Fim de semana de protestos em Portsmouth e Dover expõe tensões crescentes sobre travessias do Canal, apesar de governo garantir queda nas chegadas.
O governo britânico classificou centenas de manifestantes como “arruaceiros” depois de bloquearem estradas na tentativa de impedir que requerentes de asilo saíssem de Portsmouth, no domingo.
O protesto ocorreu depois de cerca de 140 migrantes terem chegado em pequenos barcos, numa altura em que as tensões em torno das travessias do Canal da Mancha continuam a aumentar.
“Condenamos o comportamento intimidatório e arruaceiro que vimos em Portsmouth ontem à noite”, afirmou em comunicado um porta-voz do Ministério do Interior do Reino Unido.
“O direito a protesto pacífico é fundamental para a nossa democracia, mas nunca pode transformar-se em desordem.”
Imagens mostraram manifestantes, muitos vestidos de preto e com o rosto coberto, a confrontarem agentes da polícia munidos de escudos anti-motim, que formavam um cordão em redor dos autocarros que transportavam os migrantes para um centro de processamento.
Fontes oficiais indicaram que a transferência acabou por ser concluída com sucesso.
A comissária da Polícia e do Crime de Hampshire, Donna Jones, afirmou à BBC que se tratou de “um sinal de alarme” para o governo britânico.
Jones declarou que “as pessoas têm direito a um protesto pacífico” e que isso foi “em grande medida” o que aconteceu na noite de domingo, mas acrescentou que “foram cometidos crimes, que serão agora investigados, e não me surpreenderia que houvesse detenções com base nas imagens recolhidas como prova”.
Afirmou ainda que “centenas” de pessoas atuaram legalmente e advertiu que se trata de “um sinal de alerta para o governo… de que os britânicos estão fartos da falta de controlo das nossas fronteiras”.
O protesto de domingo seguiu-se a uma manifestação semelhante no sábado, quando grupos de pessoas mascaradas bloquearam o acesso ao porto de Dover.
As autoridades francesas disseram que a embarcação que transportava os 140 migrantes tinha partido da Baie de Seine, na Normandia, uma rota invulgarmente longa e mais arriscada em comparação com os barcos que habitualmente partem de pontos mais próximos de Calais e chegam perto de Dover.
Chegadas ao condado de Hampshire, onde se situa Portsmouth, continuam a ser extremamente raras.
Outro deputado conservador local, Joe Robertson, considerou a situação “extremamente preocupante” e questionou se os traficantes de pessoas estarão a abrir novas rotas para embarcações de maior dimensão.
Estes episódios de tensão surgem apesar de dados recentes sugerirem que as travessias estão a abrandar. O Ministério do Interior do Reino Unido indicou que as chegadas pelo Canal da Mancha em agosto desceram para o nível mais baixo desde o início dos registos, em 2018, com o número de migrantes no valor mais reduzido desde 2020.
O número médio de passageiros por embarcação tem vindo a aumentar nos últimos meses. Cerca de 16.513 migrantes atravessaram o Canal da Mancha em pequenos barcos desde o início do ano.
Trata-se de uma pequena fração do total de chegadas ao Reino Unido, que ultrapassa as 800.000 pessoas, na maioria através de vias legais com vistos de estudante ou de trabalho.
A questão continua a alimentar o apoio ao partido Reform UK, sublinhando como a migração se mantém um dos temas políticos mais voláteis em toda a Europa.