Um novo símbolo subversivo da oposição política dos gronelandeses ao presidente dos EUA, Donald Trump, apareceu online: bonés vermelhos com as palavras "Make America Go Away". A maioria dos bonés é comprada por clientes norte-americanos.
Os bonés vermelhos da Gronelândia assemelham-se aos bonés icónicos do movimento "Make America Great Again", cuja mensagem é exatamente o oposto do slogan de Trump.
A campanha nasceu na Gronelândia onde há uma preocupação crescente com os anúncios renovados de Donald Trump para assumir o controlo desta ilha autónoma pertencente ao Reino da Dinamarca.
Um dos pioneiros da venda de bonés é Victor Schøtt, fundador da iniciativa Greenland Support, e numa entrevista à Business Insider sublinhou que o projeto não visa os americanos enquanto nação, mas sim o estilo de política externa representado por Trump. "Trata-se desta América de Donald Trump que quer apoderar-se da Gronelândia" e não da população dos EUA no seu conjunto.
As vendas dos bonés vermelhos começaram há cerca de um mês e rapidamente ganharam força, sendo atualmente vendidas várias centenas de bonés por semana. A maioria das encomendas provém dos Estados Unidos, seguidas da Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Reino Unido e países escandinavos. Os lucros das vendas revertem a favor de uma instituição de caridade para crianças da Gronelândia, o que aumentou ainda mais o interesse pela campanha.
Para além dos bonés "Make America Go Away", a gama incluía também um modelo com as palavras "Nu det NUUK" - um jogo de palavras que utiliza o nome da capital da Gronelândia, Nuuk, e que significa, traduzido livremente do dinamarquês, "Basta disto" (dinamarquês - "Nu det nok").
Ambos os slogans podiam ser vistos nos bonés dos manifestantes nos protestos em Nuuk e Copenhaga. Desta forma, um gesto simbólico transformou-se num elemento visível de uma oposição mais alargada à pressão política dos EUA.
Protestos contra Trump e defesa da autonomia da Gronelândia
A reação da população da Gronelândia foi rápida e decisiva. Nas últimas semanas, realizaram-se manifestações em Nuuk e noutras cidades, com os residentes a sublinharem que o futuro da ilha deve ser definido exclusivamente pelos gronelandeses.
Os manifestantes recordam que a Gronelândia, embora formalmente ligada à Dinamarca, tem uma ampla autonomia e há anos que debate uma possível independência - mas nos seus próprios termos e não sob a pressão de uma potência externa.
Os bonés simbólicos tornaram-se assim mais do que um gadget da Internet: são uma expressão de oposição ao tom imperial da política e um lembrete de que a Gronelândia não é propriedade de ninguém.
Paradoxalmente, o facto de o maior número de bonés estar a ser comprado por americanos mostra que há também um cansaço crescente nos próprios Estados Unidos em relação às políticas de confronto de Trump e solidariedade com aqueles que querem preservar a sua soberania.
As expetativas de Trump em relação à Gronelândia
O interesse de Donald Trump pela Gronelândia não é novo - em 2019, falou abertamente sobre a possibilidade de comprar a ilha, o que provocou surpresa internacional e uma forte recusa da Dinamarca.
No entanto, a Gronelândia é de grande importância estratégica: situa-se na interface entre o Ártico e o Atlântico, possui ricos depósitos de recursos naturais (incluindo metais de terras raras) e é um ponto-chave para os sistemas de defesa e comunicação dos EUA. A ilha já alberga a base espacial norte-americana Pituffik (antiga Thule), importante para a monitorização aérea e espacial.
Numa nova reviravolta na retórica de Trump, a Gronelândia é novamente apresentada como parte da segurança nacional dos EUA.
Donald Trump sugeriu que Washington deveria ter um maior controlo sobre a região do Ártico, especialmente no contexto da crescente atividade russa e chinesa. As declarações sobre uma possível pressão económica e mesmo militar foram vistas no Norte da Europa como um afastamento preocupante da anterior diplomacia baseada em alianças.