A Colômbia decide este domingo entre a mão dura de Abelardo de la Espriella e a aposta no diálogo de Iván Cepeda, em eleições marcadas pela insegurança e polarização.
A Colômbia realiza este domingo uma segunda volta das presidenciais marcada por uma polarização profunda e pelo receio de que o país volte a cair numa espiral de violência semelhante à que viveu durante décadas.
Os colombianos vão escolher entre o empresário e advogado Abelardo de la Espriella, uma figura alheia aos partidos tradicionais e situada no espectro conservador, e o senador Iván Cepeda, herdeiro político do presidente cessante, Gustavo Petro, o primeiro chefe de Estado de esquerda da história recente do país.
Na primeira volta, De la Espriella obteve 44% dos votos, contra 41% de Cepeda, segundo os resultados oficiais. O presidente Gustavo Petro pôs em causa esses resultados, sem apresentar provas, depois de Cepeda, que liderara grande parte das sondagens, não ter conseguido impor-se e até ter ficado atrás do rival.
Ambos os candidatos chegaram à segunda volta depois de vencerem outros nove aspirantes nas eleições realizadas em 31 de maio e centraram grande parte da campanha na segurança, uma questão que volta a preocupar uma população atingida pelo aumento da violência.
Esta disputa eleitoral soma-se ainda a uma tendência cada vez mais visível na América Latina, onde várias eleições recentes têm sido marcadas por uma forte polarização entre projetos de esquerda e de direita.
Os dois aspirantes garantem ter a receita para evitar que a Colômbia regresse aos anos mais negros dos atentados com carros armadilhados, raptos, desaparecimentos forçados e deslocações em massa. No entanto, as suas propostas são radicalmente distintas.
Dois modelos opostos para o futuro do país
De la Espriella, conhecido como 'El Tigre', prometeu perseguir sem tréguas as organizações criminosas e construir dez megacadeias inspiradas no modelo promovido pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele. Os seus apoiantes destacam a redução dos homicídios em El Salvador, enquanto os críticos denunciam violações dos direitos humanos.
O candidato conservador defende também o direito ao porte de arma, uma redução da dimensão do Estado, o impulso ao 'fracking' e políticas económicas liberalizadoras. Durante a campanha, propôs reforçar a cooperação com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico e chegou a sugerir uma ofensiva de grande intensidade contra os grupos armados ligados à produção de cocaína.
O seu discurso encontrou eco em amplos setores do eleitorado preocupados com o deteriorar da segurança. Analistas políticos consideram que boa parte do seu sucesso assenta na imagem de empresário feito por si próprio, disposto a aplicar soluções drásticas contra a criminalidade.
Esse perfil permitiu-lhe também ligar-se à nova vaga conservadora que ganhou força em vários países da região. Não é por acaso que Donald Trump lhe manifestou publicamente o seu apoio.
Do outro lado está Iván Cepeda, senador de 63 anos e uma das figuras mais reconhecidas da esquerda colombiana. Durante décadas esteve ligado à defesa dos direitos humanos e é considerado o principal herdeiro político de Petro.
A sua história pessoal está marcada pelo conflito colombiano. É filho de um senador comunista assassinado por grupos paramilitares de extrema-direita, uma experiência que condicionou grande parte do seu percurso político.
Cepeda propõe manter o projeto emblemático do atual Governo, a chamada 'Paz Total', assente em negociações simultâneas com guerrilhas e bandos criminosos. A iniciativa tem sido alvo de inúmeras críticas pelos escassos avanços. De facto, só esta semana o primeiro grupo armado, com pouco mais de uma centena de elementos, começou a entregar as armas para iniciar um processo de reintegração. Calcula-se que as organizações ilegais colombianas somem mais de 27 000 membros.
Ainda assim, o senador reconheceu durante a campanha que será necessário rever os resultados obtidos até agora e corrigir os aspetos que não funcionaram.
Violência volta a marcar a campanha
As eleições realizam-se uma década depois da assinatura do histórico acordo de paz entre o Estado colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), um pacto que gerou esperança de pôr fim a décadas de conflito armado interno. No entanto, a violência reapareceu com força nos últimos anos. Grande parte dos grupos armados abandonou as motivações ideológicas para se concentrar em atividades ligadas ao narcotráfico e a outras economias ilegais.
Durante o último ano registaram-se 14.780 homicídios, o número mais elevado desde pelo menos 2015, impulsionados sobretudo pelos confrontos entre organizações armadas ilegais. Entre as vítimas está o dirigente conservador Miguel Uribe, assassinado em plena campanha eleitoral. As extorsões também dispararam. Em 2025 foram contabilizados 13.417 casos, mais do dobro de uma década antes.
Mais de 41 milhões de cidadãos são chamados às urnas este domingo. A importância do voto no estrangeiro volta a ficar evidente também em Espanha, o segundo país com mais eleitores colombianos fora da Colômbia. Um total de 307.997 cidadãos são chamados às urnas em território espanhol, onde a participação atingiu níveis recorde nestas eleições. Só na primeira volta votaram mais de 127.000 pessoas, um número muito superior ao registado nas presidenciais de 2022.