertas, do lado alemão, as opções de um nível adicional de escalada”.
“O chanceler já fez há alguns dias uma declaração geral, dizendo que ‘irão pagar um preço’, sem dizer quem terá de pagar esse preço. [...] Dias após o ataque em Leipzig houve uma conferência de imprensa, uma declaração do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, em que ele, muito seriamente, disse que a Rússia já atua de forma bastante agressiva na Europa e que se tornará ainda mais agressiva. [...] Por isso, em termos do potencial de escalada da Alemanha, é preciso, em certa medida, ‘resguardar’ o chanceler para o caso de a situação se agravar ainda mais, de modo a que seja então o chanceler a falar e não dois ministros de tutela. [...] Pretende‑se manter este nível de escalada, porque depois do artigo 4.º resta apenas o artigo 5.º: não há mais nenhum degrau, além de declarar a entrada em vigor da cláusula de defesa coletiva, o que significaria um mundo completamente novo em que nos passaríamos a encontrar.”
Porque é que o governo federal aponta a Rússia como instigadora?
Na Alemanha já se registaram várias vezes sobrevoos de drones e outros alegados atos de sabotagem. Até agora, no entanto, a Rússia não tinha sido responsabilizada por estes incidentes. Porque é diferente desta vez?
Konstantin von Notz, vice-presidente da bancada dos Verdes e vice-presidente do Comité Parlamentar de Controlo saudou as medidas do governo federal, mas considerou‑as “há muito necessárias”. “É positivo que o governo federal tenha finalmente encontrado uma linguagem claramente diferente face a um agressor que há meses ataca o nosso país com espionagem, sabotagem e desinformação. As ameaças aumentaram significativamente nas últimas semanas. Agora, enviam drones armadilhados com explosivos e comandos de assassinos”, afirmou von Notz, em declaração escrita à Euronews.
Segundo o especialista em terrorismo Hans-Jakob Schindler, era “claríssimo” que “mais cedo ou mais tarde, e concretamente quando fosse possível provar ou demonstrar da forma mais sólida e detalhada possível que se tratava da Rússia, teria de ser feita uma declaração”. Reconheceu que não fez parte do processo interno de decisão do governo, mas considerou que o incidente foi “tão agressivo e tão perigoso” que, “se não tivesse falhado, hoje não estaríamos apenas a falar de danos materiais, mas, com grande probabilidade, também de vítimas no aeroporto de Leipzig”.
O porta-voz para a política externa da bancada CDU/CSU no Bundestag, Jürgen Hardt reiterou, numa declaração escrita à Euronews, que as medidas anunciadas pelos ministros federais Wadephul e Dobrindt são “corretas, necessárias e foram coordenadas de perto com o chanceler”. “Qualquer ataque contra o nosso país ultrapassa uma linha vermelha e foi e continuará a ser respondido em conformidade. As medidas anunciadas serão ainda reforçadas e complementadas a nível europeu. Leipzig não foi o primeiro ataque; apenas a atribuição de responsabilidade foi agora tornada pública devido ao grande perigo para cidadãos alemães. A melhor forma de desescalar é através da dissuasão e da capacidade de defesa. O Kremlin aposta que a Alemanha recuará e abandonará a sua proteção e os seus interesses. Isso não irá acontecer, mesmo que AfD e BSW queiram sacrificar a nossa segurança”, afirmou Hardt.
O ministro do Interior, Dobrindt, remeteu, na sua declaração, para as informações de que o governo federal dispõe. Segundo explicou, estas assentam em investigações policiais, no modus operandi e em informações dos serviços de informações.
Moscovo terá escalado o conflito e desencadeado um ataque híbrido contra a Alemanha, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul (CDU), acrescentando que a Rússia terá agora de viver com estas consequências.
Que dúvidas existem sobre as provas da responsabilidade russa?
As provas apresentadas não convencem todos.
A deputada e porta-voz para a política externa da Esquerda, Lea Reisner, exige uma fundamentação compreensível das acusações dirigidas à Rússia.
Em declaração escrita à Euronews, criticou o facto de uma acusação tão grave ter de ser explanada de forma transparente perante o Bundestag e a opinião pública, não podendo assentar apenas em informações dos serviços secretos e na sua alegada plausibilidade.
Segundo Reisner, “a responsabilidade do Kremlin não é implausível; precisamente por isso é necessária uma investigação compreensível e transparente”.
Também o político do SPD Ralf Stegner afirma, em entrevista à Euronews, que “temos naturalmente de nos defender de ameaças híbridas e não podemos deixar ataques contra a Alemanha sem resposta”. “Se, no entanto, isso foi comprovado de forma concreta, não consigo dizê‑lo com base no que foi até agora tornado público”, acrescenta Stegner.
Markus Frohnmaier, vice-presidente da bancada da AfD no Bundestag, manifesta dúvidas sobre o material de prova apresentado. Em declaração escrita à Euronews, sublinhou que “o governo federal atribuiu politicamente à Rússia a responsabilidade, sem até agora tornar compreensíveis as informações dos serviços de informações em que essa avaliação se baseia. Apesar desta tomada de posição, Dobrindt continuou a falar de investigações em curso na conferência de imprensa de ontem”.
