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Os fantasmas da extrema-direita alemã estão de volta

Os fantasmas da extrema-direita alemã estão de volta
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Nos tempos da Alemanha de Leste, Chemnitz chamava-se Karl Marx. Nos últimos anos, a cidade alemã tem sido palco de profundas mudanças políticas.

Frente à estátua de Karl Marx, onde há menos de trinta anos os cidadãos de Chemnitz se manifestaram a favor da queda do regime totalitário, ocorreu um protesto muito diferente em agosto do ano passado: manifestações anti-imigração que fizeram de Chemnitz o símbolo da nova direita radical assertiva.

Tudo começou quando um homem, alemão, morreu apunhalado. A polícia deteve os alegados autores do crime - dois refugiados, do Iraque e da Síria. Seguiu-se uma semana de protestos anti-imigração. Neonazis, grupos de extrema-direita e milhares de cidadãos marcharam lado a lado. O protesto representou um momento de viragem na expressão pública da rejeição da imigração.

O efeito da crise migratória na balança política

A extrema-direita alemã tornou-se mais forte desde a chamada crise dos refugiados em 2015.

A formação política que mais se destaca na afirmação dos valores da direita radical é a AfD, Alternativa para a Alemanha, uma formação eurocética e nacionalista criada em 2013.

Em poucos anos, o partido de extrema-direita tornou-se no terceiro maior do parlamento alemão.

A propósito da violência dos protestos anti-imigração, o líder da AfD, Alexander Gauland, originário de Chemnitz, disse "além do mais muitos desses refugiados infrigem a lei. A paciência tem limites"

Uma declaração que chocou o antigo líder do SPD, partido de centro esquerda. Martin Shultz afirmou: "é o tipo de linguagem que já ouvimos neste parlamento, há muitos anos. É altura dos democratas deste país se erguerem. Isto é retórica de rearmamento"

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A euronews acompanhou a campanha para as eleições europeias da AfD, em Chemnitz.

Maximilian Krah, candidato ao Parlamento Europeu pela AfD, admite que a crise migratória teve um papel fundamental no crescimento do partido. "A Alemanha era um lugar pacífico, longe dos tumultos mundiais até que, no espaço de um ano, Merkel decidiu abrir o país e deixar entrar quase um milhão de pessoas, na maioria muçulmanos e maioritariamente homens. Isso mudou o país. Somos a única força política que se opõe à imigração de massa. Mas, as sondagens dizem-nos que 50% da população é contra a imigração de massa, por isso, obviamente, tivemos um grande sucesso"

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Tal como em muitas cidades alemães, o tema da imigração divide a opinião pública.

Quando a AfD organiza uma manifestação, os militantes de outros partidos, a esquerda, os liberais e os verdes saem à rua para mostrar que nem todos estão de acordo com as ideias da direita radical.

Robert Hay, apoiante do partido dos Verdes, considera que os partidos nacionalistas "sempre existiram" e que o fenómeno mais recente tem a ver com confiança. "Agora estão mais confiantes. Saem à rua e afirmam que controlam a cidade, mas isso não é verdade," diz.

A euronews assistiu a outro evento da direita radical em Chemnitz. Um churrasco para celebrar a inauguração da sede do movimento de cidadãos anti-imigração. Grupos de militantes que se opõem à direita radical estragaram a festa e reuniram-se no local para protestar. A polícia interveio para separar os dois grupos.

Martin Kohlmann, líder Pro Chemnitz, explica que ainda se sente o choque de culturas entre o ocidente e o leste na Alemanha. "No Ocidente, os americanos e os ingleses disseram às pessoas que o modo de viver e de pensar dos alemães levou aos crimes do Nacional Socialismo. Aqui, no leste, tivemos os russos, que nos disseram que o capitalismo era mau e conduziu ao fascismo. Nós não fomos educados para pensar que ser alemão é um problema," afirma este nacionalista radical.

Em Chemnitz, no churrasco da extrema-direita, não se vêem muitos estrangeiros. Historicamente, a sociedade da Alemanha de Leste era muito mais homogénea que a da Alemanha Ocidental.

