"É impressionante: perante este desafio impossível, estes animais unem-se para conseguir", afirma Shane Gero, do Project CETI.
Imagens raras de uma cachalote a dar à luz ofereceram aos cientistas uma nova perspetiva sobre o comportamento destes grandes mamíferos esquivos.
O vídeo, recolhido em 2023, mostra fêmeas de baleias de duas linhagens familiares a cooperarem para apoiar o parto nos momentos críticos e erguerem a cria recém-nascida acima da superfície.
É um nível de coordenação extremamente raro no reino animal, sobretudo fora dos primatas, como macacos e humanos.
“O grupo ajuda, literalmente, a trazer a cria ao mundo”, explica o ecólogo comportamental Mauricio Cantor, da Universidade Estadual do Oregon, que não participou na nova investigação.
Os cientistas querem perceber como as baleias cooperam e socializam em liberdade, mas é difícil estudar animais que passam a maior parte do tempo debaixo de água.
Existem apenas alguns registos de nascimentos de cachalotes nos últimos 60 anos, todos relatos anedóticos ou observações feitas a partir de baleeiras.
Há vários anos, uma equipa de investigadores estudava a comunicação das baleias a bordo de um barco ao largo da ilha caribenha de Dominica quando reparou em algo estranho: onze baleias – a maioria fêmeas – vieram à superfície, com as cabeças voltadas umas para as outras, e começaram a agitar-se e a mergulhar acima e abaixo da água.
Os cientistas lançaram de imediato drones e colocaram microfones para registar o que se passava.
Registar em vídeo o nascimento de uma baleia é "um acontecimento especial"
Todo o parto demorou cerca de 30 minutos. Durante várias horas depois, pares de baleias mantiveram a cria acima da água até esta conseguir nadar.
“Foi realmente um momento especial”, afirma David Gruber, coautor do estudo e membro da Cetacean Translation Initiative, ou Projeto CETI.
Após observarem o nascimento, os cientistas desenvolveram software para analisar com detalhe o que tinha acontecido. Descreveram imagens e sons em dois estudos publicados em 26 de março de 2026 nas revistas Scientific Reports e Science (fonte em inglês).
O que mais impressionou os investigadores foi o número de baleias mães, irmãs e filhas que se juntaram para apoiar a nova cria, incluindo alguns animais sem parentesco.
Cachalotes vivem em sociedades coesas lideradas por fêmeas, e as novas observações mostram como estas dinâmicas se mantêm nos momentos mais importantes e vulneráveis das suas vidas.
“É fascinante pensar como, perante um desafio quase impossível, estes animais se juntam para o ultrapassar”, comenta Shane Gero, também coautor do estudo e membro do Projeto CETI.
Novas pistas sobre as conversas ocultas das baleias
Os cientistas repararam também que as baleias emitiram sons diferentes nos momentos-chave do parto, incluindo sequências de estalidos mais lentos e longos. Estes ruídos podem ter facilitado a comunicação, ajudando os animais a coordenar-se no esforço do nascimento.
As conclusões abrem caminho a muitas novas perguntas. Como se formou, afinal, aquele grupo de baleias? Como souberam que deviam juntar-se?
Não se sabe quando os cientistas poderão encontrar respostas, sobretudo quando as imagens em vídeo são tão raras e difíceis de obter. Mas estes novos dados permitem, pelo menos em parte, espreitar as conversas ocultas das baleias.
“É entusiasmante podermos imaginar a vida social destes animais”, afirma a bióloga Susan Parks, da Universidade de Syracuse, que não participou nos novos estudos.