Cuba sofreu no sábado o sétimo apagão em ano e meio, o segundo da semana, deixando mais de 10 milhões de pessoas sem luz numa ilha sem petróleo desde janeiro devido ao bloqueio de Washington.
A União Elétrica de Cuba anunciou, ao final da tarde de sábado, uma "desconexão total" do sistema elétrico da ilha. Segundo o Ministério da Energia e Minas, a origem esteve numa avaria numa unidade da central termoelétrica de Nuevitas, em Camagüey, que desencadeou um efeito dominó e arrastou o resto da rede.
Ficaram as ruas de Havana em penumbra poucas horas depois, com residentes a deslocarem-se à luz dos telemóveis, tal como na segunda-feira anterior. Situação cada vez mais frequente.
Constitui este o terceiro apagão nacional em março e o sétimo desde outubro de 2024. O restabelecimento do Sistema Elétrico Nacional é sempre um processo lento: implica arrancar a partir de fontes de geração simples (solar, hidroelétrica, motores) para ir reconectando pequenas áreas até voltar a alimentar as grandes centrais termoelétricas, coração do sistema.
Problema de fundo: sem combustível não há recuperação
Distingue este apagão dos anteriores à quase inexistência de gasóleo e fueloil para os motores de geração distribuída, que, segundo o Governo, estão parados desde janeiro por falta de combustível. Sem esses motores, levantar a rede torna-se muito mais difícil e lento.
Enfrentam as centrais termoelétricas obsoletas do país, erguidas sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, um défice crónico de investimento e manutenção. Este sábado, dez das 16 unidades termoelétricas já estavam fora de serviço antes do colapso total, seja por avarias, seja por trabalhos de manutenção. Estas falhas resultam de décadas de subfinanciamento do setor, não diretamente do bloqueio petrolífero.
Dispararam os preços do combustível no mercado não oficial para nove dólares por litro, o que significa que encher o depósito de um carro pode custar mais de 300 dólares, valor muito superior ao salário anual da maioria dos cubanos.
Bloqueio de Trump e consequências
Em 29 de janeiro de 2026, Donald Trump assinou uma ordem executiva para impor direitos aduaneiros extraordinários a qualquer país que venda ou forneça petróleo a Cuba. Desde então, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel confirmou que nos últimos três meses não chegou petróleo à ilha. A medida paralisou a geração distribuída, que até então representava 40% da matriz energética.
Interrompeu-se também o fornecimento de crude vindo da Venezuela após a detenção de Nicolás Maduro por forças norte-americanas em janeiro, e a sua sucessora, Delcy Rodríguez, não retomou os envios perante as pressões de Washington.
Falhou igualmente a tentativa de abastecer a ilha com gasóleo russo: os Estados Unidos tentaram vetar na sexta-feira a passagem de cargueiros russos com combustível para Cuba, um dia antes do novo apagão.
Acusa o Governo cubano Washington de "asfixia energética". Especialistas independentes calculam que sanear o sistema elétrico custaria entre 8.000 e 10.000 milhões de dólares. Os apagões travam a economia, que encolheu mais de 15% desde 2020, segundo dados oficiais, e têm sido detonador das principais manifestações sociais.
Solidariedade internacional e tensão diplomática
Coincidiu o apagão com a chegada a Havana de uma coligação internacional de grupos políticos e ativistas, sobretudo da América Latina e da Europa, que se deslocaram para demonstrar apoio ao Governo cubano e protestar contra o bloqueio.
Geram as quedas do sistema impacto direto na vida quotidiana: encurtam horários laborais, dificultam cozinhar e provocam a perda de alimentos ao deixarem de funcionar os frigoríficos.
No plano diplomático, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros cubano Carlos Fernández de Cossío insistiu que "o sistema político de Cuba não está sujeito a negociação" com os Estados Unidos. A embaixada norte-americana na ilha apresentou um pedido urgente de petróleo, ato que Havana classificou de "descarado".
Díaz-Canel confirmou a manutenção de conversações bilaterais para "identificar problemas que precisam de solução", sem especificar alcance nem resultados. Entretanto, Trump descreveu Cuba como uma "nação muito enfraquecida" e sugeriu por várias vezes uma eventual intervenção ou "tomada de controlo amistosa" da ilha.