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Na floresta da Amazónia também se combate a Covid-19 e com sucesso

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De  Euronews
Tawy Zó'é carrega o pai ás costas pela Amazónia para se poderem imunizar
Tawy Zó'é carrega o pai ás costas pela Amazónia para se poderem imunizar   -   Direitos de autor  instagram Erik Jennings Simões

No dia 26 de fevereiro de 2020, foi confirmada a primeira infeção por Covid-19 no Brasil. Quase dois anos depois, a tribo Zó’é, residente na floresta da Amazónia, nunca teve casos da doença.

O povo indígena Zó’é vive em cerca de 669 mil hectares no norte do Pará, próximo do Rio Amazonas, numa área considerada altamente preservada e com uma grande biodiversidade.

Num meio onde a natureza é palco principal, alguma tecnologia chega aos habitantes. A comunicação entre os profissionais de saúde e a tribo faz-se via radioamador, em tupi-guarini, a língua nativa, visto que não falam português. É através da rádio que os indígenas se mantêm informados sobre a evolução da pandemia no país.

A imagem que correu o mundo

Tawy Zó’é, um indígena de 24 anos, soube via radioamador que poderia levar o pai a ser vacinado. Recentemente, a fotografia (ver acima) de Tawy a transportar o pai às costas para o levar a tomar a vacina contra a Covid-19 correu o mundo. Entre morros, igarapés e outros embaraços, o jovem carregou o pai Wahu Zó’é, de 67 anos, durante 6 horas pela vasta floresta da Amazónia, até chegar à cabana de vacinação. Wahu tinha má visão e um problema grave no trato urinário, o que o impedia de caminhar na floresta. Sem acesso a transportes, os caminhos fazem-se como se pode, a pé.

A foto foi captada a 22 de janeiro de 2021, dia em que pai e filho tomaram a primeira dose da vacina. A imagem só foi partilhada no instagram quase 1 ano depois pelo autor, Erik Jennings Simões, médico da tribo há mais de 2 décadas.

Em declarações à BBC Brasil, o profissional de saúde diz que o ato de amor entre pai e filho foi um dos momentos mais marcantes que presenciou em 2021. Erik explicou que só partilhou a foto agora para “passar uma mensagem positiva de ínicio de ano”.

Depois de ambos terem sido vacinados, o jovem, Tawy Zó’é, transportou o pai às costas de regresso à floresta, durante mais 6 horas.

Medidas de combate à covid-19 na tribo

Segundo os agentes de saúde responsáveis pela região, a população Zó’é tem mais de 300 indígenas. Em tempos de pandemia, o povo daquelas terras também aplicou medidas de combate à covid-19. No ínicio, segundo o médico responsável, em entrevista á BBC Brasil, o povo Zó’é dividiu-se em grupos de aproximadamente 18 familias e “adotaram uma estratégia para não se cruzarem nos caminhos entre eles e evitarem aproximação com os brancos”, até mesmo qualquer tipo de contato com a equipa médica. Para os índios, “os brancos” são pessoas de outras culturas e origens, que não vêem como semelhantes.

Cada família foi vacinada separadamente e, na chegada ao local, cada índio ficou responsável pelo trilho de regresso. O povo índio conhece cada recanto da floresta, o que lhes permitiu desenhar caminhos distintos de forma a não se cruzarem. Assim foi durante as três doses da imunização. O médico explicou que é mais seguro para os índios viajar para receber a vacina, devido ás dificuldades do terreno e evitarem ter de pernoitar nas aldeias o que “aumentaria o contacto com o povo indígena e a possibilidade de contaminação, justamente o que eles estavam a evitar”.

O sucesso onde o vírus nunca entrou

Até hoje, não foi registado nenhum caso de Covid-19 na tribo, caso único no mundo.

Wahu morreu em Setembro, devido a problemas urinários. O filho continua com a família na aldeia e já tomou a terceira dose da vacina contra o coronavírus. O povo Zó’é mantém-se isolado e 100% vacinado.