Há linhas que não admitem cinzentos. O racismo é uma delas. Não há contexto que o atenue, não há paixão clubística que o desculpe, não há vitória que o relativize. Não podemos ser tolerantes com a intolerância.
O racismo é crime. Ponto final. Deve ser tratado como tal, dentro e fora dos estádios. Quando envolve adeptos, jogadores, treinadores ou dirigentes, a resposta tem de ser firme, clara e exemplar. A mão pesada da lei não é excesso. É necessidade. A impunidade é o verdadeiro escândalo.
O futebol não é apenas um jogo. É um fenómeno social de massas, um espelho amplificador da sociedade, um espaço onde valores se reproduzem e se legitimam. O que acontece num estádio não fica num estádio. Ecoa nas escolas, nas redes sociais, nas conversas de café. Por isso mesmo, o futebol tem uma obrigação moral acrescida. Ser exemplo. Elevar. Não normalizar o inaceitável.
No episódio de ontem no Estádio da Luz, há factos que ainda não conhecemos. Não sabemos o que foi dito. Sabemos, no entanto, o que foi feito. O gesto de tapar a boca com a camisola é comum. Sugere a intenção de dizer algo que não se quer ver reproduzido nem pelo som nem pela leitura labial. Isso, por si só, não é prova de racismo. Mas é motivo bastante para levantar suspeitas. E a mera suspeita de um acto racista merece ser investigada. A bem da decência no desporto. A favor da dignidade de todos os que fazem parte deste espetáculo.
Investigar não é condenar. Esclarecer não é atacar. Pelo contrário. É proteger. Seja para provar ou para absolver. O jogador do Benfica que diga as palavras que dirigiu a Vinicius, e que se entenda o que causou tremenda confusão.
E aqui importa ser claro. Uma coisa são comportamentos individuais. Outra, bem diferente, é a instituição. O Sport Lisboa e Benfica é um clube com História, com dimensão global e com uma marca construída sobre valores que atravessam gerações. Inclusão, universalidade, respeito, mérito, responsabilidade social. O Benfica é, há décadas, uma casa de diversidade e de integração. Uma marca mundial de valores e com valor. Basta para tanto recordar que o seu maior e tão amado símbolo dá pelo nome de Eusébio da Silva Ferreira.
Por isso mesmo, neste caso concreto, o Benfica deve ser o primeiro interessado em repor claridade. Em apurar factos. Em agir se houver fundamento para agir. Não por pressão externa, mas por coerência interna. Para deixar bem patente a lisura que sempre defendeu e a identidade de clube respeitado e respeitável.
Racismo não é provocação. Racismo não é calor do jogo. Racismo não é rivalidade. Racismo é crime. Rivalidade é paixão. Racismo é exclusão. Rivalidade constrói narrativas. Racismo destrói pessoas.
Vinícius pode ter sido provocador na celebração do golo. Pode ter incendiado bancadas. Isso faz parte do jogo. Combate-se com futebol, talento, resultados e fair play. Nunca com insultos, desumanização e ódio.
Martin Luther King lembrou-nos que mais preocupante não era o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. No futebol, esse silêncio é cúmplice. Cada vez que se assobia para o lado, perde-se um pouco do jogo. Cada vez que se relativiza o racismo, empobrece-se o desporto.
Sou benfiquista. E é precisamente por isso que quero saber o que aconteceu. O amor a um clube não se mede pela cegueira moral, mas antes pela capacidade de exigir mais quando está em causa o essencial. O futebol sem valores é apenas um conjunto de mamíferos a correr atrás de uma bola. E eu recuso-me a aceitar isso como destino
O futebol pode e deve ser melhor. O racismo não tem lugar no jogo. Nem nas bancadas. Nem no relvado. Nem em lado nenhum.
Bruno Batista é um comentador desportivo, especialista em comunicação e adepto do Benfica.