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Espiões como nós: Como é que a rede de espionagem russa atua na Europa?

Colagem do Kremlin, passaportes e espião a olhar através de binóculos
Colagem do Kremlin, passaportes e espião a olhar através de binóculos Direitos de autor Euronews Graphistes
Direitos de autor Euronews Graphistes
De  David Mac DougallScott Reid
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Artigo publicado originalmente em inglês

Com muitos dos agentes dos serviços secretos russos expulsos das embaixadas nas capitais europeias nos últimos 18 meses, o Kremlin recorreu a outros métodos para manter vivas as suas redes de espionagem.

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A acusação, esta semana, de três cidadãos búlgaros, pela sua participação numa conspiração de espionagem, quase tirada das páginas de um romance de Ian Fleming, expôs os desafios com que o regime de Vladimir Putin está confrontado para obter informações potencialmente valiosas e os riscos que tem de correr.

À primeira vista, os búlgaros pareciam quase banais, cada um com um passado muito variado, que pode ser observado nos seus perfis nas redes sociais.

O perfil de Orlin Roussev no LinkedIn diz que ele era proprietário de uma empresa envolvida em inteligência de sinais, que incluía a interceção de comunicações ou sinais eletrónicos. Afirma também que, no início da sua carreira, atuou como conselheiro do Ministério da Energia da Bulgária.

Katrin Ivanova diz no LinkedIn que trabalha como assistente de laboratório para uma empresa privada de saúde, enquanto a BBC relata que Bizer Dzhambazov se descreveu como motorista para hospitais.

O casal dirigia uma organização comunitária que prestava serviços aos búlgaros que viviam no Reino Unido, tendo a BBC noticiado que essa atividade incluía familiarizá-los com a "cultura e as normas da sociedade britânica".

O que é que estes perfis nos dizem sobre o tipo de trabalho de espionagem que os búlgaros poderiam estar a fazer? Em primeiro lugar, temos de analisar o estado das operações de recolha de informações da Rússia.

Canva
Imagem de um homem, num carro, a tirar fotos secretamenteCanva

Que tipo de espiões tem a Rússia?

As redes de espionagem russas na Europa - e em todo o mundo - dividem-se em quatro categorias principais:

  • Espiões russos que trabalham em embaixadas estrangeiras fazendo-se passar por diplomatas;
  • Funcionários ou políticos que a Rússia conseguiu transformar e que são pagos para fornecer informações;
  • Agentes infiltrados da Rússia, conhecidos como "ilegais", que vivem vidas aparentemente normais (normalmente, fazem-se passar por cidadãos de outros países; não costumam dizer que são russos), talvez gerindo um negócio ou criando as suas famílias, e mantendo o seu disfarce, por vezes, durante décadas;
  • Células de espionagem adormecidas, como os búlgaros aparentemente desmascarados em Londres, cuja missão é esperar e observar, estabelecer contactos e possivelmente tentar obter acesso a pessoas que possam tornar-se alvos de espionagem.

Quem trata dos espiões?

Tradicionalmente o GRU era o serviço de informações externas da Rússia, enquanto o FSB era o serviço de espionagem interna, mas esses papéis mudaram um pouco atualmente.

"O sistema russo é tal que é preciso confundir as competências, ou mesmo duplicar as competências, para que as agências [GRU e FSB] se possam verificar e controlar mutuamente", explica Ryhor Nizhnikau, um especialista em Rússia do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais, FIIA, descrevendo duas agências com missões semelhantes, mas que muitas vezes competem pela atenção.

"O FSB, por exemplo, tem um departamento externo e o seu papel tem vindo a expandir-se, pelo que está encarregue das operações na Ucrânia, onde tem agora uma presença enorme. O GRU está concentrado nas atividades da Rússia no Ocidente", acrescenta.

Michael Sohn/AP
Arquivo: Pessoas passam pela entrada da embaixada russa em Berlim, Alemanha, 4 de setembro de 2020.Michael Sohn/AP

Embaixadas russas despojadas de espiões

Após a invasão total da Ucrânia, em fevereiro de 2022, centenas de espiões russos foram declarados persona non grata e expulsos das suas embaixadas na Europa.

Esta medida privou o Kremlin de uma infraestrutura muito necessária de agentes que poderiam controlar os agentes no terreno ou realizar as suas próprias operações de recolha de informações.

"Muitos diplomatas russos, os espiões, foram expulsos. Os seus recursos humanos diminuíram imenso", explica Maxime Lebrun, diretor-adjunto de Investigação e Análise do Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas, Hybrid CoE, que reúne em Helsínquia peritos de 33 países diferentes e trabalha em estreita colaboração com a UE e a NATO.

