O parecer do Bundestag questiona se o ministério da Defesa podia suspender norma polémica do serviço militar.
Um parecer do Serviço Científico do Bundestag coloca o ministro da Defesa, Boris Pistorius, sob pressão para dar explicações. Segundo a ARD, os especialistas consideram que o ministério da Defesa pode ter agido de forma ilegal ao suspender uma regra controversa da Lei do Serviço Militar Obrigatório, relacionada com estadias prolongadas no estrangeiro.
No centro da polémica está uma disposição da Lei do Serviço Militar Obrigatório, em vigor desde o início do ano. Prevê que homens entre os 18 e os 45 anos necessitem, em regra, de uma autorização da Bundeswehr para deixar a Alemanha por mais de três meses. A norma gerou fortes críticas e incerteza no início de abril.
O ministro da Defesa, Boris Pistorius (SPD), garantiu publicamente que, para já, nada mudava para os afetados e que as estadias prolongadas no estrangeiro não tinham de ser autorizadas ou comunicadas. Pouco depois, o ministério suspendeu na prática a disposição através de um despacho de carácter geral.
É precisamente esta decisão que o Serviço Científico do Bundestag considera juridicamente problemática. Segundo o parecer, citado pela ARD, o ministério da Defesa não se limitou a criar exceções à regra, mas suspendeu-a por completo através de um despacho. Os especialistas defendem que o governo não tem autoridade para anular uma lei ou parte dela, e que essa competência pertence apenas aos tribunais constitucionais.
Os peritos mostram-se particularmente preocupados com o facto de o despacho geral excluir da norma todos os homens abrangidos. Na prática, isso significa que já não existe ninguém a quem a disposição continue a aplicar-se. O Serviço Científico recorda um princípio jurídico fundamental: quando são criadas exceções a uma lei, esta deve continuar a aplicar-se a alguns casos; caso contrário, a exceção acaba por substituir a própria regra.
A questão das estadias no estrangeiro tem sido debatida desde que a Lei de Modernização do Serviço Militar entrou em vigor, no início de janeiro. A obrigação de pedir autorização já existia antes da suspensão do serviço militar obrigatório, em 2011, mas voltou a gerar polémica com a nova lei porque passou a aplicar-se mesmo em tempos normais, e não apenas em situações de crise ou de defesa nacional.
Segundo a ARD, o despacho geral pode ser revogado pelo próprio ministério ou sujeito a apreciação judicial. Já no final de abril, o próprio Pistorius tinha admitido erros. Em declarações ao Rheinische Post, falou em "erro técnico" e afirmou que a norma "nunca deveria ter figurado na lei".