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A luta dos polacos por mais direitos

A luta dos polacos por mais direitos
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O nacionalismo e a rejeição da imigração crescem na União Europeia. No caso da Polónia, fala-se também de enfraquecimento do Estado de direito.

"Por favor, não nos deem lições. Nós sabemos perfeitamente como administrar as nossas instituições", afirmou o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, durante uma intervenção no Parlamento Europeu.

A euronews esteve em Gdansk, uma cidade que ocupa um lugar especial na história da Polónia. A cidade portuária do Báltico é vista como um enclave liberal num país católico e conservador. O progressismo da cidade polaca está associado a Pawel Adamowicz, presidente da câmara de Gdansk durante mais de 20 anos.

O assassínio de Pawel Adamowicz

Pawel Adamowicz adotou uma abordagem progressista no que toca aos direitos da comunidade LGBT e dos migrantes. Um postura que lhe valeu apoiantes e detratores. Há três meses, foi assassinado durante um evento de caridade.

A euronews entrevistou Magdalena Adamowicz, viúva de Pawel, no Centro Europeu de Solidariedade, em Gdansk.

"Ele era uma pessoa muito aberta. A marca dele era o sorriso. Ele estava sempre disponivel para as pessoas e as pessoas vinham falar com ele na rua. Tinha sempre tempo para elas. Parava, ouvia-as e tentava ajudá-las na medida das suas possibilidades", contou Magdalena Adamowicz.

Segundo Magdalena Adamowicz, o marido tinha evoluído politicamente ao longo da carreira. Inicialmente era conservador, mas com o tempo tornou-se mais progressista.

"Ele aprendeu durante toda a vida, amadureceu e avaliou o país. Percebeu que muitos grupos na Polónia são extremamente discriminados e não concordava com isso. Foi por isso que apoiou grupos minoritários, como os migrantes e a comunidade LGBT", afirmou a viúva do antigo presidente da câmara de Gdansk.

Magdalena Adamowicz é candidata às eleições europeias. A morte do marido foi um das principais motivações para a candidatura.

"Sinto que o poder dele está em mim. No funeral, o pai dele gritou que temos que parar com o discurso de ódio. Pensei que ele estava a falar para mim. Sofremos imenso. Eu tenho que lutar contra o discurso de ódio, as notícias falsas, as meias-verdades, porque tudo isso acaba com a integração europeia, mina a União Europeia do interior", contou Magdalena Adamowicz.

A imigração na Polónia

Segundo as estimativas, vivem em Gdansk 40 mil imigrantes. Alguns optaram por criar empresas. A euronews falou com Mohammed Amer, imigrante palestiniano que abriu uma empresa no setor alimentar.

Mohammed Amer mudou-se para a Polónia depois de ter visitado uma prima que vivia no país. Mas nem tudo correu como previsto. Escreveu ao presidente da junta, para poder comprar uma casa com a namorada polaca, mas o pedido foi recusado. A carta que recebeu dizia que ele representava um "perigo para a comunidade".

"Ficámos em choque e surpresos. Por isso, recorremos à comunicação social. Depois disso, fomos autorizados a comprar esta casa. Mas demorou muito tempo. Estivemos mais de um ano à espera. Mas, desde que vivo aqui, as pessoas são muito prestáveis e simpáticas", contou Mohammed Amer.

Nos tempos livres, Mohammed ajuda outros migrantes a estabelecerem-se na cidade.

A euronews acompanhou-o ao centro de apoio aos migrantes. A conselheira do centro, Yulia Shavlovskaya, de origem bielorrussa, segue atualmente o caso de um imigrante que vive na Polónia há um ano e que acaba de receber uma recusa de visto.

"Infelizmente, esta é uma situação típica, porque o governo polaco não está preparado para a imigração. Este senhor esteve num processo de adaptação ao país durante um ano. E depois, recebeu uma carta a dizer que o processo tinha sido cancelado", contou Yulia Shavlovskaya.

Yulia Shavlovskaya considera que a cidade está preparada para acolher estrangeiros.

