Um principal negociador iraniano saudou o acordo de princípio EUA-Irão como uma “declaração da derrota americana”, enquanto Trump advertiu que as conversações terminariam de imediato se se confirmarem relatos de que Teerão quer impor portagens aos navios que atravessam o estreito de Ormuz
O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, descreveu o acordo-quadro EUA-Irão como «uma declaração da derrota dos Estados Unidos», afirmando que Washington e Israel cometeram um erro de cálculo ao lançar a guerra.
«O entendimento de Islamabad não foi resultado de pressão e coerção, mas sim da resistência e da autoridade da corajosa nação iraniana», afirmou Ghalibaf, que lidera a equipa negociadora iraniana, na cimeira parlamentar da PUIC em Baku.
«A era de impor a vontade a nações independentes terminou», acrescentou.
As declarações surgem numa altura em que prosseguem as conversações técnicas no âmbito do acordo-quadro de 60 dias, com os negociadores iranianos e norte-americanos ainda divididos sobre questões-chave em aberto, em particular sobre o futuro do estreito de Ormuz e as inspeções nucleares no Irão.
O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou na quarta-feira, numa publicação na rede Truth Social, que Teerão garantiu a Washington que não haveria «portagens, custos de seguro nem quaisquer outras taxas» para os navios que atravessam esta via marítima crucial, avisando que, se tal informação se revelar falsa, «as negociações terminam imediatamente».
Trump afirmou ainda que os fundos iranianos desbloqueados seriam usados exclusivamente para compra de produtos alimentares exportados pelos EUA.
«O dinheiro e/ou as sanções que o Tesouro dos EUA está a levantar serão utilizados exclusivamente para a compra de alimentos e fornecimentos médicos, exclusivamente aos Estados Unidos, incluindo milho, trigo e soja dos nossos grandes agricultores americanos», explicou Trump.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmail Baghaei, rejeitou essa condição em conferência de imprensa.
«No que diz respeito aos ativos iranianos desbloqueados, tomaremos decisões da forma que melhor sirva os interesses do país e seja mais benéfica», afirmou Baghaei.
«Quanto à compra de bens, o nosso Ministério da Agricultura e outras autoridades competentes decidirão com base tanto no preço como na qualidade. Por conseguinte, não existem restrições a este respeito.»
Situação no estreito de Ormuz permanece incerta
Entretanto, a situação relativa à passagem de navios de carga pelo estreito de Ormuz mantém-se pouco clara.
O Comando Central dos EUA (CENTCOM) negou declarações atribuídas à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC), que no sábado afirmara ter voltado a encerrar a via marítima, invocando «uma violação clara» dos compromissos do acordo-quadro.
Dados de tráfego marítimo da empresa de monitorização Kpler indicaram que apenas cinco navios atravessaram o estreito no domingo, contra 26 no dia anterior. Na segunda-feira, o número subiu para 35, o dia mais movimentado desde o início da guerra, embora ainda represente cerca de um terço dos níveis de tráfego anteriores ao conflito.
«Não haverá portagens no estreito de Ormuz durante 60 dias, no período de cessar-fogo, e não haverá portagens depois de terminado esse período de 60 dias, a menos que sejam impostas pelos e para os Estados Unidos da América», declarou Trump no sábado.
Depois dessas declarações, Ghalibaf disse aos meios de comunicação estatais iranianos que o estreito «nunca voltará às condições anteriores à guerra» e que o Irão manterá autoridade sobre a via marítima.
O Irão e Omã emitiram um comunicado conjunto no qual afirmam estar a trabalhar para chegar a um acordo sobre a forma como a via marítima será gerida em conjunto e sobre «os serviços que serão prestados nesse âmbito e os custos associados, em conformidade com as normas internacionais».
Os dois países sublinharam a sua soberania sobre as águas territoriais no estreito. Responsáveis omanitas salientaram depois que nenhum dos dois países tenciona impor encargos à navegação comercial e que qualquer novo mecanismo cumprirá o direito internacional.
O Omã está igualmente a trabalhar com a Organização Marítima Internacional para estabelecer um corredor de trânsito temporário.
