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França e Alemanha com dificuldade em acertar posições na defesa europeia

Chanceler alemão Friedrich Merz e Presidente francês Emmanuel Macron dão conferência de imprensa após o Conselho franco-alemão, na Alemanha, em 17 de julho de 2026
Chanceler alemão Friedrich Merz e presidente francês Emmanuel Macron dão conferência de imprensa após o Conselho de Ministros Franco-Alemão, na Alemanha, em 17 de julho 2026. Direitos de autor  AP Photo/Oliver Berg
Direitos de autor AP Photo/Oliver Berg
De Luca Bertuzzi
Publicado a
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Perante uma forte pressão para investir na defesa e assumir a própria segurança, a UE vê expostas divisões estratégicas profundas entre França e Alemanha, que travam uma resposta europeia eficaz.

Paris e Berlim nunca chegaram a acordo sobre até onde a UE deve ir na construção de uma indústria de defesa própria, em vez de manter o mercado aberto a parceiros externos. Agora, numa altura em que as necessidades de defesa da Europa aumentam, esse desacordo está a chegar a um ponto crítico.

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Com Washington a afastar-se gradualmente da Europa, a pressão russa a aumentar na frente oriental e as ambições geopolíticas da China em expansão, raras vezes a UE enfrentou um momento tão urgente para reforçar as suas capacidades de defesa. Mas França e Alemanha não conseguem chegar a acordo sobre a forma de o fazer.

Desde que Donald Trump regressou à Sala Oval, em janeiro de 2025, a despesa em defesa na Europa disparou, impulsionada por uma administração que raramente perde uma oportunidade para acusar os aliados de andarem à boleia do poder militar norte-americano.

O quinto ano da guerra da Rússia contra a Ucrânia, combinado com a retirada anunciada de tropas de Washington da Europa, alimentou ainda mais as preocupações nas capitais da UE sobre a necessidade de reforçar a prontidão em matéria de defesa, tanto para apoiar Kiev como para reforçar a dissuasão.

Mas, apesar de nunca ter havido tanto dinheiro disponível para a defesa europeia, continua a faltar uma visão partilhada ao nível da UE sobre a forma de construir essa capacidade: recorrendo exclusivamente à indústria interna ou em parceria com aliados.

“É, na verdade, um desacordo dentro do campo pró-europeu sobre qual é a melhor estratégia para construir uma indústria forte na Europa e, sobretudo no domínio da defesa, para ser independente de todas as grandes potências mundiais”, afirmou ao Euronews o eurodeputado Jean-Marc Germain (França/S&D).

Visões opostas

Depois de Friedrich Merz se tornar chanceler alemão no ano passado, parecia haver inicialmente uma maior convergência entre Paris e Berlim sobre a forma de enfrentar os desafios de segurança comuns.

“Decidimos trabalhar em conjunto para garantir uma preferência europeia nos setores essenciais e críticos da produção industrial, incluindo nas nossas compras públicas. Até há pouco tempo, isto era um tabu na Europa”, declarou o presidente Emmanuel Macron durante uma conferência de imprensa conjunta em agosto de 2025.

Mas, apesar desse compromisso inicial com uma preferência europeia nas compras públicas, tendo os contratos de defesa como principal campo de ensaio, divergências estratégicas profundas reapareceram rapidamente.

Desde a Segunda Guerra Mundial, Paris tem defendido a ideia de autonomia estratégica: a Europa deve atuar como potência independente, distinta de ambas as superpotências, construindo um arsenal nuclear soberano e um complexo militar-industrial correspondente.

Já a Alemanha do pós-guerra manteve tradicionalmente a economia aberta, tratou o seu excedente comercial como quase intocável e manteve a despesa em defesa relativamente baixa, confiando na NATO para a sua segurança.

Porém, desde o início da segunda administração Trump, Berlim abandonou a histórica frugalidade orçamental, isentou a despesa em defesa e segurança do travão constitucional à dívida e fixou um objetivo de 3,5% do PIB para a despesa militar até 2029.

Ainda assim, a mudança de posição da Alemanha no domínio militar não a aproximou do seu principal parceiro europeu; pelo contrário, expôs uma tensão profunda entre as mentalidades dos dois países.

