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Ska Keller: "Nunca tivemos uma presidente da Comissão Europeia"

Ska Keller: "Nunca tivemos uma presidente da Comissão Europeia"
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A corrida para a Presidência da Comissão Europeia já começou e a Euronews apresenta-lhe os candidatos através de uma série de emissões especiais. Os jornalistas Tesa Arcilla e Darren McCaffrey estiveram à conversa com Ska Keller.

É uma das figuras de destaque nas listas do Grupo dos Verdes para as eleições europeias. Nasceu perto da fronteira polaca, na Alemanha do leste, e desde cedo evidenciou a veia de ativista. Juntou-se à juventude dos "Verdes" em 2001, aos 19 anos de idade. No ano seguinte estava no partido oficial. Rumou depois a Bruxelas para se tornar numa das mais jovens representantes do partido, aos 27 anos. Apesar de ser uma estranha no Parlamento Europeu, no terreno já se sentia como em casa.

Como elemento da Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos e copresidente do partido trouxe as questões do Estado de Direito e dos direitos civis para a agenda. Mas nem tudo são rosas. Foi duramente criticada pela postura liberal em matéria de migração e pela política de portas abertas. Os protestos contra o desenvolvimento urbano num dos parques nacionais da Bulgária valeram-lhe o rótulo de delirante e de "jihadista verde."

Darren McCaffrey, Euronews - O que pensa desse termo, "jihadista verde?"

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - "Foi uma visita memorável à Bulgária, quando me juntei aos protestos das pessoas. Um grande movimento que quer proteger o Parque Nacional. Depois o vice-primeiro-ministro disse que deveria ser expulsa do país. Foi chocante ouvir um Governo dizer que não queriam pessoas a protestar, que queriam expulsar deputados eleitos para fora do país."

Ainda em matéria climática, acrescentou: "Penso que é fantástico assistirmos a este movimento climático em todo o mundo e na Europa. É muito importante porque a questão climática não tem ocupado um lugar de destaque na agenda. Nós, do Grupo dos Verdes, temos alertado para a importância de falar sobre o clima e o ambiente e todos torciam o nariz. Agora, o clima está no topo da agenda, que é o lugar onde pertence, porque só temos este planeta para viver, por isso devemos tentar fazer tudo o que está ao nosso alcance."

Darren McCaffrey, Euronews - Concorda com uma ação direta. Acha que as pessoas deveriam bloquear ruas, estações de metro e de caminhos-de-ferro para fazer passar a mensagem.

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - "A desobediência civil tem um longo historial. Penso que é importante, quando nos fazemos ouvir. Em relação à greve, por exemplo, houve uma grande controvérsia relacionada com os jovens e com o facto de se deverem manifestar durante o fim de semana. Mas se se manifestassem no fim de semana ninguém prestaria atenção. Ao fazê-lo durante o período escolar estão a ser ouvidos."

Igualdade de Género

A candidata à Comissão Europeia respondeu igualmente a algumas perguntas que chegaram através das redes sociais e do público. Maria Isabella Soldevila, professora na Universidade Livre de Bruxelas questionou Ska Keller sobre a forma como trabalhará para tornar a igualdade de género uma prioridade para a União Europeia?

"Essa é uma matéria em que temos de fazer muito. Já estava inscrita no Tratado de Roma. A União Europeia disse querer aumentar a igualdade de género. No entanto, diria que ainda não chegámos lá. No Parlamento Europeu, a quota de mulheres atual não é muito mais do que 30%. É abismal. Representamos 50% da sociedade ou um pouco mais. E isto deveria estar refletido na câmara. Mas não. O que propomos é, desde logo, colocar mais mulheres na linha da frente. É por isso que no Grupo dos Verdes temos sempre uma dupla liderança. Temos dois presidentes, dois candidatos principais. É algo que podemos fazer enquanto partido ou grupo parlamentar. Também queremos mais transparência salarial, saber quanto as empresas pagam a homens e mulheres. Para detetar desigualdades. É incrível ainda não sabermos quanto é que as empresas estão a pagar. Estas desigualdades estão por detetar", sublinhou Keller.

Darren McCaffrey, Euronews - Considera como uma linha vermelha a necessidade de ter uma mulher à frente da Comissão?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - É algo que gostaríamos realmente de ver. Nunca tivemos uma presidente da Comissão Europeia. Já é hora. Também é hora de termos uma Comissão equilibrada em matéria de género. Há muito tempo que propomos que os países devem nomear um comissário e uma comissária para que o presidente da Comissão possa escolher em nome de um executivo comunitário equilibrado em matéria de género. Tem de acontecer muito mais a nível político também."

Crise migratória e dos refugiados

A migração é um dos temas quentes das eleições europeias. A candidata à presidência da Comissão também se manifestou de forma contundente sobre a matéria.

