Trump apoia a retirada das bases de Rota e Morón, chama os aliados de cobardes e rejeita um cessar-fogo com o Irão. Espanha retira militares do Iraque enquanto o preço do petróleo sobe.
O Presidente dos Estados Unidos não deixou grande margem para interpretações. Questionado sobre as pressões de alguns congressistas para retirar as bases militares norte-americanas de países como a Espanha, Donald Trump respondeu que "têm razão".
A afirmação surgiu poucas horas depois do senador republicano Lindsey Graham ter defendido explicitamente a transferência dos aviões estacionados em Rota e Morón para um país "em que possamos realmente confiar em momentos de grande necessidade".
Trump não é estranho a este tipo de avisos. Já tinha ameaçado Espanha com represálias comerciais por se recusar a autorizar o uso das suas instalações militares em operações ligadas ao conflito com o Irão e, antes disso, manifestara o seu desagrado com a resistência do Governo de Pedro Sánchez em aumentar a despesa em Defesa até aos 5 % do PIB exigidos por Washington. O que muda agora é o tom: deixou de ser uma ameaça velada para passar a ser um apoio público a quem pede que se aja.
A visita do novo embaixador dos Estados Unidos em Espanha, Benjamin León Jr., à base naval de Rota, no mesmo dia dessas declarações, acrescenta uma camada de ambiguidade difícil de ignorar. León agradeceu às tropas o seu "compromisso e serviço", sem que a sua presença esclarecesse se a relação bilateral está a arrefecer ou apenas a ser renegociada.
NATO entre pressão e divisão
Há três semanas sob o mesmo reparo. Desde que Estados Unidos e Israel lançaram a ofensiva contra o Irão, a 28 de fevereiro, Trump tem pedido insistentemente aos aliados que se juntem às operações, abrindo as suas bases ou participando diretamente em missões para desbloquear o estreito de Ormuz. A resposta dominante tem sido o silêncio ou a recusa.
Esta sexta-feira, Trump foi mais longe e chamou-os de "cobardes" numa publicação na Truth Social, onde também avisou que, sem os Estados Unidos, "a OTAN é um tigre de papel". A frase resume bem a dinâmica que atravessa a aliança: Washington pressiona, os europeus adiam e a fratura torna-se mais visível a cada semana que passa.
A exceção chegou na própria sexta-feira, a partir de Londres. O governo de Keir Starmer anunciou uma mudança de posição e autorizou o uso das suas bases para "operações defensivas" destinadas a proteger a navegação no estreito. A decisão teve resposta imediata: o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, acusou Starmer de pôr em risco os próprios cidadãos. A ameaça foi direta e soou a aviso com consequências.
Espanha, por seu lado, mantém a posição de Sánchez, resumida no "não à guerra". A sua contribuição para o cenário regional limita-se ao envio da fragata Cristóbal Colón para a parte oriental do Mediterrâneo, no quadro de uma operação europeia em que a França também participa com o porta-aviões Charles de Gaulle, embora sem ligação direta às operações sobre o Irão.
Netanyahu não afasta ofensiva terrestre
Enquanto o debate diplomático permanece em aberto, no terreno, os bombardeamentos não param. Israel anunciou na madrugada de sexta-feira uma nova vaga de ataques "no coração de Teerão" contra o que as Forças de Defesa de Israel descreveram como "infraestruturas do regime terrorista". O Irão respondeu com pelo menos quatro salvas de mísseis sobre Jerusalém em pouco mais de uma hora.
Benjamin Netanyahu, que há semanas evita comprometer-se com qualquer horizonte para o fim da guerra, deixou cair esta semana que não exclui uma operação terrestre. "Costuma dizer-se que não se pode ganhar uma guerra apenas a partir do ar", afirmou, antes de acrescentar que existem "muitas possibilidades" para esse componente terrestre e que preferia não as partilhar em público.
A mensagem contrasta com a promessa repetida de Trump de que a ofensiva terminará "em breve", expressão que perde um pouco do significado a cada dia que passa. Trump, por seu lado, foi claro quanto à sua posição sobre um cessar-fogo: "Não se assina um cessar-fogo quando se está, literalmente, a destruir a outra parte".
E aproveitou para se vangloriar do assassínio de altos responsáveis iranianos, em declarações que deixaram pouca margem para interpretar que Washington procura, a curto prazo, uma saída negociada.
Espanha retira soldados e petróleo sobe sem travão
O conflito também tem uma dimensão logística e económica que não para de se complicar. A evacuação dos militares espanhóis destacados no Iraque avança, mas com dificuldades. Segundo fontes do Executivo, já foi possível retirar uma centena de efetivos, mas permanecem outros 200 por repatriar. Espanha tem três aviões preparados para concluir a operação, que as autoridades descrevem como "complicada".
Em paralelo, o preço do petróleo continua a subir. O fecho efetivo do estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do petróleo mundial, tem pressionado os mercados desde o início da ofensiva e, três semanas depois, não há sinais de estabilização.
O governo espanhol anunciou um conjunto de medidas que implicam a mobilização de 5 000 milhões de euros e se traduzirão numa redução de até 30 cêntimos por litro para os consumidores, bem como numa poupança significativa em gás e eletricidade, com a redução do IVA de 21 % para 10 %, entre outras.