Rival russo ao Starlink sofre novo revés: um lote inteiro de satélites falhou a entrada em órbita, mas mesmo um sistema parcial pode tornar mais precisos os ataques à Ucrânia
Nenhum dos 16 satélites que a Rússia lançou em 19 de julho, no âmbito do programa Rassvet, a tentativa de Moscovo de construir a sua própria versão do Starlink para orientar os drones e mísseis usados contra a Ucrânia há mais de quatro anos, atingiu a órbita prevista, segundo o Institute for the Study of War (ISW), que cita dados do rastreador de satélites em tempo real N2YO.
A maioria dos satélites está a altitudes entre 300 e 400 quilómetros, “muito aquém da altitude operacional prevista de 870 quilómetros para os satélites Rassvet”, lê‑se no relatório.
Pelo menos dois satélites parecem encaminhar‑se para a reentrada na atmosfera terrestre.
Os que operam a altitudes mais baixas enfrentam maior resistência atmosférica, consomem combustível mais depressa e têm vidas operacionais mais curtas do que os que voam mais alto, o que significa que os satélites afetados dificilmente durarão tanto quanto a Rússia previa, mesmo que se estabilizem.
A internet via satélite tornou‑se central na forma como ambos os lados travam esta guerra.
O acesso da Ucrânia ao Starlink permite às suas forças operar drones de reconhecimento e ataque, coordenar a artilharia e manter‑se ligadas em zonas onde os bombardeamentos russos destruíram a infraestrutura terrestre.
As consequências em jogo estão longe de ser abstratas. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia, em fevereiro de 2022, a Missão de Monitorização de Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia (HRMMU) verificou, até ao final de julho, pelo menos 16 874 civis mortos e 51 173 feridos.
A HRMMU afirmou num relatório publicado em 13 de agosto que julho de 2026 foi o mês mais mortífero para civis ucranianos desde março de 2022, com pelo menos 437 mortos e 2 610 feridos, devido a um forte aumento dos bombardeamentos aéreos e dos ataques com bombas planadoras, a par de contínuos ataques com mísseis e drones de longo alcance contra cidades longe da linha da frente.
Os relatórios mensais da missão registaram também recordes sucessivos de vítimas de drones de curto alcance perto da frente, em abril e maio.
Uma constelação Rassvet plenamente operacional alargaria a capacidade da Rússia de orientar ataques a maiores distâncias e com maior precisão, razão pela qual as falhas repetidas do programa têm impacto muito para lá dos detalhes técnicos.
Registo de lançamentos problemático
Dos 16 satélites Rassvet lançados em 24 de março, 12 atingiram a altitude prevista de 550 quilómetros e continuam aí, segundo o relatório.
Esses satélites já oferecem às forças russas duas janelas diárias de ligação com terminais no solo, que totalizam até 90 minutos sobre a Ucrânia.
Moscovo parece estar a acelerar o programa para compensar a perda de acesso ao Starlink. O ministério da Defesa da Ucrânia afirmou, no início de fevereiro, que os terminais Starlink usados de forma ilícita por forças russas tinham sido desativados depois de Kiev e da SpaceX terem adotado um sistema de “lista branca” que restringe a rede a terminais verificados.
“A Rússia pode não estar preparada para acelerar a colocação em órbita da constelação a este ritmo e deverá enfrentar atrasos adicionais”, refere o relatório do ISW.
Mas a ameaça não desapareceu. O ISW advertiu que os satélites já em órbita “podem permitir às forças russas realizar ataques mais precisos contra a Ucrânia, usando sistemas não tripulados controlados remotamente”, durante as janelas em que a ligação funciona, lembrando que a Rússia não precisa de uma constelação totalmente operacional para continuar a infligir danos, bastando‑lhe uma parcialmente funcional.
Escala fica aquém
A Bureau 1440, empresa aeroespacial russa que desenvolve os satélites, afirmou que prevê “dezenas” de lançamentos adicionais para colocar em órbita centenas de novos satélites.
Serhii Beskrestnov, então conselheiro do ministro da Defesa ucraniano, afirmou em 31 de maio que a Rússia precisaria de pelo menos 200 a 250 satélites em órbita para garantir uma ligação contínua e estável e que Moscovo dificilmente atingirá esse objetivo no curto prazo.
O relatório atribuiu o estrangulamento da Rússia à dependência do foguetão Soyuz‑2.1b, “um recurso caro e escasso”.
Desde 2022, o país realizou apenas entre seis e oito lançamentos de foguetões Soyuz‑2.1b em todas as missões espaciais e comerciais, um ritmo que, segundo o ISW, permitiria “um máximo de 128 satélites Rassvet em quatro anos”, e apenas se todos os lançamentos fossem bem‑sucedidos e nenhum fosse desviado para outras finalidades.
Até agora, apenas 37,5 % dos satélites Rassvet lançados alcançaram uma altitude operacional sustentável.
Ucrânia atinge cadeia de fornecimento
As forças ucranianas também atacaram a infraestrutura por detrás do programa, num aparente esforço para travar um sistema que ampliaria a capacidade da Rússia de realizar ataques mortais na Ucrânia.
As forças ucranianas atingiram, na noite de 14 para 15 de agosto, o Progress Space Rocket Center, que produz veículos de lançamento do tipo Soyuz.
Um novo ataque foi tentado contra o Cosmódromo de Plesetsk em 23 de agosto, dois dias antes de a Rússia lançar um veículo Soyuz‑2.1b que, segundo informações, transportava um satélite GLONASS‑K1, parte da alternativa russa ao GPS.
Ambos os lotes de satélites Rassvet foram lançados a partir de Plesetsk, e o relatório concluiu que os ataques ucranianos “ameaçam não só o limitado fornecimento e produção de veículos de lançamento da Rússia, mas também a escassa infraestrutura de lançamento para colocar satélites em órbita”, uma infraestrutura que, se continuar a funcionar, tornará a guerra da Rússia contra a Ucrânia muito mais letal.