O português Cláudio Neves Valente, responsável pelo ataque na Universidade de Brown que matou dois estudantes e pelo homicídio do físico Nuno Loureiro, terá agido motivado por ressentimentos ligados a fracassos pessoais, segundo relatório do FBI, que aponta para anos de planeamento em isolamento.
Cláudio Valente, que em dezembro de 2025 disparou quatro tiros contra o físico português Nuno Loureiro, professor do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), e que foi responsável pelo atentado à Universidade de Brown, onde morreram dois estudantes, não terá agido de forma aleatória, mas devido a "fracassos pessoais", disseram as autoridades federais dos Estados Unidos na noite de quarta-feira.
O ex-aluno da Brown, de 48 anos, pareceu visar lugares e pessoas pelo que representavam na sua própria vida, instituições e indivíduos a quem associava um falhanço pessoal, oportunidades perdidas e a uma perceção de injustiça, revelou um relatório de avaliação.
Numa avaliação comportamental detalhada divulgada na quarta-feira, o FBI disse que Neves Valente, um cidadão português, passou anos a planear o ataque em isolamento antes de matar dois estudantes e ferir outros nove dentro de um edifício de engenharia em 13 de dezembro. Dois dias depois, matou o professor do MIT Nuno F.G. Loureiro na sua casa em Brookline, Massachusetts.
Cláudio Neves Valente foi mais tarde encontrado morto, com um aparente ferimento de bala auto-infligido dentro de um armazém em Salem, New Hampshire, encerrando uma busca interestadual.
O FBI descreveu-o como um homem que passou anos isolado, raramente permanecendo num só lugar e sem sistemas tradicionais de apoio, como família, colegas e figuras de autoridade que poderiam ter reconhecido sinais de alerta e alertado as forças de segurança.
Ao longo do tempo, disseram os investigadores, Neves Valente construiu uma narrativa de ressentimento e inadequação, com "pouca ou nenhuma oportunidade para que quem estivesse à sua volta observasse e contextualizasse a importância dos seus comportamentos."
"Parecia ter dificuldades com a forma como via as suas conquistas de vida e sentia que era consideravelmente marginalizado pelos outros", escreveu o FBI no relatório. "À medida que os seus fracassos superavam os sucessos, a sua paranóia aumentava, agravando a sua contínua incapacidade de prosperar e levando-o a ficar mentalmente doente e decidido a morrer", acrescentam as autoridade federais no documento.
As autoridades disseram que a violência em si era "de natureza simbólica". A Universidade de Brown e Nuno Loureiro, escreveram os investigadores, representavam para o atirador "as suas falhas pessoais e injustiças que percecionava terem sido infligidas por outros ao longo do tempo".
"Ao atacá-los, Neves Valente provavelmente conseguiu superar a sua vergonha e inveja usando a violência para punir as comunidades que ele entendeu que contribuíram para a sua queda", disse o FBI.
No entanto, os investigadores reconheceram que apenas o próprio Cláudio Valente conhecia a razão completa por trás dos ataques e que fatores de stress, relacionados com a saúde mental, não podem por si só explicá-los totalmente.
Após os ataques, os investigadores afirmaram que o português gravou uma série de vídeos e mensagens de áudio onde confessou os atos violentos, não tendo expressado remorso, mas não ofereceu explicação clara para as suas ações.
Os investigadores afirmaram ainda que Neves Valente agiu sozinho e que os ataques não tinham ligação com o terrorismo.
Cláudio Neves Valente frequentou brevemente Brown como estudante de doutoramento no início dos anos 2000, mas não completou o programa, uma conexão que os investigadores dizem ter levado em conta mais tarde na forma como ele via a universidade.
As armas de fogo utilizadas nos ataques foram legalmente adquiridas na Flórida anos antes, adiantaram também os investigadores.
Os resultados surgem após os estudantes feridos no ataque terem apresentado um processo judicial no início desta semana, alegando que a universidade ignorou avisos anteriores sobre o atirador e não prestou a segurança adequada que pudesse ter prevenido a tragédia.
Além da ligação com a Universidade de Brown, Cláudio Neves Valente estudou no Instituto Superior Técnico de Lisboa na mesma época em que Nuno Loureiro.