"Gdansk é um lugar aberto e tolerante. É algo que temos no nosso sangue, porque quando vivemos aqui, percebemos que viver em paz é bom. É muito melhor construir do que destruir", disse Yulia Shavlovskaya.

Mas, em Gdansk, há também quem seja contra a imigração. A euronews falou com Grzegorz Pellowski, proprietário de uma pastelaria no centro da cidade que se define como católico e conservador.

"Não aprecio o facto de a Alemanha ou de a Suécia terem aberto as portas e de terem aceitado de forma descontrolada pessoas que influenciam o futuro do país. É oficial dizer que alguns países europeus vão acabar por se tornar países muçulmanos", afirmou Grzegorz Pellowski.

Grzegorz Pellowski apoia um grupo de extrema-direita que criou certificados de morte falsos para onze políticos, incluindo para Pawel Adamowicz. No folheto de propaganda do grupo, lia-se que o antigo presidente da câmara de Gdansk tinha morrido de "liberalismo, multiculturalismo e estupidez".

"Era suposto ser uma mensagem que simboliza a morte das opiniões dele e a morte da política que defendia. De facto, a mensagem era muito forte. Às vezes para atingir alguém, precisamos de usar uma mensagem forte. E esta mensagem era muito forte. Eles chegaram a pedir desculpa pela mensagem. Eu não o teria feito", garantiu Grzegorz Pellowski.

Os direitos da comunidade LGBT

A constituição da Polónia é omissa em relação à questão da orientação sexual. A euronews falou com Jacek Jasionek, ativista LGBT, um homem oriundo de uma pequena vila que se mudou para Gdansk nos anos 90 para estudar. As poucas pessoas que estavam a par da sua orientação sexual diziam-lhe que seria melhor para ele viver numa grande cidade.

"Moro em Gdansk há 25 anos e gosto de morar aqui. Na verdade, toda a gente conhece a imagem da cidade, os homossexuais, as lésbicas e toda a minoria LGBT. Por isso, muitas pessoas vêm viver para aqui. Mas, isso não significa que a vida seja boa para todas as pessoas LGBT. É preciso melhorar muitas coisas", contou Jacek Jasionek.

Jacek Jasionek participou na primeira marcha pela igualdade, em 2015.

"Durante a marcha, tive medo que as pessoas que nos odiavam viessem atirar pedras. Foi uma experiência positiva e que permitiu uma maior abertura", recordou Jacek Jasionek.

A comunidade LGBT sente-se frustrada devido à ausência de legislação nacional que proteja todos as pessoas independentemente da orientação sexual. A adesão da Polónia à União Europeia, em 2004, suscitou enormes esperanças mas as mudanças tardam em chegar.

"Na Polónia, não há projeto de lei sobre os parceiros ou sobre igualdade no casamento. A lei não considera que seja um crime de ódio, odiar a comunidade LGBT,. A lei não contempla os crimes motivados pela homofobia. Sem falar nas leis sobre crianças criadas em uniões do mesmo sexo. Está tudo muito atrasado, temos um nível de legislação semelhante ao da Rússia", afirmou Jacek Jasionek.

"Sonho em casar com meu namorado, mas queremos fazê-lo na Polónia. Agora, estamos nums fase como se estivéssemos no pico de uma montanha. Ou caímos no lado antidemocrático, onde os direitos humanos não são respeitados, onde os gays são pessoas de segunda classe que não merecem plenos direitos ou a sociedade reconhece os direitos das minorias sexuais", resumiu o ativista polaco.

Jacek Jasionek é voluntário na associação Tolerado. A euronews visitou a associação que luta pelos direitos da Comunidade LGBT na Polónia, durante os preparativos para a próxima marcha da igualdade.

"Mudei-me para Gdansk no ano passado, sou de Wroclaw. Cheguei aqui uma semana antes da marcha da igualdade. Fui bem recebido. Pessoalmente não vi comportamentos homofóbicos. Mas, claro, já ouvi pessoas a relatarem episódio de homofobia", contou Dominik Kaszewski, um dos voluntários.

