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Peregrinos lavam a alma pelos Caminhos de Santiago

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De  Francisco Marques  & Jaime Velasquez
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Mais de 18 mil peregrinos já percorrerm os Caminhos desde 9 de maio
Mais de 18 mil peregrinos já percorrerm os Caminhos desde 9 de maio   -   Direitos de autor  AP Photo/Alvaro Barrientos

Os Caminhos de Santiago retomam aos poucos a normalidade depois de um ano de suspensão devido à pandemia.

De Portugal, de França, de toda a Espanha, são muitas as pessoas e os grupos a fazerem-se à estrada desde há já algumas semanas. Há cada vez mais peregrinos a trilhar as rotas delineadas pelas conchas de vieira até à Catedral de Santiago de Compostela, na Galiza.

O enviado especial da Euronews pelos Caminhos de Santiago, Jaime Velazquez, conta-nos que "depois de várias horas a caminhar, os pés começam a doer e às vezes o caminho parece impossível de terminar".

"Mas andar devolve-nos a verdadeira dimensão do tempo, do espaço e do mundo. Aqui, no Caminho, o que se consegue, são muitas horas para andar e refletir. O caminho, dizem, faz-se dentro de nós", acrescenta o nosso peregrino.

Num ano atípico repleto de confinamentos, isolamentos, testes, máscaras e todas as restrições implementadas para travar a Covid-19, os peregrinos veem agora nos Caminhos uma forma de resolver os dramas pessoais provocados pela pandemia.

Raquel González Cabezas viu o pai morrer com Covid-19 em novembro. Está a caminho de Santiago com a mãe e a irmã, e espera conseguir fechar o luto.

À Euronews, Raquel sublinha que "não é só facto de se perder um familiar": "Nós não pudemos ver o meu pai nem fazer o velório. Temos que procurar alguma coisa, uma motivação e de repente, um dia, estávamos em casa e diz-me o meu namorado: 'vou fazer o caminho de Santiago'."

A peregrina aproveita a caminhada para a despedida que não lhe permitiram. "Nos momentos de silêncio, eu apenas penso e falo com o meu pai. Creio que para mim vai ser doloroso porque quando chegar a Santiago vai ser: já está!", conclui com um gesto de capítulo encerrado.

Mais de 18 mil peregrinos já percorreram os caminhos de Santiago desde que Espanha levantou o estado de emergência, a 9 de maio.

Com as reservas a aumentar ao longo das rotas sagradas para Santiago, as autoridades prolongaram a temporada de peregrinações até 2022 para responder a crescente procura e permitir mais algum encaixe aos negócios que vivem destes percursos religiosos.

"Depois da pandemia, da qual parece estarmos finalmente a sair, já tínhamos muita vontade de nos reencontrarmos com a natureza, das escapadelas para refletir e conhecer outras pessoas. Para voltarmos a interagir com o ambiente e com outras pessoas, de uma forma diferente do que habitualmente fazemos em lazer", defende Emílio de la Iglesia, diretor do Gabinete de Turismo da Galiza, norte de Espanha.

A praça do Obradoiro, diante da Catedral de Santiago de Compostela, é o destino de todos os peregrinos.

Sozinhos, em grupo, a pé ou de bicicleta, muitos terminam a peregrinação esgotados, mas com o sentimento de desafio cumprido.

Alguns não escondem a tristeza porque chegar à praça do Obradoiro significa o fim da aventura. Mas pode sempre haver um reinício. Se a pandemia deixar.