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Violência sexual é uma "forma de guerra" no conflito no Sudão, diz representante da ONU

ARQUIVO - Um soldado do exército caminha em frente ao Palácio Republicano em Cartum, Sudão, depois de este ter sido tomado pelo exército sudanês, 21 de março de 2025
ARQUIVO - Um soldado do exército caminha em frente ao Palácio Republicano em Cartum, Sudão, depois de este ter sido tomado pelo exército sudanês, 21 de março de 2025 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Amandine Hess
Publicado a
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A violência sexual está a ser utilizada como arma de guerra no Sudão, sendo as mulheres e as raparigas as mais afetadas, num contexto de deslocações em massa e escassez de serviços de saúde, afirmou a representante nacional do UNFPA à Euronews.

A violência sexual tem sido utilizada como arma numa escala sem precedentes na guerra civil no Sudão, sendo as mulheres as mais afetadas pelos ataques que visam destruir comunidades, afirmou a representante nacional do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) à Euronews.

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A guerra no Sudão, que teve início em abril de 2023, degenerou naquilo que as Nações Unidas chamam a crise humanitária mais devastadora do mundo.

Fabrizia Falcione, representante da agência internacional de saúde sexual e reprodutiva no Sudão, afirmou nunca ter visto violência sexual em contexto de conflito a uma escala tão grande.

"Neste conflito, a violência sexual está claramente a ser utilizada como uma forma de guerra em si mesma. E são as mulheres que estão a pagar o preço", disse Falcione.

As partes envolvidas no conflito cometem violência sexual e violam mulheres e raparigas para "desintegrar ou, de alguma forma, causar um dano duradouro nas comunidades", referiu. As mulheres tendem a ser as que mantêm as famílias e as comunidades unidas, o que as torna um alvo, segundo Falcione.

Falcione conheceu centenas de mulheres e raparigas que escaparam à violência em Darfur e Kordofan, duas regiões sudanesas que têm sido palco de intensos combates entre as Forças Armadas do Sudão e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido.

"Quando chegam, contam a violência que sofreram, incluindo os casos de violação e violência sexual por que passaram", acrescentou.

"Também conheci mulheres que falavam de outras mulheres que deram à luz na estrada. E, infelizmente, não se sabe o que lhes aconteceu."

Enfrentar o trauma e o estigma

As sobreviventes de violência sexual enfrentam traumas, lesões, o risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. Além disso, enfrentam frequentemente o estigma, afirmou Falcione.

"A violência sexual e a violação têm um impacto nas comunidades e nas sociedades a longo prazo. As crianças que nascerão e que já nasceram de uma violação, as raparigas, as mulheres que podem deixar de ser consideradas parte da sociedade ou da comunidade por serem sobreviventes de violência sexual."

O UNFPA trabalha com comunidades, famílias, mulheres, homens, rapazes e raparigas para ajudar a superar o estigma. Num país onde mais de 65% da população tem menos de 24 anos, Falcione acredita que os jovens são um poderoso agente de mudança.

"Infelizmente, o estigma relacionado com a violência sexual existe em todo o lado."

As necessidades mais prementes das mulheres deslocadas são serviços básicos, incluindo serviços de saúde sexual e reprodutiva, afirmou Falcione. Os trabalhadores humanitários prestam estes serviços nos campos de deslocados, mas continuam a ser muito limitados, disse ainda.

O UNFPA gere unidades de saúde móveis para chegar às mulheres e espaços seguros dedicados exclusivamente a mulheres e raparigas, "onde podem partilhar com outras mulheres o seu trauma" e "obter serviços para superar o trauma, incluindo apoio psicossocial por parte de profissionais qualificados".

Os espaços seguros servem também como locais onde as mulheres podem aprender novas competências para gerar rendimento e "recriar as suas vidas".

Milhões de pessoas continuam deslocadas

Passados mais de 1.000 dias de guerra, cerca de 9,3 milhões de pessoas continuam deslocadas internamente em todo o Sudão. A maioria são mulheres e crianças.

Cerca de 3 milhões de pessoas regressaram às suas regiões de origem, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU. Só em Cartum, registou-se o regresso de mais de 1 milhão de pessoas.

Falcione salientou que as mulheres querem regressar às comunidades de onde vieram. Mas, para tal, precisam de serviços básicos, tais como oportunidades de emprego e serviços de saúde básicos.

"As mulheres são pacificadoras. Esta guerra não é uma guerra das mulheres", afirmou.

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