Vladimir Putin e Xi Jinping mantiveram longas conversações por vídeo, reafirmando a aproximação estratégica entre a Rússia e a China. A conversa teve como pano de fundo a escalada da situação internacional, a pressão das sanções sobre Moscovo e a intensificação da diplomacia de Pequim
O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente russo, Vladimir Putin, mantiveram uma conversa de cerca de uma hora e meia, através de uma ligação vídeo, durante a qual salientaram o reforço das relações bilaterais.
Xi Jinping afirmou que o mundo entrou num período de grande agitação.
"Desde o início do ano, a situação internacional tem-se tornado cada vez mais turbulenta", afirmou o chefe de Estado chinês numa reportagem publicada pelo canal de televisão chinês CCTV.
Nestas circunstâncias, Pequim e Moscovo devem reforçar a coordenação, afirmou o líder chinês:
"Ambas as partes devem garantir que as relações sino-russas continuem a desenvolver-se ao longo da trajetória correta - através de uma coordenação estratégica mais profunda e de um papel mais ativo e eficaz dos nossos países enquanto grandes potências".
Putin, dirigindo-se a Xi como um "querido amigo", manifestou uma posição semelhante.
"A aliança em matéria de política externa entre Moscovo e Pequim continua a ser um importante fator de estabilização", afirmou o presidente russo, considerando a cooperação russo-chinesa "exemplar".
Aproximação económica no contexto das sanções
Moscovo está a apoiar-se cada vez mais em Pequim para compensar os efeitos das sanções ocidentais. Putin sublinhou que a Rússia conseguiu reorientar as exportações para os mercados asiáticos:
"Vemos um grande crescimento do comércio e isso é o resultado do nosso trabalho comum".
Xi, por seu lado, referiu que os laços económicos bilaterais estão a "desenvolver-se de forma constante" e que os países devem "aproveitar a oportunidade histórica para aprofundar a cooperação estratégica".
Putin prestou especial atenção à energia, aos projetos nucleares e às áreas de alta tecnologia, afirmando:
"Qualquer altura do ano é primavera nas relações russo-chinesas".
Contactos com os EUA e negociações sobre a Ucrânia
Embora Putin não tenha mencionado a Ucrânia na parte pública da conversa, o Kremlin disse mais tarde que Xi expressou apoio às conversações em Abu Dhabi entre representantes russos, ucranianos e norte-americanos.
O Kremlin também disse que os líderes discutiram as relações com Washington.
"Os seus pontos de vista são praticamente coincidentes ", afirmou o assessor presidencial russo Yuri Ushakov, acrescentando que Putin e Xi trocaram opiniões sobre as políticas dos EUA, incluindo a iniciativa do Conselho de Paz do presidente Donald Trump.
"A Rússia e a China são a favor de uma cooperação igual e mutuamente benéfica com base no direito internacional e na Carta das Nações Unidas", sublinhou Ushakov.
Xi, de acordo com a parte chinesa, reafirmou o seu empenhamento no sistema internacional com a ONU no seu centro.
Planos de visita de Pequim e atividade diplomática
De acordo com Ushakov, Putin aceitou um convite para visitar a China no primeiro semestre de 2026 e tenciona também participar na cimeira da APEC em Shenzhen, em novembro.
A conversa surgiu no contexto da diplomacia ativa de Xi Jinping, com os líderes de França, Canadá, Finlândia e Uruguai a visitarem Pequim nas últimas semanas. A China está a tentar reforçar a sua posição internacional face à "imprevisibilidade" dos EUA.
No mesmo dia, a imprensa chinesa noticiou a conversa telefónica de Xi com o presidente dos EUA, Donald Trump, mas ainda não foram divulgados pormenores.
Irão, Venezuela e Cuba: discutir as crises regionais
De acordo com Ushakov, os líderes prestaram atenção à situação no Médio Oriente: "Foi dada especial atenção à situação tensa em torno do Irão".
As relações com a Venezuela e Cuba também foram discutidas.
"Os dirigentes defenderam a manutenção do nível de cooperação alcançado pelos seus países com Caracas e Havana ", afirmou o porta-voz do Kremlin.
Contexto histórico e perspetivas
Xi e Putin encontraram-se pessoalmente em setembro passado, quando o presidente russo assistiu a uma parada militar em Pequim. Na primavera, Xi deslocou-se a Moscovo para as celebrações do Dia da Vitória.
Putin afirmou que a sua aliança se tornou "o fator de estabilização mais importante" num mundo de tensões crescentes e de intensificação da concorrência entre as grandes potências.
Xi sublinhou que a China e a Rússia deveriam "trabalhar num novo roteiro para as relações", enquanto Putin garantiu que Moscovo agiria "de forma equilibrada e responsável" após a expiração de um acordo nuclear fundamental com os EUA.
O tratado em questão é o START-III (Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas), o último acordo nuclear existente entre a Rússia e os EUA. Este acordo expira, após uma prorrogação acordada em 2021, a 5 de fevereiro. Depois disso, as duas maiores potências nucleares do mundo não terão qualquer tratado de limitação de armas estratégicas.