Ucrânia corta de forma sistemática as vias terrestres de abastecimento das forças russas para a Crimeia ocupada, isolando a península das tropas de Moscovo e de quaisquer fornecimentos vindos da Rússia.
O ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, confirmou que Kiev está a isolar deliberadamente a Crimeia dos abastecimentos russos e, em última instância, do controlo de Moscovo.
"A Crimeia está a ser isolada por drones. Num futuro próximo, tudo indica que a península da Crimeia se vai transformar numa ilha", afirmou Fedorov numa entrevista na quarta-feira.
"E isso poderá ter consequências muito inesperadas para os russos. Não posso dizer mais nada", acrescentou Fedorov.
Fedorov adiantou que Kiev assegurou, nos primeiros quatro meses de 2026, 300% mais drones de ataque de médio alcance do que em todo o ano de 2025.
Os drones de ataque de médio alcance têm um raio de ação entre 20 e 200 km e permitem às forças ucranianas operar perto da linha da frente, em territórios do sul da Ucrânia ocupados pela Rússia e nas rotas logísticas que abastecem as tropas de Moscovo nas zonas ao longo da costa do mar de Azov, por onde passam todas as vias de abastecimento para a Crimeia anexada.
Uma ponte ferroviária na Crimeia ocupada pela Rússia foi atingida na quinta-feira num ataque com drones, provocando um incêndio, de acordo com canais de monitorização no Telegram.
Um dia antes, as forças ucranianas também tinham atingido uma ponte rodoviária sobre o canal da Crimeia do Norte, perto da aldeia de Stavky, e outra ponte perto de Voinka, na região ocupada de Kherson, confirmou o Estado-Maior ucraniano.
Fedorov acrescentou que Kiev lançou aquilo a que descreveu como um programa de "bloqueio logístico", que canaliza financiamento adicional diretamente para unidades militares capazes de adquirir e colocar rapidamente em operação drones de ataque de médio alcance.
"Para os russos, o inferno está a começar, um inferno muito difícil de suportar", disse Fedorov. "A logística está a ser cortada. A Crimeia está a ser isolada", afirmou.
Kiev tem visado cada vez mais a capacidade da Rússia para sustentar as suas forças na Crimeia, tornando as operações militares e a presença de Moscovo na península progressivamente insustentáveis.
Cortar as vias terrestres de abastecimento
A posição geográfica da Crimeia é simultaneamente estratégica e invulgarmente complexa, situada entre o território continental da Ucrânia, a Rússia e a mais vasta região do mar Negro.
A norte, a Crimeia está ligada ao sul da Ucrânia ocupado por Moscovo por um estreito corredor terrestre através do istmo de Perekop e por uma rede de estradas e linhas ferroviárias que atravessam as partes da região de Kherson sob ocupação desde 2022.
Moscovo utiliza estas vias terrestres de abastecimento para deslocar tropas, munições e combustível para a península.
É esta a zona que Kiev tem vindo a atacar de forma sistemática para perturbar esses fluxos.
A Rússia abastece as suas forças na Crimeia com gasolina, gasóleo e combustível de aviação através de três canais principais: camiões-cisterna e comboios-cisterna que atravessam a ponte de Kerch a partir da Rússia, envios por via marítima e rotas terrestres que passam pelas zonas ocupadas do sul da Ucrânia.
À medida que a Ucrânia atinge cada vez mais estas ligações com drones e ataques de precisão, as forças de Kiev desencadearam a pior crise de combustíveis na península do mar Negro desde a sua anexação ilegal pela Rússia, em 2014.
Numa rara admissão pública, o Kremlin reconheceu a dimensão do problema.
Crimeia: líder tártaro apela aos russos para abandonarem a península
Refat Chubarov, presidente do Mejlis do povo tártaro da Crimeia, apelou aos cidadãos russos que permanecem ilegalmente na Crimeia temporariamente ocupada para que abandonem de imediato a península.
Numa mensagem em vídeo nas redes sociais, Chubarov afirmou que as Forças Armadas da Ucrânia têm realizado, há várias semanas, ataques precisos e eficazes contra instalações militares russas na península e que a intensidade desses ataques só vai aumentar.
"Quero dirigir-me em separado a outra parte da população atual da Crimeia, nomeadamente àqueles que se instalaram na península depois de 27 de fevereiro de 2014."
Segundo responsáveis ucranianos, entre 500 000 e 800 000 russos mudaram-se ilegalmente para a península ucraniana desde 2014.
"A vossa presença na Crimeia ocupada, com documentos russos falsos de propriedade, é ilegal tanto ao abrigo do direito nacional ucraniano como do direito internacional", afirmou Chubarov na sua mensagem.
"Agora, como podem ver com os vossos próprios olhos, a Crimeia tornou-se finalmente uma zona de linha da frente e a sua libertação das forças de ocupação russas é inevitável."
Chubarov exortou os russos na Crimeia a "ainda evitarem o castigo inevitável" se deixarem a península a tempo.
"Cada dia em que a ponte de Kerch continua operacional é a vossa oportunidade para saírem da Crimeia de forma segura e voluntária. Em breve, já não haverá essa possibilidade. Não esperem que a ponte de Kerch seja destruída e o corredor terrestre seja finalmente cortado."