Num país onde as eleições têm sido cuidadosamente controladas, as inesperadas questões sobre irregularidades chocaram os argelinos, que previam vitória clara de Tebboune. Em vez disso, o atual presidente e rivais emitiram comunicado conjunto a questionar resultados divulgados pelas autoridades.
Depois de ter vencido as eleições na Argélia, o presidente Abdelmadjid Tebboune juntou-se aos seus dois opositores para criticar a autoridade eleitoral por ter anunciado resultados que contradizem os anteriores números da afluência às urnas e as contagens locais.
Estas alegações de irregularidades põem em causa o que inicialmente parecia ser uma reeleição esmagadora do presidente de 78 anos.
A Autoridade Eleitoral Nacional Independente da Argélia (ANIE) anunciou no domingo que Tebboune tinha obtido 94,7% dos votos de sábado, ultrapassando largamente os seus adversários, o islamista Abdelali Hassani Cherif, que obteve 3,2%, e o socialista Youcef Aouchiche, que não passou dos 2,2%.
Horas mais tarde, Tebboune e os seus opositores emitiram uma declaração conjunta acusando o responsável máximo pelas eleições de anunciar resultados contraditórios e de pôr em causa a divulgação dos resultados eleitorais.
Inicialmente, a autoridade eleitoral tinha anunciado uma taxa de participação de 48% mas, ao revelar o número de votos de cada candidato, tornou-se claro que a taxa de participação era muito inferior, perante o número total de eleitores.
No domingo, as autoridades eleitorais informaram que 5,6 milhões, dos cerca de 24 milhões de eleitores do país, votaram.
Antes de os três candidatos questionarem a discrepância, os dois adversários de Tebboune já tinham manifestado a sua preocupação, avançando com os próprios resultados.
Não se sabe o que acontecerá depois de os três candidatos terem posto em causa as irregularidades e se a ação levará a ações judiciais ou atrasará a certificação final dos resultados.
Abstenção foi “lição de democracia” contra as elites
Tebboune, considerado o candidato dos militares, ganhou o seu primeiro mandato em 2019 durante uma eleição amplamente boicotada; multidões saquearam as assembleias de voto e a polícia interrompeu as manifestações.
A vitória do atual presidente alimentou o ceticismo sobre os resultados eleitorais, bem como as críticas dos ativistas pró-democracia. Há muito que este grupo considera as eleições como um instrumento utilizado pelas elites políticas do país para dar uma aparência de apoio popular.
Muitos disseram que a mensagem mais forte das eleições veio daqueles que optaram por se abster por receio de que as eleições apenas consolidassem e legitimassem “le pouvoir” - um termo utilizado para descrever as elites apoiadas pelos militares que governam o país.
Em 2019, os manifestantes do Hirak - palavra árabe que significa “movimento” - inundaram as ruas das cidades argelinas depois de o então presidente Abdelaziz Bouteflika ter indicado que pretendia concorrer a um quinto mandato.
As forças armadas frustraram esses planos e Bouteflika demitiu-se pouco depois.
O governo interino que o substituiu acedeu aos apelos dos líderes militares para a realização de eleições no final desse ano. Este facto enfureceu os manifestantes, que consideraram a aceleração das eleições uma forma de acalmar o descontentamento e de contornar as exigências de um governo civil e não militar.
A Amnistia Internacional condenou, na semana passada, a “brutal repressão dos direitos humanos na Argélia, incluindo os direitos à liberdade de expressão, de reunião pacífica e de associação, no período que antecedeu as eleições presidenciais”.