A escassez de água, a desertificação e a perda de biodiversidade estiveram entre os temas debatidos na Cimeira Ecológica Regional
Os países da Ásia Central reuniram-se na semana passada para coordenar posições em matéria ambiental antes das negociações internacionais.
A Cimeira Ecológica Regional, em Astana, garantiu compromissos sobre posições conjuntas e soluções para vários desafios ambientais que a Ásia Central enfrenta.
Segundo o ministro da Ecologia do Cazaquistão, Yerlan Nyssanbayev, o principal resultado da cimeira foi a assinatura da declaração conjunta «Solidariedade Ambiental da Ásia Central», adotada pelos chefes de Estado da região.
O documento compromete os países da Ásia Central – Uzbequistão, Quirguistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Cazaquistão – a desenvolver posições e soluções comuns sobre questões ambientais que possam pôr em causa a estabilidade da região.
Um dos marcos principais foi o apoio dos líderes regionais à proposta do Presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, de criar uma organização internacional da água, apoiada pelas Nações Unidas. As primeiras consultas foram lançadas à margem da cimeira.
Os dirigentes apoiaram igualmente a iniciativa presidencial de criar um fundo internacional para a biodiversidade, bem como a proposta de elaborar um programa interestatal de proteção dos recursos hídricos do mar Cáspio.
«No conjunto, as principais prioridades que considerávamos importantes foram acolhidas na cimeira. Considero que esse é o principal resultado do encontro», acrescentou Nyssanbayev.
Financiamento reforça renováveis e descarbonização
Outro resultado central da cimeira foi a assinatura de acordos financeiros com instituições internacionais, segundo Nyssanbayev.
Nos primeiros dias da Exposição Internacional de Tecnologias Verdes, realizada em paralelo com a cimeira, foram assinados acordos de financiamento no valor de quase 2 mil milhões de euros. Os projetos abrangem energias renováveis, gestão de resíduos, descarbonização industrial e produção de fertilizantes no Cazaquistão.
O financiamento insere-se na cooperação entre a Comissão Europeia, o Cazaquistão e instituições financeiras, incluindo o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento.
Um dos projetos emblemáticos é a construção de um parque eólico de um gigawatt na região cazaque de Zhambyl.
'Os países ouvem-se uns aos outros e avançam em conjunto'
A Cimeira Ecológica Regional foi proposta pela primeira vez pelo Presidente Kassym-Jomart Tokayev na 78.ª Assembleia Geral da ONU, em 2023. Em 2026, reuniu em Astana os chefes de Estado da Ásia Central para acordarem uma visão comum sobre desafios ambientais prementes e reforçarem os compromissos regionais com soluções conjuntas.
Segundo o ministro Nyssanbayev, a região continua a enfrentar desafios partilhados, entre os quais escassez de água, degradação dos solos, desertificação e perda de biodiversidade.
«A cimeira mostrou à comunidade internacional que a região está unida, que os países se ouvem mutuamente e avançam em conjunto. Sublinha a solidariedade da Ásia Central, com áreas-chave de cooperação conjunta em questões ambientais e alterações climáticas claramente definidas», afirmou.
Realizada em parceria com as Nações Unidas, esta plataforma regional de diálogo, sem precedentes, reuniu altos representantes da comunidade internacional para ajudar a promover soluções para os desafios ambientais da região.
Entre os participantes estiveram três vice-secretários-gerais da ONU, altos responsáveis da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa, bem como representantes da CITES e da Convenção sobre a Diversidade Biológica.
Nyssanbayev salientou que o nível de representação sublinhou a importância dos debates e a sua relevância para a Ásia Central.
«Saímos desta cimeira com um compromisso claro de continuar a trabalhar para melhorar as condições ambientais, enfrentar os desafios climáticos e reduzir as emissões de CO₂ e a poluição», declarou.
Reforçar esforços para recuperar espécies-chave
A iniciativa de Tokayev para criar um fundo internacional de biodiversidade surge numa altura em que o Cazaquistão intensifica os esforços para restaurar espécies-chave, vitais para o seu ecossistema.
«O país conseguiu salvar e aumentar significativamente a população de antílopes-saiga, que caiu de cerca de 92 mil no início da década de 1990 para apenas 21 mil em 2003», explicou Nyssanbayev.
Graças a medidas estatais continuadas, a população ascendeu agora a cerca de cinco milhões de animais.
Outros projetos em curso incluem a reintrodução do cavalo de Przewalski.
Com 14 animais já transferidos da Europa, espera-se a chegada de mais 40 até 2029, que formarão a base de um programa de restauração a longo prazo.
Outra iniciativa ambiciosa é a recuperação do tigre turaniano no seu habitat histórico. Dois tigres de Amur já foram introduzidos e vivem atualmente numa reserva designada.
«Com uma população inicial de seis tigres de Amur, estamos a lançar um grande programa para restaurar o tigre turaniano. Na prática, trata-se de um esforço para trazer de volta uma espécie que desapareceu da região», referiu o ministro.
O último tigre no Cazaquistão foi registado em 1948. Historicamente, estes animais habitavam as planícies aluviais dos rios Syr Darya e Amu Darya, mas acabaram por desaparecer.
Reconstruir após incêndios devastadores
O ministro da Ecologia descreveu os progressos do programa do Cazaquistão para plantar dois mil milhões de árvores, lançado após os incêndios devastadores nas regiões do norte em 2023, que causaram a morte de 15 pessoas e destruíram cerca de 70 000 hectares de floresta.
A meta foi fixada pelo Presidente Tokayev em 2020.
«Até à data, já plantámos cerca de 1,648 mil milhões de árvores no âmbito do fundo florestal estatal. Este trabalho continua e prevemos atingir o objetivo total de dois mil milhões de árvores até ao final de 2027», afirmou Nyssanbayev.
O ministério está igualmente a realizar uma ampla recuperação pós-incêndio. A prioridade é limpar as áreas florestais queimadas e reflorestar nos próximos três anos.
Em paralelo, a madeira aproveitável está a ser processada. Foram construídas três unidades de processamento e mais de 100 equipas trabalham no terreno. Até ao final do ano, planeiam limpar cerca de 600 quilómetros de áreas florestais afetadas.
A reflorestação já começou, com a plantação de mudas em mais de 100 hectares.
Envolver cidadãos na recuperação ecológica
Para além do impacto regional da cimeira, Nyssanbayev destacou o crescimento da cultura ecológica no país.
Lançada inicialmente pelo Presidente Kassym-Jomart Tokayev em 2024, a campanha Taza Kazakhstan (Cazaquistão Limpo) – que inclui plantação de árvores em áreas urbanas, bem como a limpeza de massas de água e das zonas envolventes – transformou-se num movimento à escala nacional.
«Está também a ser desenvolvido um trabalho significativo de educação ambiental em escolas e universidades, através de programas de formação especializados. Paralelamente, desde o início da primavera realizam-se ações práticas sazonais, incluindo a plantação de árvores e flores, que já estão a produzir resultados positivos», afirmou.
Os cidadãos, em especial os jovens, participam ativamente em iniciativas ambientais, observou Nyssanbayev.
«Criámos igualmente um site dedicado, através do qual recebemos mais de 30 000 pedidos de cidadãos todos os anos. A maioria diz respeito à melhoria das condições de saneamento, à limpeza de espaços públicos e a iniciativas de plantação de árvores.»
Com iniciativas ecológicas e soluções conjuntas para os principais desafios da Ásia Central consagradas nos documentos vinculativos da cimeira, o Cazaquistão espera que a cooperação reforçada produza resultados concretos.