Segundo os jornais Rossiyskaya Gazeta e Komsomolskaya Pravda, ligados às autoridades russas, está a decorrer um processo penal contra Pavel Durov por promoção do terrorismo. Os artigos referem que o Telegram foi bloqueado na Rússia porque Durov se recusou a cooperar com as autoridades policiais.
Pavel Durov, fundador do serviço de mensagens instantâneas Telegram, está a ser investigado na Rússia por promover atividades terroristas, segundo os jornais Rossiyskaya Gazeta e Komsomolskaya Pravda, próximos das autoridades russas.
Ambos os artigos afirmam que o Telegram está a ser utilizado para cometer crimes. "O serviço de mensagens tornou-se a principal plataforma para a promoção do suicídio, bullying, 'columbine', ideologia criminosa, assassínio em massa, ideologia LGBT, pornografia infantil, venda de droga e documentos falsos", refere o Komsomolskaya Pravda.
De acordo com o Rossiyskaya Gazeta, a "ilusão de anonimato" na aplicação levou "radicais, toxicodependentes, assassinos e terroristas para lá, o que começou a gerar ameaças à nossa sociedade".
Os artigos referem que foi com a ajuda deste serviço que o ataque terrorista na Câmara Municipal de Crocus e os assassínios de Daria Dugina e do General Igor Kirillov foram alegadamente preparados. E nas condições da "SWO" - como as autoridades russas apelidam a guerra na Ucrânia - o Telegram "tornou-se o principal instrumento dos serviços especiais dos países da NATO e do 'regime de Kiev'".
As publicações classificam ainda Pavel Durov como um "cavalheiro com influência estrangeira" e acusam-no de "ajudar diretamente o inimigo nas condições da guerra híbrida".
Bloqueios no Telegram
Os autores dos artigos acusam Pavel Durov e a sua equipa de se recusarem a tomar medidas e a cumprir as exigências das autoridades russas. Recordam, em particular, que o Telegram já tinha sido bloqueado na Rússia em 2018, mas foi desbloqueado em junho de 2020.
Vale a pena notar que, nessa altura, as autoridades russas não tinham poder suficiente para bloquear completamente a aplicação. O serviço obteve rapidamente novos endereços a partir da Amazon Web Services e da Google Cloud. A certa altura, isto levou as autoridades russas a bloquearem acidentalmente dezenas de websites de empresas russas não relacionadas com o Telegram que também utilizavam estes serviços de alojamento.
Agora, o Rossiyskaya Gazeta e o Komsomolskaya Pravda afirmam que Pavel Durov está novamente a recusar-se a cumprir as exigências das autoridades.
"Foram enviados mais de 150.000 apelos à equipa de Durov, através de contactos oficiais, exigindo a remoção dos conteúdos ilegais. E o que é que aconteceu? Foram cinicamente ignorados", escreve o Rossiyskaya Gazeta.
Em agosto de 2025, as autoridades russas restringiram a capacidade de fazer chamadas através do serviço e, em fevereiro de 2026, abrandaram significativamente o Telegram, o que levou a numerosas interrupções ao seu funcionamento e ao bloqueio efetivo em várias regiões russas.
"Desde 10 de fevereiro de 2026, graças ao trabalho das autoridades russas, a degradação do tráfego aumentou para 55%", refere um dos artigos.
As autoridades russas já admitiram também que vão continuar a "impor restrições sucessivas", uma vez que o Telegram "continua a não cumprir a lei russa".
As autoridades russas também explicam as suas ações argumentando que nem o Telegram nem o WhatsApp, que também foi sujeito a bloqueio, estão a cumprir a lei quanto ao armazenamento de dados de utilizadores na Rússia.
"A Rússia está a restringir o acesso ao Telegram numa tentativa de forçar os seus cidadãos a mudar para uma aplicação controlada pelo Estado, criada para vigilância e censura política", afirmou Pavel Durov em fevereiro.
A aplicação em questão é o MAX, que as autoridades russas estão a promover fortemente no país. Especialistas em informática têm repetidamente apontado que a aplicação é insegura e que as autoridades russas têm provavelmente acesso a toda a informação nela contida.
Entretanto, vários meios de comunicação social e especialistas independentes também associam o bloqueio do Telegram ao receio das autoridades russas de protestos na sequência de uma possível nova mobilização contra o Kremlin.
Detenção em França
No verão de 2024, Pavel Durov passou quatro dias detido em França. Em 24 de agosto, o fundador do Telegram foi detido à chegada ao aeroporto de Le Bourget, perto de Paris. Em 28 de agosto, o tribunal libertou-o sob fiança de cinco milhões de euros. Durov foi obrigado a apresentar-se à polícia e foi proibido de sair do país.
França acusou o informático de cumplicidade em crimes cometidos por outras pessoas através do Telegram, nomeadamente fraude, branqueamento de capitais, distribuição de pornografia infantil e de droga (12 acusações no total).
De acordo com a investigação, Pavel Durov deveria ter sido responsabilizado pelos crimes, uma vez que o Telegram ignorou os pedidos da polícia francesa e, por conseguinte, não impediu a prática de crimes.
No total, as autoridades francesas contabilizaram 2.460 casos de pedidos não respondidos ao longo de 11 anos.
Após a detenção de Pavel Durov, a administração do Telegram considerou absurda a tentativa de punir o fundador da aplicação pelas violações que nela ocorreram, mas começou a responder mais ativamente aos pedidos das autoridades policiais europeias.
O fundador do Telegram só foi autorizado a abandonar França na primavera de 2025.