A China avança rapidamente nos centros de dados orbitais, enquanto a Europa ainda discute o conceito, alerta uma nova nota de política, e o fosso começa a alargar-se
Impulso da China para os centros de dados orbitais arrisca deixar a Europa para trás, segundo uma nova nota de política do Instituto Europeu de Política Espacial (ESPI).
Os centros de dados orbitais são cada vez mais vistos como ativos estratégicos centrais para processar as enormes quantidades de dados geradas pela inteligência artificial e pelos sistemas de satélites.
A nota, intitulada “Constellating Compute: China’s Domestic Policy Towards Orbital Data Centre Leadership”, alerta que, se o fosso tecnológico se alargar de forma significativa, a Europa arrisca ter de processar os seus próprios dados espaciais através de atores terceiros e perder acesso a informação orbital.
Os esforços europeus já começaram, mas continuam limitados em escala.
O projeto de investigação ASCEND, financiado pela UE e apoiado no âmbito do Horizonte Europa desde 2023, concluiu que os centros de dados orbitais podem reforçar a soberania digital europeia.
A Agência Espacial Europeia (ESA) trabalhou também com a empresa britânica Open Cosmos no satélite Φ-sat-2, que integra capacidades de IA para observação da Terra.
A start-up francesa ALATYR anunciou igualmente planos para fabricar centros de dados orbitais montados por robôs. Ainda assim, face aos desenvolvimentos na China e nos Estados Unidos, o fosso na Europa começa a alargar-se.
China lidera a corrida aos centros de dados orbitais: porquê
A China tem encarado a computação baseada no espaço como uma prioridade estratégica nacional, dando origem a uma vaga de iniciativas e políticas apoiadas pelo Estado para apoiar esse objetivo.
No centro deste esforço está a estatal China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC), que, em conjunto com o Governo Municipal de Pequim e o Parque Científico de Zhongguancun, formalizou pela primeira vez os centros de dados orbitais numa nova estratégia.
Segundo a nota, a China combinou elaboração de políticas de cima para baixo, adaptação das indústrias privada e estatal, incentivos de governos municipais e provinciais e apoio a atores não estatais e grupos de trabalho.
Constelações protótipo de grande visibilidade impulsionaram a implementação inicial. A constelação Three-Body, lançada pela start-up ADAspace em maio de 2025, representou o primeiro exemplo operacional de computação baseada no espaço.
Num laboratório conjunto com a Universidade Jiao Tong de Xangai, a ADAspace usou desde então a capacidade de computação em órbita da constelação para controlar um robô no solo, num de vários ensaios técnicos realizados pela empresa desde que os satélites chegaram à órbita.
Outras empresas seguiram o mesmo caminho. A Beijing Orbital Twilight Technology Co., Ltd. (Orbital Chenguang) anunciou em abril de 2026 uma ronda de capital cujo montante não foi divulgado, acompanhada de 7,4 mil milhões de euros em financiamento através de dívida.
A Nayuta Space revelou a sua constelação de supercomputação ALAYA, que prevê o lançamento de 12 500 satélites de computação. A Shanghai Xingshu Tiansuan Space Technology Co. apresentou o seu plano Xingshu na Conferência Mundial de IA, em julho de 2026, com a ambição de chegar a 1000 satélites.
A China Mobile, o Zhejiang Lab, a Bailing Aerospace, a Zhongke Tiansuan Technology e a Interstellar Glory Space-Based Computing Technology (iSpace) anunciaram também as suas próprias constelações.
O Governo Municipal de Pequim avançou para incubar ainda mais o setor, lançando em junho de 2026, em conjunto com o Parque Científico de Zhongguancun, um concurso para propostas de projetos de centros de dados orbitais e criando um centro de inovação em computação espacial, que reúne empresas rivais, como a GalaxySpace e a Landspace, num modelo que combina empresa e aliança.
Segundo a estação estatal CGTN, as áreas prioritárias deste centro incluem o desenho de chips para computação baseada no espaço, cargas úteis de computação de alto desempenho e tecnologias integradas de computação em cloud espaço-solo.
A CASC definiu também um plano quinquenal para o setor, acordado com a Sociedade Chinesa de Astronáutica em janeiro de 2026, sob a orientação de organismos estatais como a Administração Nacional do Espaço da China.
De acordo com a reportagem da CGTN sobre o plano, este inclui a construção de uma infraestrutura digital espacial de nível gigawatt, que combina tecnologias de cloud, edge e terminais, embora os documentos de política subjacentes não pareçam ter sido publicados formalmente e a Euronews não tenha conseguido verificar de forma independente estas informações.
A nota recomenda que a UE estabeleça uma orientação política coordenada, apoios ao investimento e um enquadramento regulamentar para o desenvolvimento de centros de dados orbitais, que seja criada uma iniciativa emblemática no âmbito dos projetos Moonshot do Horizonte Europa, no Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034, e que os atores espaciais europeus constituam grupos de trabalho com homólogos internacionais sobre normas e soberania dos dados.