O rei Filipe afirmou que lamenta que não tenha sido alcançado qualquer acordo e que o país não pode dar-se ao luxo de uma crise política prolongada. A dívida pública belga ascende a mais de 735 mil milhões de euros, mais de 110% do PIB do país, quando a UE apenas permite 60%.
O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, esteve no palácio real na manhã de segunda-feira para apresentar a demissão do seu governo ao rei Filipe, na sequência do fracasso das negociações sobre o orçamento que se prolongaram durante a noite.
A decisão surge depois de as negociações sobre o orçamento, realizadas durante a noite com o seu gabinete principal, não terem chegado a um acordo.
De Wever saiu do palácio após uma reunião com o rei Filipe que durou cerca de uma hora e meia, sem fazer declarações à imprensa.
Após a reunião, o rei anunciou que "está a ponderar a sua decisão e consultará os presidentes dos vários partidos da coligação a partir de amanhã".
Acrescentou que lamenta que não tenha sido alcançado um acordo e que o país não pode dar-se ao luxo de uma crise política prolongada.
O monarca apelou a todos os partidos envolvidos para que "coloquem em primeiro lugar o interesse geral e a vontade de chegar a um compromisso". De Wever deverá reunir-se novamente com o rei na sexta-feira.
Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Prévot, havia "demasiados pontos de discórdia". "Se tivesse de enumerar todos os pontos de discórdia, demoraria uma eternidade", afirmou aos meios de comunicação belgas.
O governo tem de poupar 10 mil milhões de euros para se manter dentro dos limites de despesa da UE.
O défice orçamental ascendeu a 5 % no ano passado, enquanto as regras europeias permitem um défice máximo de 3 %.
A dívida pública belga ascende a mais de 735 mil milhões de euros, o que representa mais de 110% do PIB da Bélgica, quando o limite permitido é de 60%.
Devido à impossibilidade de chegar a um acordo, as taxas de juro das obrigações do Estado aumentaram e a Bélgica tem de pagar mais para cumprir as suas obrigações de dívida.
Se o rei aceitar a demissão de De Wever, serão convocadas novas eleições.
Divisão entre a esquerda e a direita
O governo de coligação da Bélgica é composto pelo partido conservador N-VA, de De Wever, pelos liberais do MR, pelos centristas do Les Engagés, pelos socialistas do Vooruit e pelos democratas-cristãos do CD&V. O acordo entre os chamados partidos "do Arizona" foi alcançado após uns impressionantes 234 dias de negociações.
As negociações orçamentais de domingo revelaram que persistiam divergências entre o N-VA e o MR, de um lado da coligação, e o Vooruit, o CD&V e os Les Engagés, do outro.
Os partidos centristas e socialistas pretendem que 1 mil milhões a 1,5 mil milhões de euros provenham da tributação dos rendimentos mais elevados, enquanto os conservadores pretendem reduzir as despesas.
O vice-primeiro-ministro David Clarinval atribuiu a culpa pelo fracasso das negociações ao partido socialista Vooruit, uma vez que este insistiu na sua posição a favor de impostos mais elevados.
Matti Vandemaele, do partido da oposição Groen, afirmou: "O primeiro-ministro De Wever não está a conseguir que o seu governo esteja em sintonia, a menos que todos sigam o programa do N-VA."
"De Wever gosta de se apresentar como o homem dos grandes acordos, mas, na prática, é sobretudo o primeiro-ministro do impasse. O facto de corrermos o risco de recorrer aos doze avos provisórios pelo segundo ano consecutivo é uma humilhação total para um primeiro-ministro em exercício."
Esta não é a primeira vez que a coligação Arizona enfrenta tensões internas nas negociações orçamentais. No ano passado, De Wever também se dirigiu ao rei na sequência de conversações infrutíferas sobre como poupar 10 mil milhões de euros.
No início de novembro de 2025, De Wever não apresentou a sua demissão, mas pediu ao rei que prorrogasse o prazo, tendo obtido 50 dias adicionais para chegar a um acordo.