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Irão: “Todos os caminhos parecem fechados” perante hipótese de invasão por parte dos EUA

Homem conduz mota enquanto rapazes andam de bicicleta no centro de Teerão, Irão, quarta-feira, 22 de julho de 2026 (Foto AP/Vahid Salemi)
Um homem numa mota passa por rapazes de bicicleta no centro de Teerão, Irão, quarta-feira, 22 de julho de 2026. (Foto AP/Vahid Salemi) Direitos de autor  AP Photo
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De Babak Kamiar
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Euronews ouviu cinco iranianos sobre se a presença militar dos EUA no país significaria libertação ou desastre. As respostas mostram um país sem soluções fáceis após quase 50 anos de República Islâmica e meses de guerra.

Responsáveis militares norte-americanos elaboraram cenários para uma operação terrestre no Irão e o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, não a excluiu, uma perspetiva que abriu um debate intenso e muito pessoal dentro do país sobre se botas estrangeiras em solo iraniano seriam uma libertação ou uma catástrofe.

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O porta-voz do exército iraniano, general de brigada Mohammad Akrami-Nia, avisou recentemente que qualquer entrada de forças dos EUA em território iraniano desencadearia uma resposta militar. “Se os norte-americanos pisarem uma das nossas ilhas, iremos, sem dúvida, atacá-los a partir do nosso território”, afirmou.

O deputado Ahmad Bakhshayesh Ardestani foi mais longe, alertando que Teerão poderá lançar operações terrestres contra aliados dos EUA no Golfo, incluindo o Kuwait e o Bahrein, se forças norte-americanas entrarem em território iraniano.

Trump tem repetidamente avisado que Washington está preparada para ir mais longe se Teerão não mudar de rumo e já ameaçou a República Islâmica com um inédito “ataque maciço”, numa nova escalada da retórica depois de o acordo provisório entre as duas partes ter falhado no início deste mês, levando ao reatamento dos combates.

A Euronews falou com cinco iranianos sobre a hipótese de uma operação terrestre norte-americana — se acreditam que vai acontecer, se poderia derrubar a República Islâmica e se estariam dispostos a combatê-la ou a acolhê-la.

Os seus nomes foram alterados para proteger a sua segurança.

“A maioria das pessoas que conheço é contra a guerra”

Ali, 36 anos, operário da construção em Karaj, não acredita que os EUA enviem forças terrestres para o Irão.

“Não creio que os Estados Unidos entrem no Irão com forças terrestres. Mesmo que quisessem, não conseguiriam tomar as ilhas nem as zonas do sul do país”, disse à Euronews.

Disse opor-se à guerra porque seriam os iranianos comuns a pagar o preço mais elevado. “As pessoas no Irão já vivem sob pressão. A guerra só aumentaria essa pressão.”

Questionado se preferia a continuação das sanções e das restrições marítimas ou uma guerra que pudesse trazer mudança política, respondeu: “Escolheria o levantamento do bloqueio marítimo, por qualquer via possível.”

Ali diz que a opinião à sua volta mudou depois de os primeiros 40 dias de guerra não terem derrubado a República Islâmica.

“A maioria das pessoas que conheço é contra a guerra. Antes da guerra dos 40 dias, alguns apoiavam uma ação militar porque acreditavam que poderia levar ao colapso do sistema”, explicou.

“Mas, como isso não aconteceu, muitos mudaram de ideias. Agora acreditam que este governo não cairá por causa da guerra e que serão apenas as pessoas comuns a sofrer. Pessoalmente, não penso que este regime vá desmoronar-se através da guerra.”

Perante a especulação sobre operações terrestres iranianas contra estados do Golfo, Ali desvalorizou. “A era da guerra terrestre terminou. A tecnologia militar deles é mais avançada do que a nossa. Se as nossas forças entrassem no Kuwait, seriam atingidas a partir do ar e não conseguiriam nada.”

“Ocupação seria derrota humilhante para o regime”

Jamshid, 44 anos, gere uma banca de jornais em Teerão. Ao contrário de Ali, acredita que a entrada de tropas dos EUA no sul do Irão ou nas suas ilhas é uma possibilidade real — embora diga que teria um custo elevado para os iranianos, independentemente das suas posições políticas.

“Como iraniano, não queria que as coisas chegassem a este ponto, porque, se a entrada do exército dos EUA no Irão implicar atingir infraestruturas, pontes, recursos básicos, bases e complexos petroquímicos, o Irão sofrerá enormemente”, disse à Euronews.

“Nessa situação, já não é apenas em prejuízo da República Islâmica; o povo iraniano também sofrerá.”

