Ativista torturado pelo regime de Maduro destaca a "vontade política" da oposição e dos EUA em realizar o sufrágio, frisando a necessidade de revogar a inelegibilidade de María Corina Machado, que diz ser uma mulher "íntegra" e a candidata ideal do seu partido para disputar a presidência do país.
Desde a captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, a 3 de janeiro deste ano, a Venezuela, sob a liderança da ex-vice-presidente Delcy Rodríguez, tem sido pressionada pelos Estados Unidos (EUA) a dar passos em direção a uma transição democrática.
As negociações, iniciadas em agosto, deram origem, para já, a entendimentos teóricos sobre a urgência de reformar o sistema judicial, de garantir o exercício dos direitos políticos e de recuperar as reservas de ouro da Venezuela depositadas no Banco de Inglaterra.
Não há ainda avanços quanto a uma data para eleições, mas é "totalmente possível" que venham a realizar-se em 2027, afirmou Jesús Armas, numa entrevista à Euronews em Portugal, aonde se deslocou para participar na 10.ª edição das Conferências do Estoril.
Na visão do ativista torturado pelo regime de Maduro, existe margem de manobra a nível técnico e conjuntural para que se realize um sufrágio independente no próximo ano. "Sinto que, hoje, há a vontade política da oposição, claro, e do governo dos Estados Unidos. E não restará outra opção a Delcy Rodríguez", realçou Armas, que é um dos dirigentes nacionais do partido Vente Venezuela, fundado por María Corina Machado, líder da oposição.
Um alto funcionário do Departamento de Estado norte-americano apresentou, na semana passada, um calendário de reformas que, uma vez cumprido, abriria caminho a eleições em 2027. Numa comunicação à imprensa por videoconferência, adiantou que o novo Supremo Tribunal de Justiça deverá estar constituído até ao final de 2026, seguindo-se, pouco depois, a formação de um novo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
De acordo com estas indicações da diplomacia norte-americana, Delcy Rodríguez declararia, posteriormente, que o cargo de Presidente ficaria vago, o que daria início a um prazo de seis meses para a convocação da votação, cuja data seria determinada pelo "novo CNE apolítico".
Na mesma ocasião, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deu conta de progressos nas negociações, embora tenha ressalvado que não pode haver eleições legítimas sem antes ser feita uma reforma das instituições eleitorais e judiciais.
Jesús Armas refere que a criação da "nova autoridade eleitoral" e a marcação das eleições presidenciais para 2027 estão entre os objetivos para os "próximos meses", a par da libertação dos restantes presos políticos. A Casa Branca está a desenhar, em articulação com a oposição venezuelana, "um roteiro claro no sentido da transição, da democracia", insiste.
María Corina Machado como única opção
O círculo próximo de Machado não faz parte da delegação da oposição que está a negociar com o executivo interino, estando essa representação a cargo da fação ligada à Assembleia Nacional eleita em 2015, a última legislatura venezuelana resultante de um processo reconhecido por Washington como democrático.
Num comunicado assinado em conjunto com Edmundo González Urrutia em julho, a antiga deputada explicou que se afastaria por não ter participado na conceção do mecanismo de diálogo, deixando claro, ainda assim, que não criaria obstáculos às conversações.
No domingo, 25 de outubro, Machado regressou à Venezuela após dez meses de exílio, mas continua sem poder candidatar-se a cargos públicos durante 15 anos, uma sanção confirmada pela justiça venezuelana em janeiro de 2024.
Jesús Armas considera o regresso da principal figura da oposição um fator que contribui para uma "nova esperança" e sublinha que o veto legal terá de ser revogado.
"Não há hipótese de manterem a inelegibilidade de María Corina Machado se fizermos uma transição para a democracia. Não faz qualquer sentido. Ela é uma venezuelana íntegra, uma venezuelana honesta", declara, antes de enfatizar o "altruísmo" da mulher galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2025.
"Apoiou Corina Yoris, apoiou Edmundo González Urrutia, e demonstrou que, para ela, a prioridade é a Venezuela", afirmou Armas, que não equaciona nomes alternativos para as próximas eleições.
"Não nos parece possível que ela não seja a candidata, porque, caso contrário, não estaríamos a construir um caminho para a liberdade", notou o antigo vereador de Caracas.
UE terá "papel importantíssimo"
Em setembro deste ano, a organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) fez a primeira visita à Venezuela desde que foi expulsa do país em 2008. Depois de uma reunião com Delcy Rodríguez, o vice-diretor executivo da HRW, Federico Borello, observou que o executivo interino tem promovido "uma pausa nas formas mais evidentes de repressão".
Apesar de reconhecer que, hoje em dia, os venezuelanos têm "muito mais liberdade de expressão", Jesús Armas salienta que há 322 presos políticos nas cadeias venezuelanas e que "ainda há medo". "Há uns dias, houve uma tentativa de sequestro de um líder sindical", recorda.
O ativista que, durante os 14 meses em que esteve preso foi submetido a asfixia, isolamento prolongado e coação psicológica, descreve Delcy Rodríguez como uma "criminosa" e "violadora de direitos humanos", acusando os membros do atual governo de terem a "mesma vocação para torturar que Nicolás Maduro teve".
No entanto, a realidade no país mudou devido à intervenção dos Estados Unidos, que atuam como um "muro de contenção".
"Hoje, não somos só nós que temos medo. Delcy Rodríguez também tem muito medo dos Estados Unidos", vinca o dirigente político.
No processo de redemocratização, a Venezuela conta com o apoio de Washington e, igualmente, da União Europeia, que, como "bastião da democracia no mundo", terá um "papel importantíssimo" para "equilibrar muitas coisas".
Jesús Armas faz um apelo ao bloco europeu para que acompanhe os setores da oposição e exerça pressão, de modo a ser mais uma força na tentativa de levar ao terreno eleições presidenciais livres e justas que ponham fim a 27 anos de chavismo.
Veja, no vídeo acima, a entrevista com Jesús Armas nas Conferências do Estoril 2026.