Ghalibaf e o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi viajaram diretamente da Suíça para Mascate para avançar nas discussões sobre a implementação.
«Vemos o futuro da região não na confrontação, mas na interação, não na eliminação, mas na convivência. A segurança regional tem de ser garantida pelos próprios países da região», afirmou Ghalibaf na quarta-feira.
O secretário de Estado Marco Rubio, que falava em Abu Dhabi no início de uma digressão regional que inclui o Kuwait e o Barém, afirmou que Washington não aceitará quaisquer taxas no estreito.
«Trata-se de uma via marítima internacional. Nenhum país tem autorização para cobrar portagens ou taxas numa via marítima internacional», disse Rubio. Acrescentou que a visita se centrará nas preocupações dos Estados do Golfo com o memorando de entendimento, que não aborda o programa de mísseis do Irão nem o seu apoio a proxies regionais.
Nova disputa em torno das inspeções nucleares
Entretanto, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, falando a partir do Japão, afirmou que equipas de inspeção poderiam visitar instalações iranianas dentro de poucos dias. A resposta de Teerão deixou claro que esse calendário não foi acordado.
Trump afirmou que o Irão tinha «aceitado completamente» as inspeções nucleares. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Kazem Gharibabadi, contrariou frontalmente essa versão.
«Não se realizou qualquer reunião na Suíça com o senhor Grossi, apesar do seu pedido», escreveu na rede X.
«Também não existe qualquer plano para acesso às instalações que foram atacadas ou aos materiais nucleares. Estas questões só serão tratadas no quadro de um acordo final e na sequência de ações concretas da outra parte para levantar totalmente todas as sanções.»
Um dos principais mediadores, o Paquistão, anunciou a retoma, na próxima semana, das conversações técnicas, com a participação de Irão, EUA, Paquistão e Catar.
Ambas as partes indicaram que foi estabelecido um canal de comunicação direta entre Teerão e Washington para gerir eventuais escaladas durante as negociações.
A guerra em curso entre Israel e o Hezbollah, aliado do Irão no Líbano, permanece entre as questões por resolver, com Teerão a insistir que o fim dos combates é condição essencial para alcançar um acordo final com os EUA, embora o atual acordo-quadro abranja «todas as frentes», incluindo o Líbano.
Israel, que não é parte no acordo, rejeita essa interpretação. O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Sa'ar, afirmou, numa conferência internacional em Telavive, na quarta-feira, que o Hezbollah lançou mais de 7 000 rockets, mísseis e drones contra Israel desde março.
«Que país pode aceitar isto e não agir para restabelecer a segurança dos seus cidadãos?», questionou.
Sa'ar afirmou que Israel não tem qualquer disputa séria com o governo libanês, para além de pequenas questões fronteiriças, mas descreveu o Hezbollah como «o inimigo do futuro, da soberania e da independência do Líbano e também o inimigo da segurança de Israel».
O Hezbollah iniciou a atual vaga de combates em 2 de março, numa ação que descreveu como resposta à morte do aiatola iraniano Ali Khamenei, morto nos primeiros ataques norte-americanos e israelitas contra Teerão no início da guerra do Irão, em 28 de fevereiro.
As operações contínuas de Israel levaram o Irão a suspender temporariamente as conversações na Suíça em 19 de junho e a encerrar brevemente o estreito de Ormuz dois dias depois. Um segundo cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, mediado pelos EUA, Catar e Irão, entrou em vigor em 19 de junho, embora Israel tenha continuado a efetuar ataques depois do prazo. Estão em curso em Washington, até quarta-feira, conversações entre Líbano e Israel.
Israel declarou a intenção de manter uma zona de segurança até ao rio Litani e não se comprometeu a uma retirada total, posição que continua a ser o principal obstáculo à assinatura, pelo Irão, de qualquer acordo final. O Ministério da Saúde do Líbano registou mais de 3 700 mortos durante a intervenção israelita desde março.
O Hezbollah é o elemento mais forte do chamado Eixo de Resistência de Teerão, a rede de proxies regionais que inclui ainda os Houthis no Iémen, o Hamas em Gaza e milícias no Iraque.