Mulheres sentadas na esplanada de um café no centro de Teerão, na quarta-feira, 22 de julho de 2026. (AP Photo/Vahid Salemi)
Mulheres sentadas na esplanada de um café no centro de Teerão, na quarta-feira, 22 de julho de 2026. (AP Photo/Vahid Salemi) AP Photo

Disse que poderia apoiar uma intervenção em condições muito específicas. “Se a entrada de forças americanas não significar destruir as infraestruturas do país e se levar à queda da República Islâmica ou obrigá-la a chegar a um acordo com os Estados Unidos — permitindo que o Irão se torne algo semelhante à China após Mao — então preferiria a entrada de forças americanas no Irão.”

Jamshid considera que qualquer perda territorial enfraqueceria politicamente o governo. “Se parte do Irão for ocupada, isso será devastador e humilhante para a República Islâmica e poderá aumentar a possibilidade de colapso.”

Mas disse não conhecer ninguém que estivesse disposto a combater ao lado dos soldados norte-americanos. “Não conheço ninguém que diga que lutaria com o exército americano. Mas os Estados Unidos não precisam de pessoas comuns a combater por eles.”

“Talvez uma ocupação obrigasse a um acordo”

Laleh é professora de sociologia no ensino secundário em Teerão. Acredita que os EUA poderiam ocupar partes da costa sul do Irão ou algumas ilhas e que a República Islâmica não teria capacidade para as recuperar.

“Penso que a América poderia ocupar partes das ilhas ou do sul do Irão. Se isso acontecer, não creio que a República Islâmica tenha capacidade para recuperar essas zonas”, disse à Euronews, acrescentando que não acredita que uma ocupação derrube o governo, mas pensa que acabaria por forçar negociações.

“Uma ocupação não derrubaria necessariamente a República Islâmica. O governo poderia justificá-la perante os seus apoiantes. Mas, em última análise, teria de negociar para recuperar os territórios ocupados.”

Parichehr, 46 anos, é advogada. Disse à Euronews que não espera uma operação terrestre — “Não acredito que o Governo dos EUA envie o seu exército para um país tão grande como o Irão” — mas, quando questionada diretamente se a apoiaria, deu uma resposta inesperada.

“Neste momento, apoio pessoalmente a presença de forças americanas no Irão”, afirmou.

Foi prudente ao tirar conclusões dos casos do Afeganistão e do Iraque. “Quando falamos com afegãos, muitos estão descontentes com o período de presença americana no seu país, embora uma minoria esteja satisfeita. Não posso fazer um juízo definitivo apenas com base na sua experiência”, afirmou Parichehr.

Segundo a própria, décadas sob a República Islâmica empurraram alguns iranianos para uma posição que antes não teriam sequer considerado.

“Há quase 50 anos que os iranianos vivem sob a República Islâmica”, disse Parichehr.

“Tentámos diferentes formas de melhorar a situação, mas, quando todas as vias parecem fechadas, as pessoas começam a ponderar se não se deve testar outra opção”, acrescentou.

“Mesmo sem conhecer todas as consequências de um novo caminho, pode-se preferir não continuar pela mesma estrada.”

“A minha família e eu iríamos combater”

Morteza, 38 anos, é mecânico em Teerão. Considera impossível uma invasão terrestre, mas descreveu o que pensa que aconteceria se isso viesse a ocorrer.

“Na minha opinião, um ataque terrestre dos EUA é impossível. No máximo, os Estados Unidos poderão bombardear Teerão com mísseis, como nos dias antes do Ano Novo. Não vão elevar o nível da guerra para além disso”, disse Morteza à Euronews.

“Mas, se entrarem por terra e ocuparem partes do sul do Irão, então o país atingirá o Kuwait e o Dubai com mísseis de forma a causar danos e destruição extensos”, acrescentou.

Disse que pegaria em armas, independentemente da sua opinião sobre o governo. “O Irão é a nossa casa e conhecemos este país melhor. É como alguém entrar à força em sua casa. Tenta-se expulsá-lo por todos os meios”, afirmou Morteza.

“Se forças americanas entrarem no Irão, juntar-me-ei às forças armadas iranianas para defender o meu país e a minha família. Sabemos que os nossos meios não chegam, mas lutaríamos para impedir que o país fosse ocupado.”

Questionado se a República Islâmica deveria manter-se no poder, respondeu: “Face à situação económica atual, penso que, para já, é melhor que a República Islâmica permaneça. Se colapsar, ninguém sabe quem ficará a controlar o país.”

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