Os investigadores da Polícia Federal Criminal (BKA) terão identificado dois homens como suspeitos no âmbito do ataque com drones frustrado contra o aeroporto de Leipzig.
A informação foi divulgada pela NDR, WDR, pelo diário Süddeutsche Zeitung (SZ) e pelo semanário Die Zeit. Segundo estas fontes, trata‑se de um homem nascido na Rússia com nacionalidade letã e de um cidadão bielorrusso com passaporte russo.
O suspeito bielorrusso já teria antecedentes criminais no Báltico. Segundo os dados atualmente disponíveis, entrou no espaço Schengen com um visto de turista italiano, emitido no final de abril pela embaixada italiana em Minsk.
Os investigadores conseguiram, assim, reconstruir os seus movimentos de viagem. Terão igualmente recolhido o seu ADN. O segundo suspeito terá desempenhado um papel importante na preparação do ataque. De acordo com investigações da NDR, WDR e da SZ, terá atuado como auxiliar logístico e instrutor. No final de julho, entrou na Alemanha pelo aeroporto BER, em Berlim, e viajou depois de carro alugado para a Saxónia. Dois dias antes do ataque planeado com drones terá deixado novamente a Alemanha de avião.
Encontra-se a Alemanha em guerra com a Rússia?
Na sua declaração de terça-feira, Dobrindt salientou que a Alemanha não se encontra em guerra com a Rússia. Reisner concorda, mas acrescenta que “ao mesmo tempo o risco de nova escalada é real”.
Stegner acrescenta, em declarações à Euronews, que a Ucrânia deve continuar a ser apoiada na sua defesa, mas que se mantém a linha definida pelo chanceler de que a Alemanha não quer tornar‑se parte beligerante.
O político do SPD afirma na entrevista: “no que toca à ameaça híbrida, temos de melhorar a nossa própria resiliência e, seguramente, também as capacidades técnicas de defesa. Mas, de resto, continua a valer, a meu ver, o seguinte: quando há atentados ou ataques, é preciso obter resultados das investigações e, a partir daí, tirar consequências. Tal como acontece agora com o ataque ao gasoduto Nord Stream: houve processos de investigação e agora foram detidos suspeitos. Existem também declarações políticas, mas de natureza muito diferente. Não considero, por isso, que isto deva ser instrumentalizado para, digamos, uma retórica pública marcial.”
O político da AfD Frohnmaier concorda que a Alemanha, formalmente, não está em guerra com a Rússia. “As relações, porém, há muito assumiram o caráter de um confronto hostil. Isso não justifica operações russas em solo alemão. Mas o governo federal também não pode fingir que o envolvimento cada vez mais profundo da Alemanha neste conflito é isento de consequências em termos de segurança. É precisamente esse envolvimento que rejeito. Considero totalmente errada a lógica política do governo federal, que pretende usar o incidente com drones para um envolvimento ainda maior e mais apoio à Ucrânia. O maior beneficiário desta situação é agora a Ucrânia”, afirma Frohnmaier, que este ano visitou o Fórum Económico de São Petersburgo, na Rússia.
O especialista em terrorismo Schindler sublinha, pelo contrário, que, se a Alemanha se encontrasse oficialmente em guerra com a Rússia, teria necessariamente de ser ativado o artigo 5.º da NATO. “Estamos nesta zona cinzenta em que a sabotagem mais agressiva é organizada pela Rússia e em que procuramos, enquanto Ocidente, enquanto Europa, enquanto Alemanha, encontrar uma resposta que, pelo menos, mostre à Rússia que chegámos ao ponto em que qualquer nova escalada terá um preço bastante elevado, ainda que, para já, sobretudo económico e diplomático”, afirma Schindler.
Que outras etapas de escalada podem surgir?
As avaliações sobre a forma como a Alemanha deve reagir às crescentes ameaças híbridas divergem. Enquanto a AfD alerta para um maior envolvimento da Alemanha no conflito, Konstantin von Notz, dos Verdes, exige uma resposta muito mais determinada por parte do governo federal.
O político da AfD Frohnmaier afirma: “O essencial não é passar em revista todos os cenários de horror imagináveis. O essencial é impedir a escalada e evitar também consequências económicas para a Alemanha.” Acrescentou que quem “envolve mais profundamente a Alemanha neste conflito aumenta também os riscos de segurança concretos para o nosso país”.
Konstantin von Notz, vice-presidente da bancada dos Verdes e vice-presidente do Comité Parlamentar de Controlo declarou, por seu lado, que às palavras firmes do chanceler “tem agora de seguir‑se uma verdadeira ofensiva de segurança contra ameaças híbridas”.
“Enquanto democracia e Estado de direito, temos finalmente de nos tornar muito mais resilientes. Precisamos de ser bem mais resistentes face à agressão aberta da Rússia. Para isso, o governo federal tem de enfrentar de forma decidida os muitos dossiês em aberto há meses. [...] Além disso, são necessários bons panoramas da situação como base para uma ação eficaz das autoridades e para sensibilizar a população. Face a ataques sempre novos, precisamos de uma estratégia interministerial contra a desinformação. Uma tal estratégia já estava inteiramente negociada na altura da coligação semáforo. Não compreendemos porque é que ainda não foi apresentada”, conclui von Notz.