O Governo prepara-se para publicar um roteiro energético fundamental, que visa um consumo de eletricidade de 60% até 2030, com seis novos reatores nucleares e a manutenção das energias renováveis.
Após meses de impasse sobre o orçamento, o Governo francês está prestes a dar um passo decisivo no domínio da energia.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu confirmou que "no final da próxima semana" assinará o decreto que formaliza a publicação do tão aguardado Programa Plurianual de Energia (PPE), o roteiro energético de França até 2035.
Em entrevista ao Ouest-France, o chefe do Governo justifica esta escolha com a "urgência" da situação. Atrasado há mais de dois anos e meio, o PPE tinha sido adiado devido a profundas divergências políticas sobre o equilíbrio entre o nuclear e as energias renováveis.
Um objetivo central: eletrificar a economia
No centro desta estratégia está um objetivo ambicioso: fazer com que a eletricidade represente 60% do consumo de energia em França até 2030, contra cerca de 30% atualmente. "Descarbonizar o país significa revitalizar a produção de eletricidade", insiste Sébastien Lecornu, que abraça plenamente esta trajetória.
Os desafios são grandes. O consumo global em França continua a ser dominado pelos combustíveis fósseis, nomeadamente nos transportes e na indústria pesada. Ao mesmo tempo, a procura de eletricidade está a crescer mais lentamente do que o previsto, o que torna mais difícil atingir os objetivos climáticos.
Para remediar esta situação, o Governo tenciona acompanhar a publicação do PPE com um "grande plano de eletrificação das utilizações", visando a mobilidade, os edifícios e a indústria.
Nuclear e energias renováveis
Sébastien Lecornu confirmou que seis reatores nucleares "serão incluídos no PPE e oito adicionais como opção", em linha com os anúncios feitos por Emmanuel Macron em Belfort em 2022.
Mas o governo insiste na complementaridade com as energias renováveis. "Opor-se ao nuclear e às energias renováveis é um beco sem saída. A verdadeira batalha é sair do carbono e reduzir a nossa dependência das importações", sublinhou o chefe do Governo.
No entanto, segundo o executivo, o PPE deverá assistir a um abrandamento do ritmo de desenvolvimento da energia eólica e solar em terra, devido a uma eletrificação da economia mais lenta do que o previsto. Esta perspetiva preocupa os intervenientes do setor, que dependem fortemente da visibilidade a longo prazo para os seus investimentos e emprego.
Sem moratória, setores tranquilos
Os representantes do setor das energias renováveis reuniram-se em Matignon na sexta-feira passada, antes da publicação do texto, e saíram tranquilizados.
A reunião confirmou que "obviamente, não haverá moratória para as energias renováveis", uma clarificação considerada essencial pelo setor.
"Haverá, de facto, concursos para desenvolver a energia solar e eólica", congratulou-se Jules Nyssen, presidente do Sindicato de Energia Renovável (SER), lembrando que estes projetos são essenciais para reduzir as emissões de CO₂ e reforçar a independência energética do país.
No entanto, Sébastien Lecornu mantém o rumo: o Estado vai investir "na energia eólica offshore, na energia fotovoltaica, na energia geotérmica", bem como naenergia eólica onshore. Mas esta última "é, por vezes, fonte de conflitos a nível local, pelo que será dada prioridade ao reequipamento dos parques eólicos existentes com turbinas mais potentes, a fim de evitar a desordem da paisagem".
Outra mensagem importante dirigida às famílias e às empresas: segundo o primeiro-ministro, a publicação do PPE não implicará o aumento da fatura da eletricidade, graças a uma "estratégia de aprovisionamento ambiciosa", cujos pormenores ainda não foram especificados.
No entanto, o aumento da procura de eletricidade poderá exigir investimentos de grande envergadura nas redes e infraestruturas, apoiando simultaneamente o desenvolvimento de novas utilizações como os veículos elétricos, as bombas de calor e o hidrogénio.
Críticas políticas fortes
Marine Le Pen denunciou um "erro grave" e acusou o executivo de querer "forçar" um projeto que estimou em "um mínimo de 300 mil milhões de euros".
Por outro lado, Olivier Faure, primeiro secretário do Partido Socialista, pediu que o PPE fosse publicado para não "afundar efetivamente as energias renováveis".
Sébastien Lecornu, por seu lado, assume que não está à procura de um voto de apoio no Parlamento, considerando que as discussões já estão decididas.
Para além da energia, o primeiro-ministro também especificou as suas outras prioridades. Na frente militar, a lei de programação militar atualizada deverá chegar à Assembleia Nacional em abril, para adoção em julho. O orçamento para 2026 inclui 57,2 mil milhões de euros para a Defesa, o que representa um aumento de 13%.
O projeto de descentralização será dividido em vários textos: o primeiro, dedicado à vida das autarquias locais, será apresentado antes das eleições autárquicas; um segundo tratará da reforma do Estado e da clarificação de competências; um terceiro tratará especificamente da área metropolitana da Grande Paris.