Perante a fúria devastadora das alterações climáticas, estes ilhéus travam uma luta vitoriosa – e não pensam desistir
Com areia fina como açúcar, águas azul-cobalto e sol quase permanente, a ilha de Bonaire parece um destino digno de postal ilustrado.
Mas, para os cerca de 20 000 habitantes, a vida aqui é “psicologicamente esgotante”.
Situada no sul das Caraíbas, Bonaire – um município especial dos Países Baixos – enfrenta há anos os impactos das alterações climáticas. O aumento das temperaturas provocado pelos gases com efeito de estufa alimenta tempestades tropicais e chuvas extremas, causando inundações graves e danos irreversíveis nos famosos recifes de coral da ilha.
Tudo isto interfere em todos os aspetos da vida em Bonaire, afetando a saúde dos residentes, o acesso a alimentos e até a própria terra que pisam. Mesmo as previsões mais conservadoras apontam para que partes da ilha fiquem submersas até 2050, à medida que o aquecimento das águas continua a fazer subir o nível do mar.
Apesar deste cenário sombrio, a população de Bonaire tem mostrado uma resiliência extraordinária, determinada a não deixar que a ilha desapareça sem lutar.
Vitória judicial de Bonaire
Em janeiro, oito queixosos, em conjunto com a organização ambientalista Greenpeace, levaram o governo neerlandês a tribunal, exigindo que os residentes fossem protegidos do aumento das temperaturas e da subida do nível do mar.
Numa vitória clara para os habitantes da ilha, o Tribunal Distrital de Haia concluiu que o governo discriminou os residentes de Bonaire ao não tomar “medidas atempadas e adequadas” para os proteger das alterações climáticas antes que seja demasiado tarde.
O tribunal ordenou ao governo neerlandês que, no prazo de 18 meses após a decisão, estabeleça metas juridicamente vinculativas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em linha com o Acordo de Paris, que compromete os países a limitar o aumento da temperatura global a menos de 2 ºC face à era pré-industrial.
Foi uma vitória ao estilo David contra Golias, que fez eco do histórico caso Urgenda, de 2019, quando o Supremo Tribunal neerlandês decidiu a favor de ativistas climáticos e ordenou ao governo que reduzisse as emissões de gases com efeito de estufa do país.
“Esperança tem agora de se transformar em ação”
“A decisão do tribunal a favor de Bonaire é um grande marco – é histórica”, afirma Jackie Bernabela, uma das queixosas iniciais, à Euronews Earth. “Mas se as coisas vão mesmo mudar depende do que acontecer a seguir.”
Levou-a a trabalhar com a Greenpeace uma “profunda preocupação” com o futuro de Bonaire, e Jackie foi ficando cada vez mais frustrada com promessas políticas não cumpridas enquanto via o seu país sofrer.
“Para muitos residentes como nós, o mais doloroso é ver as mudanças visíveis na natureza: recifes de coral, praias e paisagens que são centrais quer para a identidade, quer para o sustento”, diz.
Ainda assim, Jackie mantém o otimismo, sublinhando que os tribunais raramente decidem “de ânimo leve” em processos climáticos e que estas decisões muitas vezes influenciam políticas mais amplas.
“Mas as alterações climáticas estão a acelerar e o tempo é limitado”, avisa.
“Zombaram de nós”
Para Onnie Emerenciana, agricultor em Bonaire, as alterações climáticas estão a tornar o seu trabalho quase impossível. Com problemas respiratórios devido ao trabalho ao ar livre em condições de muito pó – e obrigado a usar mangas compridas para proteger a pele das temperaturas abrasadoras –, Onnie tenta adaptar-se à seca prolongada na ilha.
“É muito difícil fazer agricultura se não se tem água”, afirma. “Ela é necessária para produzir culturas e para dar aos animais. Como não chove, os campos estão secos – o solo está muito quente – e nada cresce.”
Onnie passou a cultivar em estufas, para impedir que os alimentos sejam comidos por animais como lagartos e iguanas, e construiu as suas próprias caixas de cultivo para produzir folhas verdes e outros legumes de pequena dimensão.
“O meu maior problema é a água”, explica. “Compro água à empresa local, mas eles só me conseguem trazer seis metros cúbicos por semana no camião. Se o camião avaria, deixam de trazer água e, por vezes, isso dura duas semanas – e eu perco todo o investimento.”
Com um amor pela natureza herdado da avó indígena, Onnie juntou-se à ação em tribunal apoiada pela Greenpeace depois de ver a “ilha feliz desaparecer” diante dos seus olhos.
Não foi uma decisão fácil, já que muitos residentes troçavam dos queixosos e das aparentemente reduzidas hipóteses de vitória.
“Algumas pessoas não acreditavam em nós e gozavam connosco”, recorda Onnie. “Diziam ‘como é que vão ganhar um processo judicial contra os Países Baixos?’ Mas eu estava determinado.”
Enquanto espera que os Países Baixos apresentem um plano para proteger Bonaire das alterações climáticas, Onnie concentra-se no que os próprios residentes podem fazer para melhorar o dia a dia, como plantar árvores, separar resíduos e identificar as zonas da ilha que poderiam beneficiar de barragens para armazenar água da chuva.
“Vou continuar a observar, a adaptar-me e a manter toda a gente informada sobre as mudanças”, acrescenta. “Como já disse, há apenas um planeta Terra; temos de o proteger ou será o fim de todos nós.”
“Viver em Bonaire não é fácil”
Meralney Bomba, que não foi queixosa no processo mas trabalha para a Greenpeace, diz que tem sido “esgotante do ponto de vista mental” passar junto à costa de Bonaire sabendo que, no futuro, poderá já não existir.
“Nascer, crescer e viver em Bonaire não é algo fácil de suportar”, afirma à Euronews Earth, embora mantenha o otimismo.
“Espero que as coisas mudem”, diz Meralney. “Nunca perderei a esperança – mas, como sabemos há anos em Bonaire, as mudanças não acontecem facilmente e a adaptação tem de partir de todos.”
Meralney apenas deseja que os residentes sejam ouvidos e respeitados. Garante que estão cansados de ver organizações a visitar a ilha para fazer estudos e investigações que nunca se traduzem em medidas concretas.
“A decisão veio e virá certamente acelerar as coisas”, acrescenta. “Isto não é o fim. É, literalmente, apenas o início; o trabalho continua todos os dias rumo a um mundo mais justo e correto para todos.”