Chegam a tempo as primeiras entregas de GNL de Omã à Alemanha, mas análise da cadeia de abastecimento revela maior exposição de Berlim à crise no Médio Oriente
A Alemanha começou a receber os primeiros carregamentos de gás natural liquefeito (GNL) provenientes de Omã, numa altura em que a guerra no Médio Oriente estrangula as rotas de abastecimento globais, mas uma análise mais aprofundada à cadeia de fornecimento de gás do país sugere que Berlim poderá estar mais exposta à crise do que indicam os números oficiais.
Os carregamentos, previstos num contrato de quatro anos assinado em 2023 entre o produtor estatal de GNL de Omã e a importadora alemã Securing Energy for Europe (SEFE), arrancaram este mês como planeado, disse um porta-voz da SEFE à revista alemã Capital.
Omã fica na margem oposta do estreito de Ormuz, face ao Irão, e a empresa afirma que as entregas não estão a ser afetadas pelo conflito em curso.
A notícia representa uma rara nota positiva num panorama energético cada vez mais tenso.
O bloqueio iraniano ao estreito interrompeu todas as exportações de GNL do Catar, o segundo maior exportador mundial, e um ataque iraniano, em meados de março, às instalações de produção de Ras Laffan, no Catar, retirou 17% da capacidade produtiva do emirado.
A ministra da Economia, Katherina Reiche, tem procurado relativizar os riscos, afirmando que a Alemanha não recebe "quantidades significativas" de GNL do Golfo e que 90% do gás chega por gasoduto da Noruega, dos Países Baixos e da Bélgica.
Alemanha mais exposta do que se pensava?
Os números são tecnicamente corretos, mas escondem uma realidade mais complexa, segundo a Capital.
No ano passado, apenas 10,3% das importações de gás da Alemanha chegaram através dos seus quatro terminais de GNL, quase na totalidade provenientes dos Estados Unidos.
Já os Países Baixos e a Bélgica, que em 2025 forneceram em conjunto 45% das importações totais de gás da Alemanha, estão entre os maiores importadores de GNL da UE.
Roterdão e Zeebrugge recebem grandes volumes de gás liquefeito em navios-tanque, regaseificam-no e enviam-no por gasoduto para a Alemanha.
O terminal de Zeebrugge, na Bélgica, movimentou em 2025 um recorde de 55,5 terawatts-hora de GNL, o dobro do máximo anterior.
De acordo com a Capital, 45% das importações totais de gás dos Países Baixos em 2024 chegaram sob a forma de GNL, sendo que os carregamentos norte-americanos representaram, só por si, 30%.
Como a origem de cada molécula de gás que circula nos gasodutos não pode ser rastreada, é impossível determinar com precisão a verdadeira dimensão da dependência indireta da Alemanha do GNL e, por extensão, da exposição indireta ao fornecimento dos Estados Unidos. A tendência, porém, é clara.
Os níveis de armazenamento de gás na Alemanha aumentam a pressão. As reservas situam-se atualmente em cerca de 22%, um valor historicamente baixo para esta altura do ano, segundo a revista.
Há poucos incentivos de mercado para encher os reservatórios antes do próximo inverno, uma vez que os preços do gás a curto prazo e nos contratos futuros estão aproximadamente alinhados, o que significa que, neste momento, só os operadores que apostam num conflito prolongado estão a injetar gás.
A Agência Federal das Redes afirmou esta semana que não vê problemas de volume e que a segurança do abastecimento está garantida, sublinhando que as cláusulas de preço nos contratos com os consumidores funcionam como amortecedor face a choques imediatos no mercado.
Mas reconheceu que a volatilidade dos preços pode manter-se, consoante a duração do conflito.
Europa sob maior pressão de abastecimento de gás
O índice TTF, referência para o preço do gás na Europa, disparou temporariamente acima dos 60 euros por megawatt-hora após o ataque a Ras Laffan, o dobro do nível anterior à guerra, antes de estabilizar em cerca de 55 euros.
A consultora de energia ICIS projeta preços de 85 euros por MWh se o estreito de Ormuz se mantiver encerrado durante três meses, subindo para 120 euros em caso de encerramento por seis meses e para 150 euros se durar um ano inteiro.
O chanceler Friedrich Merz admitiu prolongar a vida útil das centrais a carvão para reduzir o consumo de gás na produção de eletricidade.
Entretanto, Reiche apelou aos importadores alemães para que assegurem contratos de fornecimento de longo prazo com produtores no Azerbaijão e na Argélia.
A SEFE lança também esta semana um novo concurso para entregas de GNL entre 2027 e 2036, destinado a terminais na Alemanha, França, Países Baixos e Bélgica, explicitamente concebido, segundo a empresa, para compensar perturbações de abastecimento vindas do Médio Oriente.