O debate sobre a energia nuclear está de volta à cena política: em Munique, o chanceler Merz explora conversações com França sobre a capacidade de dissuasão europeia. Mas na CDU cresce o ceticismo.
Há muito tempo que a questão nuclear não era discutida tão seriamente como foi à margem da Conferência de Segurança de Munique, no passado fim de semana. De repente, o que antes era um exercício intelectual académico aproxima-se da realidade.
Alemanha, França e Reino Unido sob um mesmo "guarda-chuva"?
Na sexta-feira, o chanceler alemão Friedrich Merz (CDU) anunciou, na Conferência de Segurança de Munique, que tinha iniciado as primeiras conversações com o presidente francês Emmanuel Macron sobre uma dissuasão nuclear europeia.
França possui armas nucleares e é a única potência nuclear da UE a ter o seu próprio arsenal nuclear independente. A Grã-Bretanha também tem um arsenal à sua disposição. Os EUA instalaram armas nucleares noutros países europeus, incluindo a Alemanha, os Países Baixos, a Bélgica, Itália e a Turquia.
No contexto da questão da dependência dos EUA, alguns políticos estão a considerar uma reorganização europeia. Os partidos no poder não estão de acordo. Enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul (CDU), apelou à contenção, Jens Spahn, líder do grupo parlamentar CDU/CSU, criticou os eventuais futuros governos de França e do Reino Unido.
Após a conferência sobre segurança, o especialista em política externa da CDU, Armin Laschet, afirmou que a questão não era a mais urgente neste momento.
Como estão distribuídas as armas nucleares em solo europeu?
Na UE, apenas França possui armas nucleares, o que a torna a quarta maior potência nuclear do mundo. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), o país possui, provavelmente, cerca de 290 ogivas nucleares.
O Reino Unido, antigo membro da UE e parceiro da NATO, possui também um arsenal de 225 ogivas nucleares. Em comparação, a Rússia tem 4.309 ogivas nucleares, muitas vezes mais do que os países europeus.
Os EUA armazenaram ogivas nucleares em alguns países para melhorar a segurança da Europa. Por exemplo, os EUA têm 35 ogivas nucleares em Itália, 15 em cada um dos Países Baixos, Bélgica e Alemanha e 20 ogivas nucleares americanas na Turquia.
No entanto, a volatilidade das relações entre Trump e a UE está a suscitar debate. Em 2020, o presidente francês Emmanuel Macron ofereceu aos europeus uma maior cooperação e alargou a dissuasão nuclear para a Europa com base nas armas nucleares francesas. A então chanceler Angela Merkel (CDU) e o seu sucessor Olaf Scholz (SPD) mostraram-se céticos em relação a esta proposta.
O chanceler Merz é cauteloso, mas quer manter conversações sobre um "guarda-chuva nuclear" conjunto. De acordo com as suas declarações na Conferência de Segurança de Munique, já foram iniciados os primeiros diálogos com França.
Ministro alemão dos Negócios Estrangeiros: "Há armas nucleares suficientes no mundo"
O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Wadephul, apelou a uma maior contenção. "Para ser honesto, já existem armas nucleares suficientes no mundo e temos de refletir cuidadosamente sobre se precisamos sempre de mais", afirmou o político da CDU, no programa Bericht aus Berlin, do canal televisivo ARD.
Enquanto parceiros europeus da NATO, França e Reino Unido já dispõem de armamento nuclear. Além disso, existe o escudo protetor dos EUA: "Ninguém em Washington o questiona", disse Wadephul.
O ministro dos Negócios Estrangeiros desaconselha veementemente questionar o escudo de proteção do ponto de vista europeu. E defende que se continue a fazer uma organização a nível nacional. "Isso significa que falamos sobre a contribuição de cada país, o que também determina o diálogo entre França e Alemanha."
Wadephul exige, em vez disso, que mais Estados-membros da UE implementem mais rapidamente a meta de gastar 5% do seu orçamento na defesa europeia. Sobre o presidente francês, Wadephul disse que este fala "repetidamente e com razão sobre o nosso desejo de soberania europeia". Mas quem fala sobre isso deve "agir em conformidade no seu próprio país", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros. "Infelizmente, os esforços da República Francesa até agora têm sido insuficientes para alcançar esse objetivo."
Spahn: "Não quero confiar em Farage e Le Pen"
Jens Spahn, líder do grupo parlamentar CDU/CSU, também manifestou cautela. Apesar de afirmar que é necessário falar de dissuasão europeia, apelou a uma maior independência estratégica da Europa.
Numa entrevista ao Politico, questionou a estabilidade política dos vizinhos europeus. "Se houvesse eleições amanhã, Farage ganharia no Reino Unido e Le Pen em França", explicou Spahn. "Não sei se gostaria de confiar em qualquer um deles", acrescentou.
O especialista em política externa da CDU, Armin Laschet, concordou com Spahn que era correto não tornar nenhum tema um tabu. "Mas acho que discutir agora, em primeiro lugar, como conseguir a participação alemã numa arma nuclear não é uma prioridade nem para o chanceler, nem para mim, nem para mais ninguém", disse Laschet no programa Caren Miosga, do canal ARD.
Laschet também duvida que Macron dê ao chanceler Merz o direito de codecisão sobre o armamento nuclear. E colocou ainda o debate num contexto mais amplo: tal poderia parecer, na ótica dos EUA, que a Alemanha renunciaria ao escudo de defesa americano por sua própria iniciativa. Laschet considera este perigo tanto mais iminente quanto mais intensamente Merz discute o tema.