Com a inflação a disparar pela Europa após o recente conflito no Médio Oriente, o crescimento salarial anunciado na zona euro fica aquém, reduzindo salários reais e poder de compra dos trabalhadores
Os preços voltam a subir em toda a Europa, mas os salários não acompanham.
Na UE, a inflação atingiu 3,2% em abril de 2026, o nível mais elevado desde janeiro de 2024, e as estimativas rápidas do Eurostat apontam para novas subidas dos preços em maio.
Já a subida dos salários oferecidos nos anúncios de emprego na zona euro não acompanha a inflação, segundo a Indeed. Ou seja, a inflação está a crescer mais depressa do que estes salários anunciados em toda a Europa, o que penaliza fortemente o poder de compra dos trabalhadores, cujos rendimentos valem hoje menos do que antes.
As últimas pressões inflacionistas surgem depois de a UE ter atravessado o maior choque de preços em décadas. Em 2022, a taxa anual de inflação disparou para mais de 11%, em grande medida devido ao aumento dos custos da energia após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Como comparam então a inflação e a evolução dos salários oferecidos nas principais economias europeias?
Conflito no Médio Oriente: inflação volta a subir
Esteve abaixo dos 3% desde o início de 2024 até há pouco tempo. Mas, desde o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irão e a resposta de Teerão, no final de fevereiro de 2026, começou a desenhar-se uma tendência de subida gradual.
Em janeiro de 2026, a inflação anual na UE era de 2%. Subiu rapidamente para 2,8% em março e 3,2% em abril.
A inflação do pós-pandemia degradou o poder de compra dos trabalhadores nas principais economias europeias, já que os preços ao consumidor subiram mais depressa do que os salários. No início de 2026, os salários reais acumulados oferecidos em anúncios ainda estavam abaixo dos níveis anteriores à pandemia nas cinco maiores economias europeias, segundo a Indeed.
Com a subida da inflação após o recente conflito no Médio Oriente, o crescimento dos salários na zona euro ficou abaixo da inflação em março de 2026, com o fosso a alargar-se ainda mais em abril. Esta evolução inverteu a tendência que se verificava desde setembro de 2023, período em que o crescimento dos salários oferecidos superava de forma consistente a inflação na zona euro.
Com os preços ao consumidor a subir para 3,0% na zona euro em abril, os salários dos trabalhadores deixaram de acompanhar o aumento do custo de vida, de acordo com o indicador salarial da Indeed, que aponta para um crescimento homólogo dos salários oferecidos de apenas 2,3%.
Em janeiro de 2026, o crescimento dos salários oferecidos era de 2,4%, enquanto a inflação anual não passava de 1,7%, o que mostra bem como a situação mudou em pouco tempo.
“As pressões inflacionistas resultantes do choque global dos preços da energia começaram a surgir nos dados europeus, erodindo os ganhos de salários reais”, afirmou Aubrey Woessner, economista adjunta do Indeed Hiring Lab.
Reino Unido foge à tendência: salários superam a inflação
A inflação e a evolução dos salários oferecidos variam entre as principais economias europeias. O Reino Unido destaca-se com um crescimento homólogo destes salários de 4%, bem acima da taxa de inflação de 2,8%.
“Mesmo assim, o crescimento real dos salários está a estagnar. A perda de poder de compra vai pesar na procura nos próximos meses, somando-se a outros ventos contrários que a economia enfrenta”, observou Woessner.
Pawel Adrjan, diretor de investigação económica na Indeed, sublinhou que o Reino Unido mantém ainda uma almofada de salários reais que grande parte da zona euro já perdeu. A inflação britânica abrandou em abril, ajudada pelas medidas governamentais para baixar as faturas de energia, mesmo numa altura em que aumentava no resto do continente.
“Mas essa almofada de salários reais no Reino Unido está a desaparecer rapidamente. O crescimento dos salários oferecidos foi de 4,0% em termos homólogos em abril, apoiado em parte por um aumento de 4,1% do salário mínimo de referência, mas foi o ritmo mais lento em quatro anos”, disse à Euronews Business.
“Como o ritmo de contratação continua fraco, os ganhos recentes em salários reais vão desaparecer depressa se o conflito com o Irão mantiver os preços do petróleo e do gás em níveis elevados.”
O Reino Unido não está sozinho. Em abril de 2026, o crescimento dos salários oferecidos também superou a inflação na Alemanha e na Irlanda, embora por uma margem bem mais reduzida. Na Alemanha, esses salários aumentaram 3,2%, face a uma inflação de 2,9%. Na Irlanda, a diferença foi ainda mais curta, com um crescimento de 3,7% dos salários oferecidos, comparado com 3,6% de inflação.
Itália e França: trabalhadores são os mais penalizados
Itália e França surgem como os países onde os trabalhadores são mais atingidos. Em França, o crescimento dos salários oferecidos manteve-se estável em 1,1% ao longo de 2026, enquanto a inflação subiu de 0,4% em janeiro para 2,5% em abril.
Também em Itália os trabalhadores estão a perder terreno. O crescimento dos salários oferecidos tem estado abaixo de 0,8% desde meados de 2025, enquanto a inflação o supera de forma contínua há um ano. O fosso abriu-se ainda mais este ano, quando a inflação atingiu 2,8% em abril.
Embora a evolução mensal dê pistas importantes, o crescimento acumulado dos salários reais nos últimos anos oferece uma imagem mais completa.