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Itália: Europa recruta enfermeiros antes da licenciatura e agrava carência interna

Hospital Cotugno em Nápoles
Hospital Cotugno em Nápoles Direitos de autor  AP Photo
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De Stefania De Michele
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Inquérito Nursing Up: países europeus recrutam enfermeiros italianos ainda durante o curso; Itália perde mais de 200 milhões de euros por ano e faltam 175 mil profissionais

Itália forma enfermeiros, mas é a Europa que os recruta - cada vez mais cedo e cada vez mais depressa. Segundo uma investigação do Nursing Up, os países estrangeiros já não esperam pela licenciatura e abordam diretamente os estudantes de enfermagem nas universidades, transformando a formação italiana num reservatório de recrutamento antecipado.

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Mecanismo que, na prática, transfere para o estrangeiro o valor criado em Itália: as universidades formam, o Serviço Nacional de Saúde italiano investe, mas são os hospitais estrangeiros a contratar profissionais já prontos.

"Somos o multibanco da formação na Europa: pagamos a conta, os outros levantam os profissionais", denuncia Antonio De Palma, presidente do Nursing Up, sintetizando uma dinâmica cada vez mais evidente no panorama sanitário internacional.

Itália: mais de 200 milhões de euros por ano em capital humano

Também os números económicos são significativos. Formar um enfermeiro custa ao Estado cerca de 30 mil euros. Se todos os anos cerca de 6 a 7 mil profissionais deixam o país, a "oferta" ao estrangeiro ultrapassa os 200 milhões de euros anuais.

Tudo isto num contexto já frágil: Itália enfrenta uma carência estimada de cerca de 175 mil enfermeiros, com um rácio entre profissionais e população entre os mais baixos da Europa.

E não é apenas uma questão numérica. O problema é também económico e de atratividade: os salários em Itália estão entre os mais baixos da OCDE, mais de 9 mil dólares abaixo da média.

No estrangeiro salários triplicam e apoio social é total

A investigação evidencia programas de recrutamento cada vez mais agressivos, dirigidos diretamente aos estudantes universitários.

Na Alemanha, por exemplo, programas como o Germitalia oferecem aos estudantes alimentação, alojamento e cursos de língua já durante o percurso de formação, com salários iniciais entre 2.400 e 2.600 euros brutos que, após o reconhecimento do título, podem subir para 3.300-3.800 euros e ultrapassar os 4.000 euros com as indemnizações e suplementos.

Na Noruega as ofertas chegam a cerca de 3.500 euros líquidos mensais, acompanhadas por um pacote de proteção social completo que cobre casa, contas e até os voos. Ainda mais elevados são os salários na Suíça, onde nas zonas de Zurique e Basileia se atingem 5.000-6.500 francos por mês, o equivalente a cerca de 6.700 euros.

O contraste com Itália é evidente: um enfermeiro ganha em média entre 1.500 e 1.700 euros por mês e tem de suportar sozinho as despesas com habitação, o que torna cada vez mais difícil colmatar o fosso económico e de condições.

Causas de fundo: salários baixos e sistema sob pressão

Na base do êxodo não está apenas a questão económica. Segundo várias análises, entre as quais as da Fundação Gimbe, também pesam:

  • cargas de trabalho elevadas
  • carência crónica de pessoal
  • poucas perspetivas de carreira

Estes fatores tornam a profissão cada vez menos atrativa para os jovens, enquanto aumenta o número de demissões e transferências para o estrangeiro. O fenómeno insere-se ainda numa crise mais ampla: toda a Europa sofre uma carência de enfermeiros, mas os países mais fortes conseguem colmatar a falha recrutando precisamente em realidades como a italiana.

Itália e o paradoxo: exportar enfermeiros e importar substitutos

O sistema de saúde nacional depara-se assim com um paradoxo: enquanto forma profissionais que emigram, vê-se obrigado a procurar pessoal no estrangeiro para cobrir as vagas. Várias regiões lançaram programas de recrutamento em países extra-UE, da América Latina à Ásia Central, na tentativa de conter a emergência.

Na Lombardia foram lançados projetos para a chegada de cerca de 3.000 enfermeiros do Uzbequistão e, no passado, iniciativas como o projeto Magellano permitiram a integração de profissionais sul-americanos após apenas quatro semanas de curso de língua italiana.

Paralelamente, regiões como Lácio, Véneto, Calábria e Apúlia organizaram missões de recrutamento em países como o Chile, o Peru e Cuba, com o objetivo de colmatar carências estruturais através de profissionais formados fora da União Europeia.

Estratégia que, segundo o Nursing Up, não resolve o problema estrutural e pode até agravá-lo. As consequências podem ser profundas. A escassez de enfermeiros tem impacto direto na qualidade dos cuidados e na sustentabilidade do sistema público.

Já hoje Itália tem menos enfermeiros por habitante do que a média europeia, e o fosso arrisca-se a aumentar ainda mais nos próximos anos. O risco, alerta De Palma, é o de um progressivo "sangramento" do Serviço Nacional de Saúde, incapaz de reter as suas competências.

O pedido do sindicato é claro: investir nos enfermeiros italianos, a começar pelos salários e pelas condições de trabalho.

"Não são precisos remendos estrangeiros – conclui De Palma – mas sim políticas sérias para valorizar quem já está no sistema".

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