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A Sibéria mudou em 15 anos: "Os ecossistemas estão a reagir"

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A Sibéria mudou em 15 anos: "Os ecossistemas estão a reagir"
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O ano de 2020 teve o terceiro mês de julho mais quente desde que há registo, atrás de julho de 2016 e de 2019, com temperaturas 0,5 graus Celsius acima da média registada entre 1981 e 2010.

Os dados, revelados pelo Serviço de Alterações Climáticas do Copernicus, mostram ainda que, olhando para o panorama europeu, o quadro muda; o mês foi mais quente que a média em Portugal e Espanha, já no Reino Unido e na Escandinávia foi muito mais fresco.

Na região do Ártico, as temperaturas também estiveram mais altas que o normal, particularmente ao longo da costa norte da Sibéria.

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Mapa da anomalia de temperaturaEuronews / Coperniucs Climate Change Service implemented by ECMWF

A concentração de gelo marinho confirma a tendência de aquecimento. As áreas a vermelho tinham significativamente menos cobertura de gelo marinho do que o que seria de esperar em julho. Em muitos casos, os locais estavam apenas cobertos de água, uma vez que o gelo tinha derretido.

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Mapa de anomalia de gelo marinhoEuronews / Coperniucs Climate Change Service implemented by ECMWF

A Sibéria está a mudar

Em Yamalo Nenets, na Sibéria ocidental, o inverno foi invulgarmente ameno. Em maio, uma onda de calor bateu recordes de temperatura.

Uma equipa de especialistas em solos da estação Khanymey, liderada pelo cientista Sergey Loiko, realiza visitas de campo regulares à região para observar a evolução da paisagem. Há muitos processos complexos em curso no Ártico e na Sibéria, à medida que o planeta aquece. Este ano, em particular, os cientistas quiseram ver como a onda de calor da primavera afetou a região.

No início de agosto, Sergey Loiko dedicou-se a medir a profundidade que precisa de cavar para alcançar a camada sólida, o pergelissolo, que se encontra logo abaixo da superfície.

Uma primeira medição revela a extensão das mudanças em curso. A camada superior do pergelissolo está mais abaixo do que o esperado.

"Em vez dos normais 40 centímetros, vemos aqui cerca de 55 centímetros. Normalmente, esta profundidade da camada ativa pode ser vista no final do verão, ou em meados de setembro. Portanto, o pergelissolo está avançado um mês. E no outono vai afundar-se muito mais, revela

A camada ativa é a parte superior do solo que congela e descongela com a mudança das estações do ano. Em algumas zonas, tem apenas alguns centímetros de espessura, e em outras pode ter metros de profundidade.

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Investigadores da Universidade de Tomks preparam-se para medir pergelissoloEuronews

À medida que o pergelissolo derrete, vai libertando carbono e outros minerais para o ambiente, contribuindo para as alterações climáticas. A equipa da Universidade de Tomsk, estuda os elementos que o pergelissolo liberta para a atmosfera, água e solo.

Em geral, Loiko diz estarem a observar um sinal claro do ambiente. "As nossas investigações nesta área-chave e noutras áreas mostram que o clima está a ficar mais quente, os ecossistemas estão a reagir e estão a reagir de forma diferente. Se olharmos para tudo o que está relacionado com a estabilidade dos solos, vemos que estão a ficar menos estáveis. Vemos lagos a secar e o início da acumulação ativa de turfa".

A acumulação de turfa que esta equipa observou em algumas zonas da Sibéria ocidental é uma rara boa notícia para o ambiente, uma vez que a turfa é captora de carbono a longo prazo, prendendo o dióxido de carbono (CO2) que seria libertado para a atmosfera.

No entanto, o efeito positivo é reduzido, devido ao impacto negativo do metano e do CO2 libertados, à medida que as bactérias se tornam ativas na camada mais quente, após o pergelissolo ter derretido.

Os lagos estão a desaparecer

Uma das manifestações mais visíveis das alterações climáticas na Sibéria ocidental é o desaparecimento dos lagos, que anteriormente existiam sobre uma camada de gelo permanente, que agora está a derreter.

Sergei Loiko leva-nos a uma área pantanosa que, há apenas 15 anos, era o lar de um lago com mais de 1 quilómetro quadrado de tamanho. A drenagem dos lagos acontece, porque a camada de pergelissolo está a afundar-se. As camadas sólidas de gelo permanente que estabilizaram a região durante milhares de anos estão a quebrar e a deixar a água escoar para longe

Os invernos mais suaves são os responsáveis pela mudança na dinâmica do ambiente local.

"Durante a fase de aquecimento do clima, os invernos são quentes e, regra geral, há mais neve. O solo e o leito do riacho que estão debaixo da neve não têm tempo para congelar devidamente, e assim, quando uma grande massa de água se acumula e começa a pressionar para baixo, primeiro remove a neve, e, à medida que o solo vai derretendo, é empurrado para fora como com um buldózer e o curso de água é limpo. Com o curso de água limpo, as margens são destruídas, o lago começa a esvair-se até desaparecer", explica o investigador.

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Muitas estradas na Sibéria estão a ficar irregulares, à medida que o pergelissolo derreteEuronews

Florestas avançam para norte

Outra consequência das alterações climáticas observada pela equipa da Universidade de Tomsk é o avanço da linha de árvores para norte. À medida que a camada de pergelissolo desce, deixando para trás solo fértil, a floresta dirige-se para o Ártico.

Num espaço que outrora foi um lago, Sergei Loiko aponta para árvores que entretanto nasceram e mudaram a cor ao cenário, hoje muito mais verde. "Aqui podemos ver as árvores jovens, esta brotou em 2005 e parece muito bem. Dá para ver como estas árvores se estão a mover para os pântanos", afirma.

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A vegetação cresce em espaços que há pouco tempo eram lagosEuronews

Por que aquecem a Sibéria e a região do Ártico tão rapidamente?

Esta vasta região está a aquecer mais rapidamente do que outras partes do planeta devido aos chamados "loops de feedback positivo". A neve está a derreter mais cedo, expondo ao sol terras mais escuras por baixo, que, por sua vez, absorvem mais luz solar e aquecem ainda mais.

Existem também outros efeitos de feedback. Loiko explica que "há quem defenda que o derretimento do pergelissolo pode provocar a aceleração deste processo. Portanto, o derretimento está a acelerar-se a si próprio, porque, quando o pergelissolo derrete e se torna solo derretido, começa a respirar e a libertar gases com efeito de estufa, e esses gases aumentam o efeito de estufa na atmosfera. Assim, o derretimento aumenta e acelera.

Estas cadeias de feedback parecem estar a acelerar o processo de mudança, com as ondas de calor dos últimos anos a levarem ao desaparecimento do pergelissolo e à instabilidade ambiental da região.