"Primeiro temos de assegurar que fazemos todos os possíveis para que as pessoas não tenham de fugir. E temos de perceber que os problemas não podem ser todos resolvidos pela União Europeia já amanhã. A guerra na Síria provavelmente não. Mas os Estados-membros continuam a exportar armas para países como a Arábia Saudita e áreas de conflito. A Arábia Saudita tem bombardeado o Iémen. Não é a única área de conflito para a qual estamos a enviar armamento. Isto tem de parar. Precisamos de uma política comercial que não torne os pobres ainda mais pobres, uma política agrícola que não prive as pessoas dos meios de subsistência, uma política pesqueira que não faça o mesmo. Também precisamos de assegurar que ninguém se afoga no Mediterrâneo. Não posso aceitar que em 2019 vivamos numa União Europeia em que as pessoas se afogam no Mediterrâneo. Sabemos onde se estão a afogar e não ajudamos nada. Até estamos a impedir as pessoas que querem ajuda. É algo que não posso ver na União Europeia", disse.

Darren McCaffrey, Euronews - Está frustrada porque a abordagem comum da União Europeia não funcionou, porque muitos países não estão dispostos a assumir uma quota de refugiados?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - "De que abordagem comum é que estamos a falar? O Parlamento Europeu encontrou um compromisso entre os grupos parlamentares em que houve um largo consenso mas mais em relação à forma de distribuir de maneira justa a responsabilidade. Porque se um número muito grande de pessoas chega a um só país há um problema. Mas se esse desafio é partilhado por muitos Estados-membros torna-se menos significativo."

Tesa Arcilla, Euronews - E em relação ao acordo entre a União Europeia e a Turquia em que a UE está a tentar ter sucesso. Os críticos dizem que na verdade não tem. Qual é a sua visão em relação a manter as pessoas longe das fronteiras?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - "Esse é exatamente o nosso problema porque o acordo com a Turquia é justamente isso. Nem sequer é um acordo. É apenas um comunicado de imprensa assinado em conjunto sem quaisquer garantias ao nível dos direitos humanos. Basicamente assegura que ninguém vem para aqui, sem quaisquer cuidados com os direitos humanos, com os estatutos dos refugiados. Nada. Rejeitamos isso. (...) O problema é que se alguém precisa de ajuda não podemos dizer: é a milésima primeira pessoa e por isso não vamos ajudá-lo. Não se pode colocar um limite em refugiados. Em migrantes sim. É uma questão diferente. Refugiados são pessoas que precisam de ajuda e não podemos afastá-los. É a lei internacional, a lei europeia. É a humanidade que assegura que as pessoas precisam de ser protegidas. Mas a migração é uma questão completamente diferente. Por exemplo, a migração laboral. Claro que o Estado pode dizer: ficamos com este número, com estas ou aquelas competências, não no próximo ano. Isso está correto."

Donald Trump e os EUA

A candidata não esconde a apreensão em relação à postura do presidente dos EUA, Donald Trump. Lembrou que o comércio não deve contrariar os objetivos climáticos europeus. E acrescentou: "Não devemos fazer acordos comerciais com países que não assinaram o Acordo de Paris."

Darren McCaffrey, Euronews - E em relação ao próprio Donald Trump? Sentar-se-ia com ele se fosse presidente da Comissão Europeia.

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - "Infelizmente temos de falar com pessoas que não apreciamos no trabalho. É sempre assim."

Sim ou não?

Darren McCaffrey, Euronews - Exército europeu? Sim ou não?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Não

Darren McCaffrey, Euronews - Segundo mandato de Trump?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Não.

Darren McCaffrey, Euronews - A China é uma ameaça para a União Europeia?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Sim.

Darren McCaffrey, Euronews - Revogação do Artigo 50. Se pudesse parar o "Brexit"?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Sim.

Darren McCaffrey, Euronews - Estrasburgo. Acha que é um desperdício de dinheiro?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Sim. O Parlamento, não a cidade.

Darren McCaffrey, Euronews - As pessoas deviam ter menos filhos, para salvar o ambiente? Sim ou não?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Não.

Darren McCaffrey, Euronews - Acha que Jean-Claude Juncker foi um grande presidente da Comissão Europeia?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Não.

Darren McCaffrey, Euronews - Trotinetes elétricas. Sim ou não?

Ska Keller, candidata Comissão Europeia - Ainda não testei.

Emissões especiais no Euronews World já agendadas com os candidatos à Presidência da Comissão Europeia:

Violeta Tomić - Esquerda Europeia, 30 de abril, (hora por confirmar)

Guy Verhofstadt - Aliança dos Democratas e Liberais, 13 de maio, às 15h (hora de Lisboa)

Jan Zahradil - Aliança dos Conservadores e Reformistas, 14 de maio, às 20h (hora de Lisboa)