"Por isso, agora têm de confiar em russos comuns no estrangeiro, ou talvez em pessoas de outros países como a Bulgária, que podem ser coagidas a falar com alguém ou a recolher informações no seu local de trabalho, talvez num sítio tecnológico", explica Lebrun à Euronews.

Ryhor Nizhnikau confirma que a Rússia precisava de "preencher o vazio" de espiões nas suas embaixadas e "começou a despertar alguns destes agentes adormecidos" para fazerem o trabalho que normalmente seria feito pelos agentes dos serviços secretos nas missões diplomáticas no estrangeiro.

Que tipo de trabalho pode fazer um agente russo?

Recentemente, foram apanhados em flagrante na Europa numerosos exemplos de agentes russos: desde um agente "ilegal" que tentou infiltrar-se no Tribunal Penal Internacional de Haia, a um guarda da embaixada britânica em Berlim, que foi recrutado para espiar para Moscovo, e muitos outros.

Na Noruega, um coronel do GRU fez-se passar por um estudante de mestrado do Brasil na Universidade de Tromsø, onde estava envolvido num grupo de investigação que trabalhava com agências governamentais norueguesas sobre ameaças híbridas ligadas à região do Ártico, de acordo com o serviço de segurança PST da Noruega.

"Este aspeto do engano é extremamente importante para descrever estes indivíduos aleatórios que se podem fazer passar por estudantes e conhecer professores ou secretários que obtiveram financiamento para um projeto de segurança", diz Maxime Lebrun do Hybrid CoE.

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"Tivemos alguns casos em que não se tratava de espionagem, mas sim de observação do trabalho de professores universitários importantes que não sabiam que o seu novo aluno podia ser um agente do FSB ou do GRU", acrescenta Lebrun.

"Este tipo de espionagem aleatória é muito difícil de detetar".

Canva
Homem tira foto secreta de casalCanva

Outro caso recente envolveu uma agente russa, que se fez passar por peruana, e que era dona de uma joalharia em Nápoles, perto do Comando das Forças Conjuntas Aliadas da NATO.

Ao longo de quase uma década, tornou-se amiga de altos funcionários da NATO e chegou mesmo a ter um caso com um deles. Só foi apanhada quando o número sequencial do seu passaporte foi divulgado na Bielorrússia e chamou a atenção dos investigadores do Belingcat.

"É normal, no sentido em que, quando falamos de altos funcionários do Reino Unido ou da NATO, por vezes eles podem ser diretamente recrutados, podem tornar-se espiões", diz Ryhor Nizhnikau, especialista assuntos da Rússia.

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"Mas, por vezes, podemos inadvertidamente fazer deles uma fonte de informação. Este agente pode conhecer a mulher de um alto funcionário e assim ter acesso a essa pessoa, pode levar anos a cultivá-la e esta pessoa pode, sem saber, tornar-se um trunfo para os serviços secretos russos", diz à Euronews.

Os agentes adormecidos, explica Nizhnikau, podem ser normais ou mesmo comuns: apenas um amigo da família, "e nunca nos apercebemos de que existe uma operação dos serviços secretos estrangeiros à nossa volta".

AP
Vista da Praça Lubyanskaya com o edifício histórico do Serviço de Segurança Federal (FSB, sucessor do KGB), em Moscovo, Rússia, 12 de julho de 2023AP

Porque é que os búlgaros podem ser bons espiões russos?

Para os especialistas que acompanham o mundo obscuro da espionagem internacional, não é muito surpreendente que os búlgaros possam estar envolvidos como agentes adormecidos do Kremlin.

"Um búlgaro pode estar mais aberto à coação para espiar para a Rússia do que um britânico", diz Maxime Lebrun, do Hybrid CoE.

"As informações relacionadas com os híbridos são extremamente societais: o que pensam, quais são as expetativas da população e, se necessário, como fazer pressão sobre esses pontos de forma hábil", explica.

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Uma vez recrutado, um novo ativo russo pode receber dinheiro para se mudar para a Grã-Bretanha, pode receber dinheiro para começar um negócio ou para viver uma vida normal - e talvez nem sequer lhe seja pedido para fazer nada no início, exceto instalar-se.

Para Ryhor Nizhnikau, há uma explicação ainda mais simples para o facto de os búlgaros poderem ser recrutados pela Rússia.

"Os países que faziam parte do antigo bloco comunista são uma das principais fontes de recrutamento do FSB e do GRU. Talvez eles ou os seus familiares tenham sido recrutados durante o período comunista ou no período pós-comunista. Na Bulgária ou na Roménia, os russos têm muitas oportunidades e ligações há muitos anos", diz.

"Isso faz com que esses países sejam um alvo mais fácil do que recrutar um britânico ou potencialmente enviar agentes russos para lá", conclui.

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