Gonzalo Sanz, chefe de gabinete do delegado do governo espanhol em Ceuta, apresentou a demissão. Garante que avisou Miguel Ángel Pérez Triano do alerta da agência de informações sobre uma entrada em massa nesse 29 de julho, o que o delegado diz desconhecer.
O até agora chefe de gabinete do delegado do governo espanhol em Ceuta, apresentou a sua demissão. A renúncia ainda não foi confirmada por fontes oficiais da Delegação do Governo.
Gonzalo Sanz afirma ter recebido o aviso do Centro Nacional de Inteligência a 29 de julho, no qual se alertava para mensagens a circular nas redes sociais entre grupos com 180.000 participantes, um dia antes da entrada de milhares de migrantes a partir de Marrocos.
Segundo a sua versão, transmitiu essa informação ao delegado do Governo, Miguel Ángel Pérez Triano, nesse mesmo dia. Considera que existe uma “incompatibilidade” evidente entre esta afirmação e as diversas declarações que o delegado fez em vários meios de comunicação, nas quais garantia não ter tido conhecimento do aviso até o executivo tornar públicos os relatórios sobre a crise migratória.
Apesar deste passo, o agora ex-chefe de gabinete quis deixar claro que a sua decisão não corresponde a qualquer “acritude” em relação ao delegado, uma vez que, segundo diz, na Delegação do Governo se trabalhou “de forma denodada” para obter respostas do governo central desde o primeiro minuto. Acrescenta que existem relatórios que comprovam o trabalho de alerta dirigido aos diferentes ministérios e exprime o desejo de que Ceuta “recupere quanto antes a normalidade” de que precisa.
Os relatórios e a mensagem do Centro Nacional de Inteligência
A renúncia surge apenas dois dias depois de o governo espanhol ter tornado públicos 40 relatórios antes confidenciais, nos quais constam comunicações do Centro Nacional de Ineligência (CNI) com a delegação do governo e a Guarda Civil.
Nessas mensagens, enviadas por WhatsApp, um agente dos serviços de informações transmitia a sua preocupação com as convocatórias detetadas nas redes sociais para o dia seguinte, 30 de julho, e com a possibilidade de um “assalto” por “mar e terra” à cidade autónoma.
O texto do aviso, tal como se conhece, dizia literalmente que nas redes sociais havia um apelo a um assalto por terra, através da vedação, e por mar, aproveitando a festa do trono, altura em que as forças de segurança estariam ocupadas com o dispositivo festivo, e que dois grupos distintos somavam um total de 180.000 seguidores.
Após essa mensagem, realizou-se uma chamada de 11 minutos entre o gabinete do governo e o agente do CNI. Pouco depois, Gonzalo Sanz respondeu ao membro dos serviços de informações, confirmando que tinha recebido o aviso.
As versões do delegado e do governo
Miguel Ángel Pérez Triano declarou não ter conhecimento dessa conversa e enquadrou o contacto no âmbito de “uma troca de documentação informativa”, nunca, segundo as suas palavras, ligado à possibilidade de uma vaga migratória sem precedentes.
Em conferência de imprensa, o delegado afastou a hipótese de se demitir pela sua gestão da crise migratória e sustentou que, nos dias que antecederam a entrada em massa de 30 e 31 de julho, apenas foi sinalizada “uma situação migratória grave e complexa”, sem que em momento algum se tivesse alertado para a dimensão do que veio a acontecer.
Afirmou também que não permitirá que se ponha em causa o trabalho da Delegação do Governo, já que, na sua opinião, o que aconteceu a 30 de julho ultrapassou qualquer medida que pudesse ter sido adotada.
O governo espanhol, por seu lado, negou em inúmeras ocasiões que o CNI o tivesse avisado de que podia verificar-se uma entrada em grande escala, versão que os relatórios entretanto publicados e a mensagem agora divulgada colocam em causa.