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Ativistas vivem em cima das árvores em protesto contra carvão

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Ativistas vivem em cima das árvores em protesto contra carvão

Ativistas vivem em cima das árvores em protesto contra carvão
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Nesta edição de Insiders, acompanhámos uma operação policial na Floresta de Hambach, na Alemanha, perto da maior mina alemã de extração de lenhite, um tipo de carvão extremamente poluente.

Várias centenas de polícias entraram na floresta para desalojar os ativistas ambientais que ocupam ilegalmente a zona. O objetivo dos manifestantes é travar o aumento da área de extração de carvão e preservar a floresta.

A polícia organizou uma equipa especial capaz de chegar ao topo das árvores onde os ativistas construíram cerca de 60 casas. Para resistir, os manifestantes acorrentaram-se ou amarraram-se às construções de madeira.

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Gaul é o nome de uma das aldeias onde foram construídas casas nas árvores.

"Vivemos em cima das árvores para que não consigam alcançar-nos. Eles não podem cortar uma floresta que está cheia de pessoas. A mina a céu aberto não parou de aumentar nos últimos 40 anos. Agora querem cortar mais árvores para tirarem mais carvão. Não precisamos de mais carvão, estamos no meio de uma revolução energética. Estamos aqui, em cima das árvores e queremos ficar aqui. Mas, não somos violentos", afirmou a ativista que se autodenomina Fantasma.

Os manifestantes prepararam-se para aguentar muito tempo em cima das árvores. Têm água e comida para mais de duas semanas.

Poucos minutos depois de termos falado com uma das ativistas, máquinas pesadas protegidas pela polícia começaram a abrir um caminho para a aldeia de Gaul.

"Talvez a lei o permita, mas é um absurdo. Neste momento, em Berlim, os políticos discutem a eliminação do carvão. Todos sabemos que isso vai acontecer em breve", disse o estudante e ativista ambiental Kai Neumman.

"É inacreditável o que acontece na Alemanha. Supostamente, somos os pioneiros na defesa do ambiente. Esta floresta poderia ter sido o símbolo da eliminação do carvão, mas está a ser destruída em frente dos nossos olhos. É absurdo. Não pode ser", disse a ativista Julia Brinner.

Nos últimos 40 anos foram destruídos quatro mil hectares de floresta e há planos para continuar a abater árvores em Hambach.

Cerca de dois mil agentes da polícia participaram na retirada dos ativistas, a maior operação de segurança realizada nesta região da Alemanha. A maioria dos ocupantes opta pelo que chamam de desobediência civil. Um representante da autarquia de Kerpen afirma ter sido vítima de violência.

"Ontem à noite, quando saímos da floresta de Hambach, fomos atacados por duas pessoas encapuzadas e com máscaras. Estávamos dentro de um carro da polícia e eles atiraram coquetéis molotov que explodiu lá dentro ", afirmou Erhard Nimtz, porta-voz da autarquia de Kerpen, uma cidade situada ao lado da mina.

O governo regional emitiu alertas, dizendo que os protestos poderiam tornar-se violentos. A polícia chegou a disparar um tiro de aviso depois de ser atacada com pedras por várias pessoas de cara tapada.

"Há buracos e obstáculos para atrasar os carros da polícia. Os manifestantes prepararam-se bem. Vou tentar falar com eles. Disseram-me que ali à frente fica Beech Town, uma das três aldeias construídas em cima das árvores", relatou o repórter da euronews, Hans van der Brelie.

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A euronews conseguiu visitar uma das aldeias onde os ativistas vivem em cima das árvores, há seis anos.

Shiva vive há um ano na aldeia de "Cosy Town", numa casa de madeira pendurada numa árvore, a 25 metros de altura.

Para a ativista, não existe democracia, nem igualdade face ao poder do dinheiro.

"A RWE é uma grande empresa de energia com muito dinheiro. Querem carvão e querem dinheiro. A lei não está a ser cumprida. É uma luta que usa meios ilegais. Este terreno pertence à RWE. Devia ter sido declarado um santuário mas foi comprado por eles. Quando alguém ataca uma empresa poderosa recebe a mesma sentença que alguém que ataca um ser humano. Não está certo. São coisas distintas. Vandalizar algumas daquelas malditas máquinas não é violência. Eu nunca usaria violência contra uma criatura viva ou contra um ser humano", afirmou Shiva à euronews, exibindo um olhar sereno, sem ódio.

