Primeira escolha do comité, um guarda-redes amador do sudeste de Londres, recusou, alegando outras responsabilidades. A família do falecido rei rejeitou depois o substituto e apresentou um testamento de 2022 que o comité ignorou.
Um guarda-redes de uma divisão amadora, oriundo do sudeste de Londres, recusou na semana passada o trono do Reino de Tooro, no Uganda, desencadeando uma disputa sucessória que acabou por se transformar em confronto aberto antes do funeral do rei Oyo, no sábado.
George Desmond Kamurasi, 36 anos, capitão e guarda-redes dos SE Dons — clube de Crayford que milita no nono escalão do futebol inglês — foi escolhido por um comité de sucessão real, composto por 21 membros, como candidato preferencial para suceder ao primo, o rei Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV.
Quinze dos 18 membros que participaram na votação apoiaram a sua candidatura. Ele recusou, invocando outras responsabilidades, contou o padre Charles Oyo, membro do comité, à ESPN.
Na tradição de Tooro, recusar o trono depois de ser formalmente escolhido é considerado uma desonra. Kamurasi ainda não comentou publicamente a decisão.
Segundo a comunicação social ugandesa, o guarda-redes mostrou-se relutante em deixar Londres — tem família em Inglaterra e ia disputar uma eliminatória de qualificação da Taça FA Vase no mesmo fim de semana do funeral de Oyo.
O comité virou-se então para o príncipe Edward Rukidi Kijanangoma, pivô de notícias e editor na televisão pública ugandesa UBC, que foi anunciado como sucessor no início desta semana. Essa decisão foi entretanto rejeitada pela família direta do falecido rei.
“Deixem-nos fazer o luto”
O rei Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV, que subiu ao trono aos três anos e reinou sobre o Reino de Tooro durante 31 anos, morreu recentemente aos 34 anos, enquanto recebia tratamento contra o cancro nos Estados Unidos.
O Guinness World Records tinha-o reconhecido como o monarca reinante mais jovem do mundo.
Várias milhares de pessoas reuniram-se no sábado, no Uganda, para prestar a última homenagem ao monarca, com o presidente Yoweri Museveni a apelar à unidade.
“Assim que a questão do novo rei dos Batoro estiver resolvida, teremos todo o gosto em trabalhar com ele, tal como fizemos com Sua Alteza Oyo”, afirmou numa declaração lida durante a cerimónia de sábado na Catedral de Saint John, na cidade de Fort Portal, no oeste do Uganda.
“Apelo aos Batoro para que usem meios pacíficos e legais para resolver esta questão e privilegiem a unidade em detrimento da divisão.”
A disputa provocou uma cisão na família real, tendo a mãe do falecido rei denunciado que ela e outros membros da realeza foram colocados, na prática, em prisão domiciliária.
A irmã do rei, a princesa Ruth Komuntale, acusou “abutres maléficos” de conspirarem contra ela e contra a rainha-mãe Best Kemigisa.
A princesa apresentou um testamento que, disse, o rei redigiu em 2022, no qual designava “um filho biológico” como herdeiro, sem o identificar pelo nome.
A revelação surpreendeu muitos membros da elite de Tooro, que nunca tinham ouvido falar desse filho e não incluíram o seu nome na votação sobre a sucessão.
O comité real Babiito, que tradicionalmente preside e decide sobre questões ligadas às linhagens reais, à sucessão e aos assuntos de família, defendeu a sua escolha no sábado.
“Fizemos tudo em respeito pela cultura e pelas tradições de Tooro. Temos de preservar todos a paz e a serenidade”, afirmou o presidente do comité, Omusuuga Charles Karumasi.
A rainha-mãe afirmou, em comunicado, que a batalha pela sucessão está a comprometer a capacidade de fazer o luto pela morte do rei.
“Apelo também a todos os que disputam o trono: por favor, haverá tempo para tratar disso”, acrescentou, na mesma declaração. “Agora, deixem-nos fazer o luto e sepultar o meu filho, o rei Oyo.”
“Uma daquelas mortes de que nunca se recupera”
O Uganda é uma república, mas reconhece oficialmente quatro reinos tradicionais, que foram proibidos após a independência do domínio colonial britânico por um presidente republicano que dizia querer unificar o país, tendo sido restaurados em 1993.
Estes reinos funcionam sobretudo como instituições culturais, com poderes políticos limitados.
Oyo chegou a ser conhecido, de forma informal, como o rei mais jovem do mundo, uma figura muito acarinhada mesmo por líderes mundiais que o conheceram em cerimónias oficiais, entre eles Nelson Mandela, da África do Sul. Regentes nomeados pelo reino orientaram Oyo até ele atingir a maioridade, aos 18 anos.
O falecido líder líbio Muammar Kadhafi criou uma relação de grande proximidade com a família real de Tooro, tratando-a como se fosse parte da sua família alargada. Fez várias deslocações ao Uganda e apoiou Oyo e a mãe durante anos, até à sua morte, em outubro de 2011.
“Esta é uma daquelas mortes, do tipo Bob Marley, de que nunca se recupera”, escreveu Timothy Kalyegira, um conhecido analista natural de Tooro, num elogio fúnebre publicado na plataforma social X.
“Não o Oyo, não aquele jovem simpático, não aos 34 anos. É isso que torna tudo tão doloroso.”
“Tinha o dom de fazer as pessoas rir”, afirmou a irmã, a princesa Ruth Komuntale, na cerimónia de enterro.
“Sabia sempre como iluminar o meu dia”, acrescentou.