"A minha mãe conhece a minha orientação sexual desde os meus 15 anos e tolerava-a. Nunca a aprovou, mas tolerava-a. Há três anos, começou a ir à igreja com frequência e tornou-se muito religiosa. Agora já não me aceita e a minha avó também não", relatou Ulka Kolodziejczyk.

"As pessoas em relacionamentos do mesmo sexo não são respeitadas pelo nosso Estado e o governo preferia que não existíssemos. Há exemplos de Estados muito religiosos e católicos que mudaram de opinião sobre os direitos LGBT. Foi o que aconteceu na Irlanda ou no Reino Unido. Por isso, a mudança é possível. A questão é saber se isso vai acontecer na Polónia. Mas se eu achasse que era impossível, não estaria aqui", garantiu a Marta Magott, militante da Associação Tolerado.

A influência da Igreja Católica

Na Polónia, a igreja exerce uma forte influência sobre a opinião pública. Em março, um grupo evangélico publicou na Internet fotografias de um padre a queimar livros, incluindo obras de Harry Potter, uma personagem considerada pelo grupo como promotora de feitiçaria.

Nem todos os sacerdotes adotam uma abordagem tão controversa para ensinar a palavra de Deus.

"Procuramos sempre os melhores meios para apresentar a fé, e, às vezes, cometem-se erros simples. Para mim e tenho certeza que para todas as igrejas na Polónia, o que aconteceu foi um erro", considerou o padre Pawel Kowalski.

A Igreja Católica Polaca não dá sinais de abertura no que diz respeito aos direitos das pessoas da comunidade LGBT, apesar das numerosas manifestações.

"Quando se trata de direitos, nós, como igreja, somos chamados a exercer o nosso discernimento. Porque alguns dos direitos que eles pedem são realmente uma mensagem de Deus, uma mensagem do Espírito Santo que nos está a chamar para defendê-los. Mas nalguns casos, provavelmente não é isso", justificou Pawel Kowalski.

A representação das mulheres na sociedade polaca

A reivindicação por mais direitos na sociedade polaca estende-se também à família e às mulheres. Para conhecer a vida concreta das pessoas na Polónia, a euronews falou com Renata Gluszek, professora e mãe de uma menina de dez meses.

Renata Gluszek está de licença de maternidade e recebe um subsídio de cerca de 120 euros por mês. O governo criou um programa de subsídios para quem fique em casa a cuidar dos filhos, mas, há quem receie que o sistema dificulte o regresso das mulheres ao mercado de trabalho

Renata Gluszek gostaria de encontrar uma creche para a filha. Uma missão impossível na Polónia.

"Estou na lista de espera no berçário público. Sou o número 800 na lista. Não conseguimos pagar uma creche privada. É impossível", contou Renata Gluszek.

"É difícil porque o dinheiro que recebemos do governo não resolve o problema. Eu preferia ter um lugar para a minha filha no berçário do que dinheiro, porque desse modo poderia ganhar dinheiro. Poderia dar algumas aulas particulares ou trabalhar mais. Mas, enquanto não encontrar alguém para cuidar dela, não consigo", explicou Renata Gluszek.

"Acho que estamos subrepresentadas. Acho que deveria haver mais mulheres em cargos de representação política", concluiu Renata Gluszek.

O futuro de Gdansk

O futuro da cidade polaca está agora nas mãos de Aleksandra Dulkiewicz, a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da câmara em Gdansk. Não foi possível entrevistá-la para conhecer o seu projeto para a cidade, mas falámos com um deputado local.

"A morte de Pawel Adamowicz foi uma grande perda. Foram vinte anos de trabalho em prol do povo de Gdansk. Ele construiu valores de liberdade, solidariedade, abertura e igualdade, para que todos se sentissem bem aqui. Vamos tentar manter esse legado e todos os programas sociais que ele criou, com várias pessoas e e com várias ONG. Não se trata apenas de um desafio para nós ou de manter um legado, trata-se do quotidiano das pessoas de Gdansk", afirmou Piotr Kowalczuk.