Enquanto noutros lugares da floresta a polícia continua a operação, Shiva recordou o momento em que decidiu juntar-se aos ativistas da aldeia "Cozy Town".

"Olhei para aquela terra imensa e morta. Uma imagem terrível, como se fosse uma paisagem lunar. No horizonte, vi a central de carvão e o fumo a sair das chaminés. Vi a poluição a flutuar no ar e fiquei chocada. Senti a ausência do ar limpo. Depois virei-me e vi esta floresta, cheia de sons, cheia de vida, de pássaros e de cores. Ainda tenho arrepios quando me lembro desse momento", recordou a jovem ativista alemã.

O papel do carvão na economia da Alemanha

O fim da utilização do carvão na produção energética tem custos elevados e é por isso que a RWE, uma das maiores empresas de energia da Alemanha, insiste em continuar a extração da lenhite. Fechar a mina, de um dia para o outro, custaria entre quatro e cinco mil milhões de euros.

"A mina a céu aberto estende-se por 85 quilómetros quadrados. A euronews tinha uma entrevista confirmada com a RWE. Acabou de ser cancelada. Na Alemanha, há 21 mil empregos diretamente ligados ao carvão. Por outro lado, é preciso considerar o problema da destruição da natureza e das emissões de dióxido de carbono", resumiu o repórter da euronews.

O principal argumento da RWE é a garantia de um fornecimento fiável de energia, 24 horas por dia, independentemente das condições meteorológicas.

Apesar dos argumentos económicos, a maioria dos alemães considera que é precisar mudar o sistema.

"Estamos a desperdiçar a vida das próximas gerações. Há aqui um problema de responsabilidade. Quem continua a extrair o carvão está a fugir à sua responsabilidade", disse Rosa, durante uma visita à mina.

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Alguns investigadores afirmam que a eliminação simultânea da energia nuclear e do carvão poderia criar um problema grave. Outros defendem que a Alemanha tem capacidade para assumir essa opção.

"A lenhite é o tipo de carvão mais poluente. O uso deste combustível fóssil não combina com a imagem que as pessoas têm da Alemanha, um dos países mais empenhados nas questões ambientais. Cerca de 37% da eletricidade do país é produzida a partir do carvão, o que impede de atingir os objetivos do país, ao nível da política ambiental", acrescentou Hans van der Brelie.

A aldeia de Morschenich deverá ser arrasada tal como a floresta de Hambach. Em 2024, fará parte da História. Cerca de dois terços dos residentes já foram embora.

Apesar do grande número de opositores, alguns moradores defendem a extração da lenhite.

"Se parássemos a extração neste momento perderíamos todos os empregos ligados ao carvão. Imagine o que aconteceria a todas as famílias com filhos. Não se trata apenas do ambiente. O que iria acontecer a essas crianças se centenas ou milhares de pais perdessem o seu trabalho?", questionou Petra Heller, viúva de um trabalhador da RWE.

"Não podemos parar o carvão de um dia para o outro, num país tão grande como o nosso. Não basta dizer que vamos utilizar apenas energia verde", disse Michel Felten, residente de Morschenich.

"Todas as grandes empresas da região precisam da energia barata do carvão produzida pela RWE. Se hoje a RWE decidir parar a extração, amanhã vamos estar todos sem luz. As energias alternativas não estão suficientemente desenvolvidas", afirmou Bianca Biemann, residente de Morschenich.

As infraestruturas da RWE são muitas vezes vandalizadas. Os ativistas atacam os comboios que transportam a lenhite, os carros e a maquinaria. Um pastor da aldeia afirma que até as ovelhas já foram vítimas dos ativistas ambientais.

"Eles roubaram a bateria e o controlo da cerca elétrica e cortaram-na. São doentes. Criminosos profissionais. Cortaram dez cercas de 50 metros de comprimento. Cortaram-nas pelo menos três vezes, algumas delas até quatro ou cinco vezes", contou Wendelin Schwartz, pastor.

Maioria dos alemães quer fim do carvão

A euronews esteve na floresta num dia de protestos, num domingo. A manifestação reuniu pessoas de toda a região. Houve confrontos com a polícia.

