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QAnon, a conspiração que assina com "Q"

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QAnon, a conspiração que assina com "Q"
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Acusam-nos de fazer parte de uma rede de pedofilia adoradora de Satanás, liderada por democratas proeminentes que alegadamente raptam, abusam e comem crianças das quais bebem o sangue para viver para sempre. Contra eles: o herói Donald Trump, que um dia levará a prestar contas à justiça figuras públicas Hillary Clinton, Bill Gates, Tom Hanks ou Oprah Winfrey. Esta é uma das mais bizarras teorias de conspiração dos tempos modernos e dá pelo nome de QAnon.

O QAnon nasceu no mundo virtual, nos Estados Unidos da América (EUA), e rapidamente atravessou para o mundo real. Hoje percorre o globo e está a espalhar-se pela Europa, impulsionada pela pandemia de covid-19.

A chegada de "Q" à Europa

Os cartazes de QAnon com o agora famoso símbolo "Q" apareceram pela primeira vez na Europa durante manifestações contra as restrições sanitárias por causa do coronavírus, em Berlim, Londres e Paris. Na Alemanha, elementos de extrema-direita acenaram com faixas da QAnon e bandeiras do Reich alemão, enquanto tentavam invadir o edifício do parlamento.

A cidade de Constança acolheu a segunda grande manifestação organizada na Alemanha, desde agosto de 2020. Ali, grupos de todos os quadrantes políticos reuniram-se em protesto contra as medidas governamentais para conter a pandemia. A lei alemã proíbe a exibição de símbolos relacionados com movimentos extremistas, mas as teorias de Qanon estão longe de estar ausentes.

A minha própria experiência é de que o governo está a tentar dividir-nos através da introdução destas medidas, descobri que existe um enorme controlo do Estado. Estou aqui por todas as pessoas, também por QAnon, porque QAnon também defende que estamos a ser cada vez mais divididos
Manifestante alemão

Investigadores de teorias da conspiração dizem que a pandemia tem atuado como um catalisador para QAnon, devido à incerteza gerada pela covid-19.

Chine Labbe, editora da delegação europeia da Newsguard, uma organização que avalia a fiabilidade das fontes de notícias, revela que se trata de "uma espécie de meta-conspiração e engloba muitas ideias diferentes, teorias que são muito facilmente interpretáveis. A ideia de que temos um estado profundo a ser conduzido por elites mundiais e a trabalhar contra os salvadores representados por alguns heróis no mundo, como Donald Trump, é tão fácil de interpretar. Para os franceses, será Macron o peão do estado profundo, para os alemães, será Merkel o fantoche desse estado paralelo".

Foi com diferentes ideologias, em que cada um pode escolher entre uma vasta gama de narrativas a que mais lhe agrada, que QAnon atraiu pessoas na Europa. Há adeptos antissistema, outros são antivacinas. Muitos dos manifestantes contra as medidas sanitárias durante a pandemia crê em conspirações.

Parece que estão a tentar manipular-nos para nos assustar
Manifestante

Apesar da proliferação no mundo real, foi nas redes sociais que Qanon encontraram uma incubadora. O número de Tweets relacionados com QAnon aumentou de 5 milhões, em 2017, para 12 milhões, este ano. As teorias continuam a encontrar nos Estados Unidos o maior número de adeptos, mas, em segundo lugar, surge o Reino Unido e em quinto a Alemanha.

A Newsguard, publicou, em julho, um relatório detalhado sobre o QAnon na Europa.

"Identificámos cerca de quatrocentos e cinquenta mil seguidores em toda a Europa. Em fóruns específicos, grupos, páginas nas redes sociais e sites. Na Europa, isto só começou em finais de 2019, início de 2020, e em apenas alguns meses conseguiu reunir uma quantidade impressionante de seguidores", conta Chine Labbe.

Quem é "Q"?

QAnon significa Q-Anónimo., A identidade de "Q" é desconhecida; especula-se se será alguém da administração Trump, uma figura dos serviços secretos, ou mesmo um alto funcionário do Estado com uma "autorização Q", requerida pelo Departamento de Energia norte-americano para aceder a informação ultrassecreta sobre armas nucleares.

As plataformas de redes sociais já tomaram medidas contra a propagação de QAnon. O Twitter proibiu as sete mil contas mais virais, mas mais de 93 mil continuam ativas. O Facebook e o Instagram eliminaram recentemente grupos e páginas com o tema QAnon, mas outra plataforma ganhou relevância: o serviço de mensagens Telegram.

Uma pessoa pode sentir-se única ao espalhar uma teoria de conspiração, porque acredita ser quem vê a verdade. O outro, ou é completamente ingénuo, ou faz parte do sistema ou da própria conspiração
Pia Lamberti
Psicóloga social

QAnon tem como técnica de comunicação veicular informações falsas ou sem sustentação. Não apresenta factos, nem fontes ou citações verificáveis. Em Constança, encontrámos alguns exemplos reveladores, apesar de a maioria dos participantes não se declarar apoiante de QAnon.

Um dos manifestantes identifica-se como médico e alega falar apenas de "medicina comprovada". Diz não usar máscara e é contra o seu uso. "O que estão a usar é perigoso e mata crianças. Na Alemanha, morreram três crianças por causa das máscaras", afirma. No entanto, admite que a informação ainda carece de evidência científica.

A polícia alemã negou uma das mortes e não há provas que sustentem a alegação de que outras crianças tenham morrido devido ao uso de máscaras.

Masken-Kritiker verbreiten mit #Falschmeldungen Angst und Schrecken Seit Dienstag verbreiten sich auf Social Media...

Publiée par Polizei Unterfranken sur Jeudi 1 octobre 2020

Outro manifestante, mecânico automóvel de profissão, aconselha as pessoas a deixar as máscaras de parte, "mas têm de ter um sistema imunitário forte e podem consegui-lo em duas ou três semanas, tomando vitamina D3". A fonte de informação é o jornal britânico "Daily Mail".

Pia Lamberti, psicóloga social na Alemanha, explica o sucesso de QAnon. "Uma pessoa pode-se sentir única ao espalhar uma teoria de conspiração, porque acredita ser quem vê a verdade. O outro, ou é completamente ingénuo, ou faz parte do sistema ou da própria conspiração. Na Alemanha, usamos a expressão "ovelha adormecida", e é assim que estas pessoas chamam àqueles que não acreditam na conspiração".

A ameaça das "fake news"

O FBI identificou QAnon como uma ameaça terrorista nacional. Nos EUA, o movimento foi relacionado a um homicídio, a violência armada e a várias detenções. Na Europa, especialmente na Alemanha, os seus apoiantes tendem a vir da extrema-direita. Os especialistas dizem que há motivos para preocupação.

"A crença em teorias da conspiração pode levar à violência, pode ser um multiplicador da radicalização. Sabemos que, na Alemanha, 25% dos que têm esta mentalidade de conspiração abstrata dizem fariam uso da violência para cumprir os seus objetivos", afirma a psicóloga social.

Nos Estados Unidos, o QAnon tornou-se convencional e é abertamente apoiado por mais de 20 candidatos republicanos a concorrer ao Congresso. A poucos dias das eleições presidenciais, Donald Trump também não se demarcou do movimento, Os investigadores dizem que QAnon se tornou demasiado perigoso para ser ignorado, mesmo na Europa.