"Hitler devia ter-vos posto a todos na câmara de gás, como no passado"

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Hassan al Nasser, refugiado iraquianoEuronews

A Euronews falou com Hassan al Nasser, um jovem refugiado iraquiano que vive em Chemnitz, com a família, há cinco anos. O adolescente, que sonha em ser arquiteto, afirma que terá de mudar-se para Berlim, porque está cansado do racismo em Chemnitz. "Tive um incidente no elétrico. Um homem idoso estava a filmar uma mulher muçulmana e eu disse-lhe para parar de gravar. E então ele começou a filmar-me, a mim e a outros pessoas de diferentes origens culturais. A situação degenerou e ele começou a gritar dizendo que Hitler devia ter-nos posto a todos na câmara de gás, como no passado," conta.

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Layla Ahmad, refugiada libanesaEuronews

Hassan não é o único vítima dos preconceitos, em Chemnitz. A refugiada libanesa Layla Ahmad afirma que é alvo de racismo quase todas as semanas.

"Perdi cinco anos. A principal razão para vir para aqui foi a segurança, enquanto mulher com uma criança, mas não me sinto segura. Enfrentamos a mesma situação que na Líbia, e, mais ainda. Deixei a Líbia porque estava em sofrimento psicológico e tinha medo pelo meu filho. Encontrei o mesmo na Alemanha. A Líbia, pelo menos, é o meu país.Independentemente da situação, havia um respeito pelas pessoas, pelos seres humanos. Aqui somos estrangeiros. deixámos o nosso país, sacrificámos tudo, fizemos uma viagem perigoso, foi um sacrifício pelo meu filho. Para mim, o direito mais básico, andar na rua de véu, suscita-me medo, tenho medo que alguém me bata. Eu digo ao meu filho para não falar com as pessoas"

Chemnitz, berço do ódio?

A Alemanha recebeu mais de um milhão e duzentos mil requerentes de asilo desde 2015. Mas, em relação ao resto do país, a cidade de Chemnitz tem poucos residentes nascidos no estrangeiro - apenas oito por cento da população. No entanto, Chemnitz regista mais crimes de ódio contra imigrantes do que o resto da Alemanha.

A euronews falou com um responsável de uma ONG que ajuda vítimas de racismo. André Löscher revela que “em toda a Saxónia houve 317 ataques; desse total, quase 80 aconteceram em Chemnitz.” Números que representam "um aumento de 40% em relação ao ano passado, na Saxónia, e de 400%, em Chemnitz”.

Em Chemnitz, a insatisfação face à imigração pode manifestar-se de forma violenta.

A euronews falou com um refugiado político iraniano, dono de um restaurante, que foi atacado por três homens.

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Masoud Hashemi, no restaurante onde sofreu as agressõesEuronews

Masoud Hashemi apresenta o testemunho na primeira pessoa: "Um dos homens fez a saudação de Hitler, muito alto, e, depois começou a esmagar coisas. Mandou-me um samovar à cara..Eu fugi para a cozinha.Ele destruiu a cozinha e depois um homem bateu-me. Deu-me pontapés no estômago e eu caí no chão, magoei-me na cabeça e comecei a sangrar".

Masoud Hashemi esteve uma semana no hospital. Não consegue perceber por que foi atacado. "Tenho trabalho, pago o seguro e a renda. Porque me bateram? Será por eu ser persa? o que é que eu fiz?," questiona.

Os imigrantes não são as únicas vítimas dos crimes de ódio. No ano passado, um homem de 27 anos foi torturado até à morte por ser homossexual. Outro dos sinais preocupantes de que o passado alemão está a ressurgir é o aumento do antissemitismo.

Judeus voltam também a ser alvos

O restaurante judaico Schalom abriu em 2000. O proprietário disse à euronews que o local foi alvo de vários ataques antissemitas. Uwe Dziuballa é descendente de uma família que sobreviveu ao holocausto e considera que o contexto atual é muito diferente do dos anos 30 do século XX.

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Uwe DziuballaEuronews

Uwe Dziuballa tem, apesar de tudo, esperança no presente. "Hoje, se compararmos com 1933, temos as oportunidades da globalização e por essa razão há uma massa crítica positiva capaz de mostrar a força da democracia. A economia era muito mais frágil. O chão era muito mais fértil para as ideias nacionalistas," afirma.

O restaurante foi atacado em Agosto por várias pessoas e Uwe foi apedrejado. "A pedra bateu-me no ombro" - explica - "não foi dramático, mas se tivesse batido na cabeça com força, o desfecho teria sido diferente. É uma das pequenas diferenças em relação à situação em 1933. Eu chamei a polícia e a polícia veio e fez um trabalho muito profissional. Em 1933, os judeus não podiam sequer chamar a polícia".