“Trabalhamos em estreita cooperação com a indústria de defesa americana e tencionamos continuar a fazê-lo. Há simplesmente sistemas que ainda não temos, ou que atualmente não temos. Mas precisamos deles com urgência nos próximos cinco a dez anos”, afirmou o ministro federal da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, em conferência de imprensa em julho.

Sendo tradicionalmente o motor da integração europeia, a UE raramente avança sem que França e Alemanha se movam em conjunto. Mas essa parceria dificilmente enfrentou tensões tão visíveis como as que marcam atualmente as negociações sobre o próximo orçamento plurianual do bloco.

Preferência europeia

A proposta inicial da Comissão Europeia reservou 131 mil milhões de euros para defesa, segurança e espaço no âmbito do novo Fundo Europeu de Competitividade, um aumento de cinco vezes em relação ao período orçamental anterior.

França quer que esse dinheiro sirva para apoiar uma base industrial de defesa verdadeiramente europeia, enquanto a Alemanha pretende preservar a liberdade de trabalhar com empresas de parceiros da NATO como a Noruega, o Canadá e o Reino Unido.

Elementos de preferência europeia já foram inscritos na política de defesa da UE. Ao abrigo da iniciativa Security Action for Europe (SAFE), do Programa da Indústria Europeia de Defesa e do Empréstimo de Apoio à Ucrânia, pelo menos 65% dos produtos de defesa adquiridos têm de ser produzidos na Europa.

Mas estes programas incluem igualmente exceções para situações em que a produção europeia não consegue cumprir os prazos, volumes ou custos exigidos, derrogações que França tem vindo a pressionar para eliminar, incluindo para itens como intercetores balísticos e componentes de drones.

Em última análise, a UE procura conciliar dois objetivos em simultâneo: responder às necessidades imediatas de reforço da dissuasão europeia e de apoio ao esforço de guerra da Ucrânia, enquanto aumenta a produção interna para cortar dependências estratégicas a longo prazo.

“França e Alemanha partem de pontos de partida muito diferentes”, disse um diplomata da UE ao Euronews, acrescentando que “nem sempre veem as coisas da mesma maneira, mas esta tensão é positiva porque ajuda a fazer avançar a discussão”.

Mas, enquanto Bruxelas tenta conciliar o pragmatismo de curto prazo com a estratégia de longo prazo, os efeitos nas relações franco-alemãs já se fazem sentir, minando projetos conjuntos e alimentando a fragmentação nacional no conjunto da UE.

Colaboração a fraquejar

No início deste ano, Berlim anunciou um sistema de comunicações militares baseado em satélite no valor de 10 mil milhões de euros, em concorrência direta com a rede de conectividade segura IRIS² da UE, o que suscitou receios de duplicação de esforços.

Em junho, França e Alemanha abandonaram formalmente os planos para construir um caça de nova geração ao abrigo do Future Combat Air System (FCAS), um programa avaliado em 100 mil milhões de euros, depois de divergências industriais se terem revelado insolúveis.

O colapso do FCAS também colocou em causa a colaboração franco-alemã em matéria de carros de combate no âmbito do Main Ground Combat System (MGCS), com Berlim a procurar, segundo relatos, mais autonomia nacional e opções alternativas.

Entretanto, o governo alemão tem pressionado Washington para permitir a produção licenciada na Alemanha de sistemas de armas americanos avançados, em particular interceptores Patriot e mísseis de cruzeiro Tomahawk.

Para Paris, tudo isto são sinais de que Berlim segue uma abordagem ‘Germany first’: localizar a produção de defesa no país através de contratos de licenciamento em grande escala com empresas americanas; realizar investimentos nacionais maciços enquanto defende cortes no próximo orçamento da UE.

Berlim, pelo contrário, vê França como caso isolado neste debate, ao insistir em regras de preferência europeia muito rígidas que, na visão alemã, favoreceriam empresas francesas, quando grande parte da indústria de defesa da UE colabora abertamente com parceiros da NATO.

“É uma questão que tem de ser levada a sério, porque é um verdadeiro bloqueio”, declarou o eurodeputado Germain. “As posições não estão apenas muito afastadas, baseiam-se em estratégias completamente diferentes para a competitividade e a defesa europeias.”

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