Guterres, nas suas declarações de largo alcance, apelou para a ação contra o abuso da inteligência artificial e esforços para combater a desigualdade.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou duramente, esta quinta-feira, líderes mundiais que, disse, procuram "condenar à morte a cooperação internacional", numa altura de violações flagrantes do direito internacional, mas evitou apontar países em concreto.
Guterres também reiterou estar "profundamente preocupado com a repressão violenta no Irão", antes de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre a crise, prevista para mais tarde, esta quinta-feira.
Guterres, que deixará o cargo no final de 2026, proferia o último discurso anual de definição de prioridades para o ano seguinte e afirmou que o mundo está marcado por "divisões geopolíticas autodestrutivas e violações flagrantes do direito internacional".
Também denunciou "cortes generalizados na ajuda ao desenvolvimento e humanitária", numa aparente referência aos cortes profundos nos orçamentos das agências da ONU determinados pelos Estados Unidos ao abrigo da política "America First" da administração Trump.
"Estas forças e outras estão a abalar os alicerces da cooperação global e a pôr à prova a resiliência do próprio multilateralismo", disse Guterres à Assembleia Geral.
"Numa altura em que mais precisamos da cooperação internacional, parecemos menos dispostos a usá-la e a investir nela. Alguns procuram condenar à morte a cooperação internacional."
Guterres disse que a ONU está "totalmente empenhada na causa da paz em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e muito para além desses casos, e incansável na entrega de ajuda que salva vidas a quem desespera por apoio".
Três conflitos mortíferos e prolongados passaram a marcar o mandato de Guterres à frente da ONU, com críticos a sustentarem que a organização se revelou ineficaz na prevenção de conflitos.
Trump questionou a relevância da ONU e atacou as suas prioridades. Principal órgão de decisão da organização, o Conselho de Segurança, está paralisado devido a tensões entre os Estados Unidos, a Rússia e a China, três membros permanentes com poder de veto.
"Hoje, enquanto nos reunimos, as armadilhas do conflito prenderam milhões de membros da família humana em ciclos miseráveis e prolongados de violência, fome e deslocação", disse Guterres.
Sobre Gaza, o chefe da ONU pediu que a ajuda humanitária "flua sem impedimentos" e, sobre a Ucrânia, pediu que não se poupem esforços para travar os combates.
Também apelou para a retoma das conversações no sentido de que se alcance um cessar-fogo duradouro no Sudão.
Guterres aproveitou também a intervenção abrangente para instar à ação contra o uso abusivo da inteligência artificial, pedindo esforços de combate à desigualdade.