"Atravessámos a rua e começámos a correr. Eu corri para o outro lado da barreira. Um polícia saltou a barreira e atingiu-me na cabeça", contou um manifestante ferido.

"Durante décadas, esta empresa, a Rheinbraun, hoje chamada de RWE, construiu uma rede de influência incrivelmente abrangente na política, nos media e junto dos sindicatos. Mas a propaganda deles não coincide com a realidade. A Alemanha quer fixar um calendário para o abandono do carvão até o final deste ano. É um grande desafio. Tudo devia ficar suspenso até existir uma data para essa saída. Temos de acabar com a destruição dos nossos meios de subsistência", frisou Michael Zobel, organizador das marchas pela floresta.

Quando Zobel começou as caminhadas de domingo, há alguns anos, conseguia reunir 50 pessoas. Mas, a ordem de evacuação do governo regional transformou a pacata caminhada numa enorme manifestação com cerca de 6 mil pessoas.

"Protestamos contra a utilização do carvão, a pior forma de produzir energia elétrica, porque produz uma enorme quantidade de emissões de CO2. Hoje estamos a plantar árvores para aumentar a floresta em vez de a matar", declarou Manuel Stratmann, uma das pessoas presentes na manifestação de domingo.

A euronews contactou Martin Kaiser, chefe da Greenpeace na Alemanha e membro da Comissão Carvão, um órgão consultivo de alto nível criado no início deste ano pelo governo de Berlim. Defensores do carvão e opositores, políticos e especialistas tentam encontrar um compromisso sobre datas concretas. O governo alemão espera uma proposta no final deste ano.

"A chanceler Angela Merkel prometeu reduzir 40% das emissões de CO2 até 2020, em comparação com os níveis de 1990. Mas a Alemanha está longe de alcançar essa meta", frisou Martin Kaiser.

"Todos os países europeus que ainda queimam carvão devem abandonar essa forma de obter energia até o final de 2030. Para a Alemanha, isso significa que metade das centrais a carvão terão de ser fechadas até 2020 e as restantes até 2030", acrescentou o ativista da Greenpeace.

Antje Grothus está à frente de uma ONG que se ocupa dos problemas de quem vive perto das minas. A Chancelor Merkel nomeou-a para fazer parte da Comissão Carvão.

"A Alemanha começou bem em relação às energias alternativas. Depois, os políticos perderam a coragem. Por quê? O lobi do carvão é muito forte na Alemanha, é assustador. Empresas como a RWE são extremamente poderosas. Há tentativas externas de acabar com a “comissão carvão”. É claro que a RWE não quer que seja alcançado um compromisso. Todos sabemos que empregos sustentáveis são empregos relacionados com energias renováveis, e não com carvão. Devemos usar menos energia de forma mais eficiente", disse Antje Grothus.

Dois em cada três alemães são a favor da eliminação progressiva do carvão e acreditam que o fim do carvão vai promover a modernização do país.

"Hoje tivemos uma manifestação. E agora vamos plantar algumas árvores. Inicialmente, íamos plantá-las na floresta de Hambach. Mas agora decidimos plantá-las aqui", afirmou Johanna, uma criança que acompanhou a mãe no protesto.

"A extração de lenhite foi necessária no passado, não podemos demonizá-la. Mas hoje temos alternativas. Temos de avançar, desmantelar as velhas formas de produção de energia e construir novas formas. Não digo que tudo deve mudar de um dia para o outro, mas faz sentido impulsionar as energias alternativas", disse Rafaella, uma manifestante alemã.

"Esta floresta existe há cerca de 12 mil anos e, por causa da extração de carvão, vai desaparecer, vai ser vítima de um conceito obsoleto de energia que não vai durar muito tempo", disse Biene, uma das participantes no protesto.

O conflito em torno da Floresta de Hambach deu início a um autêntico movimento social. Todos os domingos, um grande número de pessoas sai à rua para protestar. Os protestos não decorrem apenas aqui na floresta, ao lado da mina. As manifestações acontecem por todo o país. Os manifestantes querem acabar com a energia suja do carvão e acelerar a transição energética.

E quanto a Portugal? O país comprometeu-se a abandonar o uso do carvão na produção de eletricidade até 2030. Será que vai cumprir o calendário?