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Pagar para vender: petróleo dos EUA "infetado" pela Covid-19

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Pagar para vender: petróleo dos EUA "infetado" pela Covid-19
Direitos de autor  Eric Gay/Copyright 2020 The Associated Press. All rights reserved.
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Pela primeira vez na história, desde que há registos de entregas futuras (1983) nos Estados Unidos da América, o petróleo passou a ser pago pelo produtor. É mais uma das consequências da pandemia de Covid-19.

A queda aconteceu esta segunda-feira, nos Estados Unidos, com o preço do crude WTI (West Texas Intermediate) de maio a cair para valores negativos, chegando a ser transacionado a 40 cêntimos de dólar negativos, obrigando os produtores a pagar para escoar o armazenamento.

O "mergulho" do valor do "ouro negro" americano no mercado representa um duro golpe na estratégia comercial de Donald Trump.

O Presidente dos Estados Unidos tem vindo a retroceder o mercado americano de uma aposta crescente nas renováveis para uma base assente no petróleo, mas a quebra acentuada no uso de combustíveis devido às medidas de contenção da pandemia de Covid-19 arrasou a procura.

Trump até tinha conseguido que a OPEP, onde se inclui Angola, e os maiores parceiros produtores de petróleo no mundo baixassem a produção em 10%, o maior corte de sempre na exploração mundial, mas nem isso foi suficiente para segurar o crude WTI em terreno positivo.

O presidente norte-americano tentou desdramatizar o problema e afirmou inclusive que ia aproveitar a descida do preço para atestar as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos e ainda ser pago por isso.

"Estamos a prever abastecer as reservas com 75 milhões de barris. Isso deve encher o depósito", perspetivou Trump, cada vez mais a braços com uma economia em declínio devido a uma pandemia que tem vindo a fazer ressaltar muitas das lacunas sociais e laborais dos EUA.

Contratos de junho também em queda

Apesar de entretanto o preço do petróleo WTI já ter regressado a um valor positivo, ainda que abaixo dos dois dólares o barril, a queda para mais de 30 cêntimos de dólar negativos na segunda-feira aconteceu devido à chegada do final do prazo para as entregas de maio.

Jim Burkhard, analista do mercado petrolífero na ISH Markit, sublinha que, devido à contenção da Covid-19, "houve um colapso na procura" de petróleo.

"As pessoas estão a conduzir menos. Não há companhias aéreas a voar. Por isso, existe um armazenamento de petróleo a acumular-se e esse petróleo tem de ir para algum lado porque, se não está a ser usado, é armazenado, mas há um limite para a capacidade de armazenamento", aponta Burkhard, como justificação para a urgência dos produtores norte-americanos em pagar para escoar a produção.

Os contratos para entrega de petróleo WTI em junho também já revelam um preço em queda, mas de forma mais branda, por enquanto.

A manutenção das medidas de contenção da pandemia poderá precipitar também esses valores para próximo de zero ou, quem sabe, de novo negativos. É por isso que alguns líderes de países produtores, como Trump ou Jair Bolsonaro, no Brasil, se revelam tão ansiosos em relançar as respetivas economias.

Oportunidade para Angola

Em África, Angola, Argélia e Nigéria são três dos maiores produtores. Como membros da OPEP, aceitaram cortar a produção em 10 por cento, mas para economias como a angolana esta "infeção" de Covid-19 no mercado petrolífero pode representar um duro golpe nas aspirações económicas do respetivo governo.

O Presidente João Lourenço lançou-se numa missão de recuperação económica, suportada em grande parte pelo petróleo, mas tem sentido muitas dificuldades para retirar Angola da recessão em que se encontra há quatro anos.

A baixa de valor do "ouro negro" somada à suspensão da economia provocada pela pandemia deverá arrastar os angolanos ainda mais para o fundo de uma crise sócio-económica, com implicações na banca, na capacidade de financiamento externo do Estado e por conseguinte na de pagamento a credores.

Para começar, o orçamento do Estado angolano poderá ter de ser revisto com o valor estimado do barril de petróleo abaixo do esperado.

Ainda assim, alguns especialistas veem nesta crise em agravamento uma oportunidade para Angola se virar mais para dentro e deixar de ser tão dependente de países como a China.

"Vamos ter de aprender que, dada a volatilidade destes produtos, uma economia não pode ficar dependente de matérias-primas como o petróleo. Depois disto, será óbvia a inevitabilidade de a economia angolana se diversificar. Não se industrializa um país com um estalar de dedos, mas há atividades, como a agricultura, que podem ter resultados, subindo a produção própria e ajudando a reduzir o imenso volume de bens importados", perspetivava o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola, João Traça, em declarações ao DinheiroVivo, há pouco mais de uma semana.