Com os Jogos Olímpicos de Inverno à porta, equipa dos EUA ajuda os seus atletas a dar prioridade à saúde mental, ao sono e à resiliência, acima das medalhas
Se o único critério fosse ganhar medalhas de ouro, quase todos os atletas olímpicos seriam vistos como tendo falhado.
Emily Clark, psicóloga clínica do Comité Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos (USOPC), vai ajudar os atletas a interpretarem o que significa ter sucesso quando os Jogos de Inverno abrirem em Itália, a 6 de fevereiro.
Integrada numa equipa de 15 elementos que presta serviços de psicologia, Clark acompanha atletas habituados a triunfar mas que, invariavelmente, correm o risco de falhar.
A equipa trabalha saúde mental e desempenho, incluindo temas como motivação, gestão da raiva, ansiedade, perturbações alimentares, questões familiares, trauma, depressão, sono, gestão da pressão e viagens.
A especialidade de Clark inclui gestão do stress, a importância do sono e conseguir que os de alto rendimento rendam ao melhor nível e evitem a tentação de olhar apenas para os resultados.
“Muitos atletas, hoje, estão conscientes da componente de saúde mental, não só no desporto, mas na vida”, disse à Associated Press. “É uma área onde os atletas podem desenvolver competências que prolongam a carreira, ou a tornam mais gratificante.”
Redefinir o sucesso
Prevê-se que os Estados Unidos levem cerca de 235 atletas aos Jogos Olímpicos de Inverno e cerca de 70 aos Paralímpicos.
“A maioria dos atletas que passam pela Team USA não vai ganhar uma medalha de ouro”, disse Clark. “É a realidade do desporto de elite”.
Os Estados Unidos conquistaram medalhas de ouro em nove provas na última edição dos Jogos de Inverno, em Pequim, em 2022.
Clark diz muitas vezes aos olímpicos e paralímpicos: Isto é uma oportunidade única. Concentrem-se no processo. Saboreiem o momento.
“O vosso trabalho não é ganhar uma medalha de ouro; o vosso trabalho é fazer o que têm de fazer, e a medalha de ouro é o que acontece quando fazem o vosso trabalho”, disse.
“Parte disto pode passar por realinhar o que é o sucesso”, acrescentou. “E parte disto é desenvolver resiliência perante contratempos e falhas”.
Clark defende manter o foco sob pressão e melhorar através da derrota.
“Ficamos mais fortes quando nos levamos até um limite em que estamos na capacidade máxima, e depois recuperamos”, disse. “Quando estamos sob stress, isso afeta a atenção. Manter o foco e alinhar com o que é importante é aquilo para que treinamos”.
Serviços de saúde mental na equipa dos Estados Unidos
Kendall Gretsch conquistou quatro medalhas de ouro nos Jogos Paralímpicos de Verão e de Inverno e atribui parte do sucesso aos serviços de saúde mental do USOPC.
“Temos um psicólogo do desporto que viaja connosco durante grande parte da época”, disse. “Só poder trocar impressões com ele... e receber aquele lembrete sobre porque estás aqui. Que experiência procuras?”.
A patinadora norte-americana Alysa Liu, campeã do mundo em 2025 e sexta nos Jogos de 2022, também acredita muito na psicologia do desporto.
“Trabalho com uma psicóloga do desporto”, disse, sem revelar o nome. “É incrível, a verdadeira MVP.”
Claro que MVP não significa Most Valuable Person nem Most Valuable Player, mas sim “Most Valuable Psychologist”.
Importância do sono
“O sono é uma área em que os atletas tendem a ter dificuldades por várias razões”, disse Clark, enumerando questões como horários de viagem, treinos tardios, lesões e stress da vida.
“Temos muitos atletas que são pais e, nas fases iniciais da parentalidade, o sono vai ser muito interrompido”, disse. “Encara-se o sono como parte real do desempenho. Mas pode ser algo que fica para segundo plano quando os dias ficam cheios”.
Clark sugere o seguinte para os seus atletas (e para o resto de nós): nada de cafeína depois das 15h, reduzir o stress antes de deitar, manter um horário regular de sono, dormir num quarto escuro e dormir entre sete e nove horas por noite.
“O sono é a pedra angular de um desempenho saudável”, acrescentou.
Dani Aravich, duas vezes paralímpica (esteve nos Jogos de Verão e nos de Inverno), vai competir no esqui nos próximos Paralímpicos. Disse numa entrevista recente que recorre regularmente a muitos dos serviços de psicologia disponibilizados pelo USOPC.
“Comecei a monitorizar o sono”, disse, referindo Clark como conselheira. “Sobretudo sendo uma atleta com vários trabalhos, o sono vai ser o teu maior aliado, sempre. É aquilo que, enfim, ajuda na clareza mental”.