El Niño é um fenómeno meteorológico natural, mas as suas consequências agravam-se devido às alterações climáticas.
El Niño deverá instalar-se este verão, com 80 por cento de probabilidade, segundo a última previsão da Organização Meteorológica Mundial (OMM), e a Europa deve preparar-se para calor mais extremo, com algumas zonas sob risco acrescido de seca e inundações.
Na última semana, partes da Europa Ocidental registaram temperaturas primaveris sem precedentes, devido à formação de uma poderosa cúpula de calor. Episódios deste tipo deverão tornar-se mais intensos, prolongados e frequentes à medida que o El Niño se instala, e os cientistas alertam que o fenómeno poderá prolongar-se até 2028.
Embora a intensidade do fenómeno meteorológico ainda seja incerta, os modelos da OMM indicam que será pelo menos moderado, e possivelmente forte, com 90 por cento de probabilidade de se prolongar pelo menos até novembro.
“O mundo tem de encarar isto como o alerta climático urgente que é. As condições de El Niño vão alimentar ainda mais o incêndio de um planeta em aquecimento”, afirma o secretário-geral da ONU, António Guterres.
Preparar-se para temperaturas acima do normal
Alimentado por águas anormalmente quentes no Pacífico tropical, o El Niño deverá fazer-se sentir praticamente em todo o globo, com temperaturas acima da média previstas entre junho e agosto.
“Temos de nos preparar para um evento de El Niño potencialmente forte, que vai agravar a seca e as chuvas intensas e aumentar o risco de ondas de calor tanto em terra como no oceano”, afirma a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
O mais recente episódio de El Niño, em 2023-24, foi um dos cinco mais fortes de que há registo e contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente alguma vez registado. Segundo o relatório Estado do Clima na Europa 2024, publicado em conjunto pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus e pela OMM, a Europa viveu nesse ano condições dramáticas e contrastantes: enquanto o leste enfrentou calor seco e sufocante, o oeste sofreu chuvas intensas e inundações.
Este ano, “os impactos vão ser ainda mais duros, alastrar ainda mais e atravessar fronteiras a uma velocidade devastadora”, adverte Guterres.
As Nações Unidas já alertaram que existe uma probabilidade de 86 por cento de os próximos anos ultrapassarem o recorde de calor de 2024, com cientistas do clima a avisarem que se está a formar “toda uma série de fenómenos meteorológicos extremos” à medida que um forte El Niño colide com o aquecimento global em aceleração.
Embora se considere que as alterações climáticas não aumentam a frequência ou a intensidade do El Niño, podem amplificar os seus efeitos. O aquecimento dos oceanos e da atmosfera aumenta a energia e a humidade disponíveis para fenómenos extremos como ondas de calor e chuvas intensas.
Quanto tempo pode durar o El Niño
Segundo as observações da OMM, as temperaturas da superfície do mar começaram a aproximar-se dos limiares de El Niño entre o final de abril e meados de maio deste ano. As temperaturas subsuperficiais em todo o Pacífico tropical estão mais de 6 °C acima da média, constituindo um importante reservatório de calor que alimenta o aquecimento à superfície.
Este poderoso fenómeno meteorológico natural tende a formar-se a cada dois a sete anos e dura cerca de nove a doze meses. Normalmente atinge a sua máxima intensidade entre novembro e fevereiro, sendo que os impactos nas temperaturas globais são muitas vezes mais fortes no segundo ano após o desenvolvimento.
Os seus efeitos variam consoante a intensidade, a duração, a altura do ano em que se desenvolve e a forma como interage com outras variáveis climáticas.
Este ano, a OMM prevê temperaturas acima da média em quase todo o lado em junho, julho e agosto. É esperado um regime de precipitação abaixo da média no sul da Ásia, no Grande Corno de África e na América Central, onde se antecipam condições mais secas e quentes durante estações chuvosas e períodos de crescimento agrícola cruciais.
“Previsões sazonais antecipadas e sistemas de alerta precoce são vitais para salvar vidas e atenuar o impacto nas nossas economias e comunidades”, sublinha Saulo. O momento para decisões informadas, planeamento e preparação é agora, acrescenta a OMM.
Guterres apela à ação sobre os fatores de origem humana dos extremos climáticos, defendendo “o fim da dependência dos combustíveis fósseis e a aceleração da transição para as energias renováveis”.
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