A violência sexual está a ser utilizada como arma de guerra no Sudão, sendo as mulheres e as raparigas as mais afetadas, num contexto de deslocações em massa e escassez de serviços de saúde, afirmou a representante nacional do UNFPA à Euronews.
A violência sexual tem sido utilizada como arma numa escala sem precedentes na guerra civil no Sudão, sendo as mulheres as mais afetadas pelos ataques que visam destruir comunidades, afirmou a representante nacional do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) à Euronews.
A guerra no Sudão, que teve início em abril de 2023, degenerou naquilo que as Nações Unidas chamam a crise humanitária mais devastadora do mundo.
Fabrizia Falcione, representante da agência internacional de saúde sexual e reprodutiva no Sudão, afirmou nunca ter visto violência sexual em contexto de conflito a uma escala tão grande.
"Neste conflito, a violência sexual está claramente a ser utilizada como uma forma de guerra em si mesma. E são as mulheres que estão a pagar o preço", disse Falcione.
As partes envolvidas no conflito cometem violência sexual e violam mulheres e raparigas para "desintegrar ou, de alguma forma, causar um dano duradouro nas comunidades", referiu. As mulheres tendem a ser as que mantêm as famílias e as comunidades unidas, o que as torna um alvo, segundo Falcione.
Falcione conheceu centenas de mulheres e raparigas que escaparam à violência em Darfur e Kordofan, duas regiões sudanesas que têm sido palco de intensos combates entre as Forças Armadas do Sudão e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido.
"Quando chegam, contam a violência que sofreram, incluindo os casos de violação e violência sexual por que passaram", acrescentou.
"Também conheci mulheres que falavam de outras mulheres que deram à luz na estrada. E, infelizmente, não se sabe o que lhes aconteceu."
Enfrentar o trauma e o estigma
As sobreviventes de violência sexual enfrentam traumas, lesões, o risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. Além disso, enfrentam frequentemente o estigma, afirmou Falcione.
"A violência sexual e a violação têm um impacto nas comunidades e nas sociedades a longo prazo. As crianças que nascerão e que já nasceram de uma violação, as raparigas, as mulheres que podem deixar de ser consideradas parte da sociedade ou da comunidade por serem sobreviventes de violência sexual."
O UNFPA trabalha com comunidades, famílias, mulheres, homens, rapazes e raparigas para ajudar a superar o estigma. Num país onde mais de 65% da população tem menos de 24 anos, Falcione acredita que os jovens são um poderoso agente de mudança.
"Infelizmente, o estigma relacionado com a violência sexual existe em todo o lado."
As necessidades mais prementes das mulheres deslocadas são serviços básicos, incluindo serviços de saúde sexual e reprodutiva, afirmou Falcione. Os trabalhadores humanitários prestam estes serviços nos campos de deslocados, mas continuam a ser muito limitados, disse ainda.
O UNFPA gere unidades de saúde móveis para chegar às mulheres e espaços seguros dedicados exclusivamente a mulheres e raparigas, "onde podem partilhar com outras mulheres o seu trauma" e "obter serviços para superar o trauma, incluindo apoio psicossocial por parte de profissionais qualificados".
Os espaços seguros servem também como locais onde as mulheres podem aprender novas competências para gerar rendimento e "recriar as suas vidas".
Milhões de pessoas continuam deslocadas
Passados mais de 1.000 dias de guerra, cerca de 9,3 milhões de pessoas continuam deslocadas internamente em todo o Sudão. A maioria são mulheres e crianças.
Cerca de 3 milhões de pessoas regressaram às suas regiões de origem, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU. Só em Cartum, registou-se o regresso de mais de 1 milhão de pessoas.
Falcione salientou que as mulheres querem regressar às comunidades de onde vieram. Mas, para tal, precisam de serviços básicos, tais como oportunidades de emprego e serviços de saúde básicos.
"As mulheres são pacificadoras. Esta guerra não é uma guerra das mulheres", afirmou.