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Tudo o que precisa saber para sobreviver aos primeiros Sanfermines

Rapaziada já espalha alegria pelas ruas de Pamplona
Juventude espalha já alegria pelas ruas de Pamplona Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Cristian Caraballo
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A Euronews faz uma revisão bem-disposta dos termos, figuras e rituais essenciais das festas de San Fermín, para que nenhum forasteiro se sinta perdido em Pamplona.

A cada 7 de julho, Pamplona deixa de ser uma cidade tranquila do norte e ganha um idioma próprio. Fala-se de encierros, de peñas, de charangas e de "txistularis" com a mesma naturalidade com que noutro sítio qualquer se fala do tempo, e quem chega de fora sem vocabulário prévio corre o risco de passar nove dias a acenar com a cabeça sem perceber nada. Para evitar isso, aqui fica um pequeno manual de sobrevivência linguística, pañuelico na mão.

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Uniforme (não, não é opcional)

Como em qualquer festa que se preze, é preciso vestir o uniforme regulamentar se quiser fazer parte de um evento deste calibre. Vamos por partes, porque isto consta de um par de peças:

  • "Pañuelico": o lenço vermelho que "abraça" o pescoço de meio milhão de pessoas durante uma semana. Há uma regra não escrita, quase religiosa: não se ata antes de o foguete do chupinazo rebentar no céu. Pô-lo antes é a versão sanferminera de assobiar num teatro. Garantimos que não será a única coisa vermelha a decorar o seu corpo.
  • Camisola branca: admire-a e aproveite para tirar uma fotografia antes de sair de casa, porque é a última vez que vai ver aquele branco imaculado no corpo. Mal põe um pé na rua, a probabilidade de acabar manchada pelo pior tinto que alguém conseguiu comprar no supermercado é de 99%. Se quiser completar, leve umas calças brancas, embora seja provável que acabem quase negras, cor de cinza, de tantas vezes que se vai sentar no chão.
  • Faixa: o cinto vermelho que remata o uniforme branco. Tem uma função estética, claro, mas também muito prática para quem leva consigo mais almoço e mais vinho ou kalimotxo do que o recomendável. Segura o que houver para segurar.
  • Óculos de natação: este elemento não é obrigatório per se, em lado nenhum o vai encontrar como parte do uniforme oficial das festas. Mas, quando pela quarta vez lhe cair cerveja ou vinho na cara e tiver de o limpar como quem tira as remelas logo pela manhã, vai lembrar-se deste humilde guia e do cavalheiro que assina estas linhas.
  • Moço/a: tecnicamente chama-se assim aos que correm qualquer um dos sete encierros que compõem as festas de Navarra. Na prática, qualquer pessoa vestida de branco e vermelho que se passeia por Pamplona nesses dias, corra ou não corra, mesmo que a sua maior façanha desportiva tenha sido chegar de pé até ao almoço ou sprintar para apanhar o último autocarro do dia.
Aqui, um jovem mostra de forma gráfica como vai acabar a camisola branca que escolher para os dias seguintes.
Aqui, um jovem mostra de forma gráfica como vai acabar a camisola branca que escolher para os dias seguintes. AP Photo

Calendário, seguido à risca

  • Chupinazo: o foguete que é lançado da varanda da Câmara Municipal às 12:00 de 6 de julho e que marca oficialmente o início da festa. O que nenhum cartaz diz é que a festa, extraoficialmente, já leva algum tempo a decorrer nas ruas em redor.
  • '¡Gora San Fermín!': o grito que se segue ao chupinazo, ao padroeiro e, curiosamente, também à primeira rolha de champanhe que sai a voar. 'Gora' é 'viva' em euskera. Caminho rumo ao A1 de euskaldún.
  • Encierro: os 849 metros de rua empedrada que percorrem os touros, e quem se atreve a acompanhá-los, todas as manhãs às oito em ponto. Dura pouco mais de dois minutos, mas na memória de quem corre estica-se até se transformar na história que vai contar durante o resto do ano.
  • "Pobre de mí": o cântico com que Pamplona se despede das suas próprias festas à meia-noite de 14 de julho, pañuelico em alto, na Praça Consistorial. É, provavelmente, o único momento do ano em que uma cidade inteira admite em voz alta que a festa acabou e que é preciso voltar à vida normal.
  • Ya falta menos: A frase que o presidente da câmara solta da varanda logo depois do "Pobre de mí", e que resume melhor do que qualquer discurso o espírito sanferminero: a festa termina, mas a contagem decrescente para a seguinte começa nessa mesma noite.

Ofícios menos fotografados

  • Pastor: quem caminha atrás dos touros com uma vara de freixo ou de avelaneira, vigiando para que a manada não se disperse. O seu trabalho começa antes de mais alguém se ter levantado e termina quando já toda a gente está a celebrar que acabou.
  • Doblador: o moço com capote que espera os touros dentro da praça para os ajudar a entrar no curral. É o último elo do encierro e o mais ignorado pelas câmaras, que nessa altura já estão focadas nos corredores estendidos no chão.
  • Gaitero/txistulari: os músicos de gaita e txistu que animam procissões, desfiles e atos institucionais. A sua banda sonora é tão constante durante esses dias que, passada a primeira semana de agosto, qualquer pamplonica jura continuar a ouvi-la em fundo.
  • Comparsa de Gigantes y Cabezudos: o desfile de figuras de cartão-piedra que representam os quatro continentes, acompanhadas pelos Cabezudos e pelos Zaldikos, essas figuras em forma de cavalo cujo nome, em euskera, significa exatamente isso. É a versão sanferminera do terror infantil bem entendido: as crianças fogem dos Cabezudos entre risos e gritos e voltam para mais no dia seguinte.
Os manteos às pessoas antes ou depois do chupinazo também são habituais.
Os manteos às pessoas antes ou depois do chupinazo também são habituais. AP Photo

Logística para aguentar nove dias

  • Peña: a turma organizada, com sede própria (normalmente uma cave ou uma garagem), camisola ou lenço distintivo e, quase sempre, uma relação complicada com o sono. Desfilam juntas, cantam juntas e, curiosamente, também atravessam a ressaca juntas.
  • Charanga/"txaranga": o grupo de sopros e percussão que transforma qualquer rua em pista de dança a qualquer hora do dia. Não há pausa para comer que não acabe em roda à volta de uma charanga.
  • Almuercico: a refeição em turma que marca o verdadeiro ritmo das festas: antes do chupinazo no primeiro dia e depois do encierro no resto das jornadas. É, na prática, o verdadeiro pequeno-almoço dos Sanfermines, embora chegue a meio da manhã e com muito mais substância do que qualquer pequeno-almoço normal. E, como deve ser, bem regado com o tinto do supermercado mais barato.
  • Villavesa: o nome popular dos autocarros urbanos de Pamplona, que dá título ao "encierrico de la Villavesa" com que se fecham as festas a 15 de julho. Um pequeno tributo festivo ao transporte público que, durante nove dias, já viu de tudo, desde famílias a caminho das primeiras festas até jovens em posições dignas de ioga com mais álcool do que sangue no corpo.
  • Riau-Riau: esse desfile municipal ao ritmo do "Vals de Astráin" que mistura protocolo e protesto em partes iguais, a verdade é que o vocabulário sanferminero muda pouco de um ano para o outro. O que sim muda é quem o aprende pela primeira vez em cada julho, pañuelico na mão e sem saber ainda que, dentro de nove dias, também ele vai dizer aquele "ya falta menos".
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